Aggiornamento
Bendita seja a quarta-feira.
Se a segunda pressupõe que não seja queimada
a agenda de mais uma ferrada semaninha, a quarta é canário cantando.
Ainda que o despertador insista em martelar
nos tímpanos que hora certa é a que está programada, tem gente que não enrola para
sair da cama, porque sabe que ela existe.
Sabe, sim, que a quarta não falha por bagatela,
ela é porreta.
Mesmo numa segunda braba, levanta e toca
em frente. Pois é difícil, bem difícil, apagá-la. Como a cachola sabe que a quarta
tem realidade, nem é preciso agendá-la nem ficar surdo ao seu chamado.
Não há de tardar a quarta que vem.
Ainda que seja razoável pensar que a sua
existência não torne leve uma alma ancorada em compromissos inadiáveis, não se
há de ignorar a boa ideia que é o canário cantando no coração do cotidiano.
Não o ignorando, também é lógico
imaginá-lo num lugar aprazível, que lhe seja aconchegante. Sim, projetá-lo em um
ipê amarelo não tem nada de prepotente; aliás, tal pensamento revigorante é bem
bom.
Afinal, amarelo é cor que apazigua,
serena, faz suportável a chatice de feira, feira, feira, por cinco vezes, a
feira é feira. E ninguém é feirante o tempo todo, e é bem bom um sossego de vez
em quando.
Canário cantando em ipê amarelo, pouco
há que se lhe compare.
Mal comparando, insuportável é a
quinta-feira a quem vai à padaria pelo café com pão. Não um qualquer a outro
qualquer. Tal par supimpa: o café está adoçado e o pão vem da chapa.
Todavia, maldito e autoritário, o
resultado do futebol azeda a média. Negando o direito de passá-la batida, que a
quinta-feira fosse rotineira, na mesa ao lado, porém, comentam o jogo, elevam a
jogaço a partida da noite passada. E tchau, tchau, mavioso canarinho da terra.
Se a quinta já era, não se negue à sexta
o desejo de um futuro mais suingado. No salão, ergam-se canecas de chope. Pelas
mesas, bailem as bandejas. Entre pessoas extrovertidas por natureza e as
bailadoras por golinhos e golinhos de felicidade, cantem, encantem-se, vibrem
de tanta alegria. Não seja administrada com moderação, porque sexta boa pra
valer não acaba quando termina, dá ressaca.
Como corvo aborrece o sábado, que a
biriba no boteco fique adiada pro dia seguinte ao dia seguinte?
Quando urubu bica o domingo, deveria ter
tomado banho completo, deveria ter lavado atrás da orelha e passado bucha
embaixo do braço, pois trocar de roupa, pôr nova cueca e outras meias, que
assim nem o canário barra a brisa nem as folhas param no galho?
Amanhã, belo amanhã, pelamor!, venha,
voe ligeiro, e voe pelo céu, é anil o céu à luz do sol.
Pessoal que sustenta que sábados e
domingos tiram o estresse dos engarrafamentos nas ruas com o congestionamento em idas e voltas pelas estradas, perdão pela perspectiva?
Agora, agorinha, no meio deste instante,
não grassa às cinzas outra semente, pulsa, que a feira farte, já.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de agosto de 2022.
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