Sorte
danada
Aproximam-se as eleições, a pressão
aumenta.
Dou um tempo na esquina. Entregam-me
santinhos. Bandeiras são agitadas. Como não vou decorar todos os números, salvo
no celular os que digitarei na cabina de votação. Alertam que telefone está
proibido, mas consultar cola está autorizado. Com tanta pressão, tenho certeza
de que a minha cabeça vai dar chabu na hora do voto.
Parado na esquina, percebo que o mundo não
está nem aí se estou perdido. Mas não vou negar que me embanano com tantas ideias
que jerico não tem. Mesmo que o burro não as tenha, eu me preocupo com o que tem
importância, relevância e dá ânsia.
No tocante à saúde?
É hora de pagar para ver quem enfrenta
essa gente que traz garrafa vazia para quebrar na cabeça de quem está na praça
pedindo à banda que vá tocar onde judas perdeu as botas.
No que tange à educação?
Não adianta arrancar os cabelos, arrancá-los
não a fará passar de vez. Corre-se o risco de a onça parar de beber água e vir
para cima de quem não tem jogo de cintura para capar o touro à unha. Sem falar
que tocar dobrado não enche a pança de ninguém, enche o saco.
Pra falar com segurança?
Sinceramente, a verdade seja dita: saco
cheio explode quando mais se recomenda pôr o coração na ponta do lápis.
Sim, sempre é bom pôr na ponta do lápis:
custa votar?
Sem dúvida, que perereco é fazer a graça
de botar o bloco na rua. E faz melhor negócio quem se dispõe a vender o berço
esplêndido pra quem nunca cai do cavalo quando o circo pega fogo.
Embora eu não entenda o prometido, não quero
que me adulem por minha estupidez, pois sufragarei como sufragam quem faz por
onde.
Onde judas bateu com as botas é que não
será.
Prefiro dar mais um tempinho na esquina.
E não param de entregar santinhos nem de agitar bandeiras.
Viro estátua, que tudo vê, tudo ouve, e só
não xinga. Pois não quero que tudo o mais vá pro inferno nem volte de lá.
É fogo cuidar da vida? Putz! Bota fogo
nisso.
Tão perturbadora é a tragédia que a moça
que normalmente vende flores está panfletando por um sanduíche de mortadela.
E com ela me solidarizo, pois ninguém
merece ficar sem comer nem que seja um sanduíche de mortadela.
O rapaz que tira a sorte com o seu periquito
adestrado não conta o que fez com o realejo. Pedindo que reeleja o homem
íntegro que nunca desiste de lutar pelos legítimos indefesos, ele não tem
papas.
Se eu sabia que sou um deles? Compreenda
que é.
Compreendo. Que eu vote pela liberdade. Que
meu voto garanta a igualdade. Que é direito beber água que passarinho não bebe.
Nada do que foi deixa de voltar?
Sim, a natureza não esquece. Se ninguém
lembra, ela traz à mente o ar onde cantavam sabiás, voam urubus e zunirão
balas.
E a chaga dói onde o calo canta, o
folgado aperta e o drama da vida cai bem no olho cobiçoso do homem que não
arregaça à toa a manga da camisa. Canoa a canoa, ele sabe com quantos
jequitibás se monta um esquadrão. Que sorte!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 30 de agosto de 2022.