domingo, 21 de agosto de 2022

Aggiornamento

 

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Bendita seja a quarta-feira.

Se a segunda pressupõe que não seja queimada a agenda de mais uma ferrada semaninha, a quarta é canário cantando.

Ainda que o despertador insista em martelar nos tímpanos que hora certa é a que está programada, tem gente que não enrola para sair da cama, porque sabe que ela existe.

Sabe, sim, que a quarta não falha por bagatela, ela é porreta.

Mesmo numa segunda braba, levanta e toca em frente. Pois é difícil, bem difícil, apagá-la. Como a cachola sabe que a quarta tem realidade, nem é preciso agendá-la nem ficar surdo ao seu chamado.

Não há de tardar a quarta que vem.

Ainda que seja razoável pensar que a sua existência não torne leve uma alma ancorada em compromissos inadiáveis, não se há de ignorar a boa ideia que é o canário cantando no coração do cotidiano.

Não o ignorando, também é lógico imaginá-lo num lugar aprazível, que lhe seja aconchegante. Sim, projetá-lo em um ipê amarelo não tem nada de prepotente; aliás, tal pensamento revigorante é bem bom.

Afinal, amarelo é cor que apazigua, serena, faz suportável a chatice de feira, feira, feira, por cinco vezes, a feira é feira. E ninguém é feirante o tempo todo, e é bem bom um sossego de vez em quando.

Canário cantando em ipê amarelo, pouco há que se lhe compare.

Mal comparando, insuportável é a quinta-feira a quem vai à padaria pelo café com pão. Não um qualquer a outro qualquer. Tal par supimpa: o café está adoçado e o pão vem da chapa.

Todavia, maldito e autoritário, o resultado do futebol azeda a média. Negando o direito de passá-la batida, que a quinta-feira fosse rotineira, na mesa ao lado, porém, comentam o jogo, elevam a jogaço a partida da noite passada. E tchau, tchau, mavioso canarinho da terra.

Se a quinta já era, não se negue à sexta o desejo de um futuro mais suingado. No salão, ergam-se canecas de chope. Pelas mesas, bailem as bandejas. Entre pessoas extrovertidas por natureza e as bailadoras por golinhos e golinhos de felicidade, cantem, encantem-se, vibrem de tanta alegria. Não seja administrada com moderação, porque sexta boa pra valer não acaba quando termina, dá ressaca.

Como corvo aborrece o sábado, que a biriba no boteco fique adiada pro dia seguinte ao dia seguinte?

Quando urubu bica o domingo, deveria ter tomado banho completo, deveria ter lavado atrás da orelha e passado bucha embaixo do braço, pois trocar de roupa, pôr nova cueca e outras meias, que assim nem o canário barra a brisa nem as folhas param no galho?

Amanhã, belo amanhã, pelamor!, venha, voe ligeiro, e voe pelo céu, é anil o céu à luz do sol.

Pessoal que sustenta que sábados e domingos tiram o estresse dos engarrafamentos nas ruas com o congestionamento em idas e voltas pelas estradas, perdão pela perspectiva?

Agora, agorinha, no meio deste instante, não grassa às cinzas outra semente, pulsa, que a feira farte, já.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de agosto de 2022.

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