quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Uma baita confusão

 

Uma baita confusão

 

Na parede atrás da máquina de café expresso, bem visível, o cartaz deixava explícito: CONVERSA FIADA SÓ NA ESQUINA.

Lendo a placa, o rapaz de rosto empipocado de espinhas parou um instante de comer um quibe. Porque o barato dos botecos é justamente o papo furado, querer impedir as pessoas de conversarem numa boa? Que ridículo! O dono deve andar nadando em dinheiro pra vir com essa de obrigar a gente a gastar, seu bar vai perder muito freguês.

ꟷ Ora, meu caro, não está errado achar que tempo é dinheiro. E as pessoas podem ir comendo salgadinhos e bebendo sucos enquanto se comprometem a salvar o nosso amado planetinha.

Engolido o guaraná, o ancião completou:

ꟷ Quem trabalha apenas pra cobrir água e luz é burro, que dá sopa pro azar. Cadê o agrado de levar a patroa comer pizza numa sexta que nem tinha nada de especial?

Mas, o dono não tem que ficar controlando o que ocorre do lado de cá do balcão. Se tem quem passe do limite, é bom que a encrenca seja resolvida numa boa. E falar abobrinha não faz mal a ninguém.

Falando baixinho, meio gaguejando, o garoto vestido como o Pato Donald foi ignorado ao perguntar:

ꟷ Abobrinha é aquela coisa azeda que tem no vidro?

O adolescente não parava de pensar que o dono do bar deveria se achar um cara certinho, alguém que faz o que todo mundo considera o certo, o bem. Pois o importante é dar inveja, ser apontado na rua como pessoa honesta, íntegra. Quem trabalha direito merece ser respeitado. Ele não é que nem essa gente que não respeita a verdade. Quem não acredita na verdade não é nada exemplar. O homem tem que acreditar que faz o bem, que não mente à toa. Para que o seu nome se imponha como gente respeitável, ele tem que ser um cara de classe.

A mente do marinheiro-mirim se divertia ligando barriga vazia, prato vazio, mãos vazias, cabeça oca e o oco que faz eco no vazio da cabeça é ronco, pois a barriga vazia da gente ronca tanto que dói.

O mais velho dos quatro concordava com o dono do bar. Não faltam bares na cidade. Quem joga conversa fora sem gastar um centavo que vá aonde isso não seja um problema. Ninguém é obrigado a ficar onde não é bem-vindo. Se bem que tem gente que arruma confusão sem pé nem cabeça. Feito bobo, começa a discutir. E fala alto, berra, gesticula que nem doido e ainda acha que não faz papel de palhaço.

Como o mais novo à mesa prestava atenção nas moscas, ele parou de pensar que ali não tinha nenhum pote de abobrinha azeda. E lascou um tapa num mosquito.

ꟷ Seu besta!

Com a bronca, tentando enfiar-se debaixo da mesa, o guri bateu a cabeça. Com a batida, os copos tombaram; um até caiu e quebrou.

O homem mais experiente disse que um tapa na mesa pode matar quem está ocupado em pedir os ovos de codorna.

O rapaz das espinhas estava tão bravo que nem se deu conta que acabou concordando com o velho que matar de susto é coisa que não se faz com quem tem medo de morrer de repente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de agosto de 2022.

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