domingo, 14 de agosto de 2022

Pela raiz

 

Pela raiz

 

Súbito apareceu aquele bicho que tinha fome. E não importava por onde entrara, mordia o pano porque o cérebro de roedor farejou onde havia comida. Pouco lhe importava saber se o saco era de arroz, aveia, farinha ou soja, queria comer. Possuído pela ideia de que tinha mesmo que comer, devoraria o que encontrou.

Se não fosse prontamente repelido dali, causaria prejuízo maior que ter um saco amaciado pela saliva asquerosa, enfim furado por aqueles dentes mais do que vorazes, ensandecidos.

Bicho pestilento, imundo, nojento, repugnante, que o matassem de imediato. Antes que lhe atribuíssem direitos de estar vivo, como animal cuja vida nada tinha de boçal. Se nascera como era, se não escolhera agir do jeito que agia, era um bicho qualquer, não o personificassem a peste, era apenas um rato.

Os ruídos denunciavam a presença, mas nenhum dos funcionários estava presente para evitar os danos. Faltavam gatos no depósito; não espalharam chumbinho pelos cantos; e sequer funcionavam os sensores de movimento instalados.

A situação só piorava: atraídos por barulho ou cheiro, vieram outros ratos, mais e mais ratos atacavam as sacas. Sem exagero, havia uma alcateia desses famélicos, bestiais, ferozes roedores.

A rataria era muita. Tais ratos chiavam, rinchavam, guinchavam de fome. Sem ninguém pra impedi-los, sacos e sacos foram atacados. As pilhas do estoque foram o pasto. Àquilo tudo não haveria outro destino que não o lixo. Na caçamba cheia de um caminhão, fosse levada toda aquela comida: perdida, comprometida, contaminada.

E nos confins da cidade, urubus e homens disputariam o que nem prestava comer. No monte fétido, baratas e ratazanas brigariam. Nesse monumento: que reis, rainhas e infantes sobrepujem a ratos e urubus.

Ao largo, entre pedras limosas, latas enferrujadas e pneus carecas, espreitavam lacraias, aranhas, besouros, cobras, escorpiões. Que eles sabiam esperar, pois, uma hora ou outra, o alimento acabava vindo.

Como a natureza não desperdiça práticas e sabedorias: a primeira norma diz que não morre de fome quem come de tudo; a segunda das lições, sobrevive quem na hora agá não dá um agá.

Pra não acabar com os burros n’água?

Que a pessoa pense. Pra que lixão não mais exista, construam-se usinas. Para que não se formem montanhas de lixo, seja repensado o consumo. Pra que seja mais ainda reduzido o descarte, haja reuso. Pra que se fabrique saudável o ambiente, recicle-se a mente.

Que a pessoa não tema ao ter raiva, cobre mudanças. Preserve-se lúcida, lute pelas mudanças. Aja com ódio, garanta as mudanças.

Para que o ódio seja fecundo?

Saber-se imbecil enquanto os ratos roem os pés. Em vez de tiro no pé, dar bicudas nos ratos. Armar as ratoeiras, e trazer gatos. Ainda que os pensamentos hesitem, ganhar coragem.

Ironias à parte, o ódio vencer o medo é transformador.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de agosto de 2022.

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