Pela
raiz
Súbito apareceu aquele bicho que tinha
fome. E não importava por onde entrara, mordia o pano porque o cérebro de
roedor farejou onde havia comida. Pouco lhe importava saber se o saco era de
arroz, aveia, farinha ou soja, queria comer. Possuído pela ideia de que tinha
mesmo que comer, devoraria o que encontrou.
Se não fosse prontamente repelido dali,
causaria prejuízo maior que ter um saco amaciado pela saliva asquerosa, enfim furado
por aqueles dentes mais do que vorazes, ensandecidos.
Bicho pestilento, imundo, nojento,
repugnante, que o matassem de imediato. Antes que lhe atribuíssem direitos de estar
vivo, como animal cuja vida nada tinha de boçal. Se nascera como era, se não
escolhera agir do jeito que agia, era um bicho qualquer, não o personificassem
a peste, era apenas um rato.
Os ruídos denunciavam a presença, mas nenhum dos funcionários estava presente para evitar os danos. Faltavam gatos no depósito; não espalharam chumbinho pelos cantos; e sequer funcionavam os sensores de movimento instalados.
A situação só piorava: atraídos por
barulho ou cheiro, vieram outros ratos, mais e mais ratos atacavam as sacas.
Sem exagero, havia uma alcateia desses famélicos, bestiais, ferozes roedores.
A rataria era muita. Tais ratos chiavam,
rinchavam, guinchavam de fome. Sem ninguém pra impedi-los, sacos e sacos foram
atacados. As pilhas do estoque foram o pasto. Àquilo tudo não haveria outro destino
que não o lixo. Na caçamba cheia de um caminhão, fosse levada toda aquela
comida: perdida, comprometida, contaminada.
E nos confins da cidade, urubus e homens
disputariam o que nem prestava comer. No monte fétido, baratas e ratazanas
brigariam. Nesse monumento: que reis, rainhas e infantes sobrepujem a ratos e
urubus.
Ao largo, entre pedras limosas, latas enferrujadas
e pneus carecas, espreitavam lacraias, aranhas, besouros, cobras, escorpiões. Que
eles sabiam esperar, pois, uma hora ou outra, o alimento acabava vindo.
Como a natureza não desperdiça práticas e sabedorias: a primeira norma diz que não morre de fome quem come de tudo; a segunda das lições, sobrevive quem na hora agá não dá um agá.
Pra não acabar com os burros n’água?
Que a pessoa pense. Pra que lixão não mais
exista, construam-se usinas. Para que não se formem montanhas de lixo, seja repensado
o consumo. Pra que seja mais ainda reduzido o descarte, haja reuso. Pra que se
fabrique saudável o ambiente, recicle-se a mente.
Que a pessoa não tema ao ter raiva,
cobre mudanças. Preserve-se lúcida, lute pelas mudanças. Aja com ódio, garanta as
mudanças.
Para que o ódio seja fecundo?
Saber-se imbecil enquanto os ratos roem
os pés. Em vez de tiro no pé, dar bicudas nos ratos. Armar as ratoeiras, e trazer
gatos. Ainda que os pensamentos hesitem, ganhar coragem.
Ironias à parte, o ódio vencer o medo é transformador.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de agosto de 2022.
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