Uma
baita confusão
Na parede atrás da máquina de café
expresso, bem visível, o cartaz deixava explícito: CONVERSA FIADA SÓ NA ESQUINA.
Lendo a placa, o rapaz de rosto
empipocado de espinhas parou um instante de comer um quibe. Porque o barato dos
botecos é justamente o papo furado, querer impedir as pessoas de conversarem
numa boa? Que ridículo! O dono deve andar nadando em dinheiro pra vir com essa
de obrigar a gente a gastar, seu bar vai perder muito freguês.
ꟷ Ora, meu caro, não está errado achar
que tempo é dinheiro. E as pessoas podem ir comendo salgadinhos e bebendo sucos
enquanto se comprometem a salvar o nosso amado planetinha.
Engolido o guaraná, o ancião completou:
ꟷ Quem trabalha apenas pra cobrir água e
luz é burro, que dá sopa pro azar. Cadê o agrado de levar a patroa comer pizza
numa sexta que nem tinha nada de especial?
Mas, o dono não tem que ficar
controlando o que ocorre do lado de cá do balcão. Se tem quem passe do limite,
é bom que a encrenca seja resolvida numa boa. E falar abobrinha não faz mal a ninguém.
Falando baixinho, meio gaguejando, o garoto
vestido como o Pato Donald foi ignorado ao perguntar:
ꟷ Abobrinha é aquela coisa azeda que tem
no vidro?
O adolescente não parava de pensar que o
dono do bar deveria se achar um cara certinho, alguém que faz o que todo mundo
considera o certo, o bem. Pois o importante é dar inveja, ser apontado na rua
como pessoa honesta, íntegra. Quem trabalha direito merece ser respeitado. Ele
não é que nem essa gente que não respeita a verdade. Quem não acredita na
verdade não é nada exemplar. O homem tem que acreditar que faz o bem, que não
mente à toa. Para que o seu nome se imponha como gente respeitável, ele tem que
ser um cara de classe.
A mente do marinheiro-mirim se divertia
ligando barriga vazia, prato vazio, mãos vazias, cabeça oca e o oco que faz eco
no vazio da cabeça é ronco, pois a barriga vazia da gente ronca tanto que dói.
O mais velho dos quatro concordava com o
dono do bar. Não faltam bares na cidade. Quem joga conversa fora sem gastar um
centavo que vá aonde isso não seja um problema. Ninguém é obrigado a ficar onde
não é bem-vindo. Se bem que tem gente que arruma confusão sem pé nem cabeça. Feito
bobo, começa a discutir. E fala alto, berra, gesticula que nem doido e ainda
acha que não faz papel de palhaço.
Como o mais novo à mesa prestava atenção
nas moscas, ele parou de pensar que ali não tinha nenhum pote de abobrinha
azeda. E lascou um tapa num mosquito.
ꟷ Seu besta!
Com a bronca, tentando enfiar-se debaixo
da mesa, o guri bateu a cabeça. Com a batida, os copos tombaram; um até caiu e quebrou.
O homem mais experiente disse que um
tapa na mesa pode matar quem está ocupado em pedir os ovos de codorna.
O rapaz das espinhas estava tão bravo
que nem se deu conta que acabou concordando com o velho que matar de susto é
coisa que não se faz com quem tem medo de morrer de repente.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de agosto de 2022.
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