terça-feira, 30 de agosto de 2022

Sorte danada

 

Sorte danada

 

Aproximam-se as eleições, a pressão aumenta.

Dou um tempo na esquina. Entregam-me santinhos. Bandeiras são agitadas. Como não vou decorar todos os números, salvo no celular os que digitarei na cabina de votação. Alertam que telefone está proibido, mas consultar cola está autorizado. Com tanta pressão, tenho certeza de que a minha cabeça vai dar chabu na hora do voto.

Parado na esquina, percebo que o mundo não está nem aí se estou perdido. Mas não vou negar que me embanano com tantas ideias que jerico não tem. Mesmo que o burro não as tenha, eu me preocupo com o que tem importância, relevância e dá ânsia.

No tocante à saúde?

É hora de pagar para ver quem enfrenta essa gente que traz garrafa vazia para quebrar na cabeça de quem está na praça pedindo à banda que vá tocar onde judas perdeu as botas.

No que tange à educação?

Não adianta arrancar os cabelos, arrancá-los não a fará passar de vez. Corre-se o risco de a onça parar de beber água e vir para cima de quem não tem jogo de cintura para capar o touro à unha. Sem falar que tocar dobrado não enche a pança de ninguém, enche o saco.

Pra falar com segurança?

Sinceramente, a verdade seja dita: saco cheio explode quando mais se recomenda pôr o coração na ponta do lápis.

Sim, sempre é bom pôr na ponta do lápis: custa votar?

Sem dúvida, que perereco é fazer a graça de botar o bloco na rua. E faz melhor negócio quem se dispõe a vender o berço esplêndido pra quem nunca cai do cavalo quando o circo pega fogo.

Embora eu não entenda o prometido, não quero que me adulem por minha estupidez, pois sufragarei como sufragam quem faz por onde.

Onde judas bateu com as botas é que não será.

Prefiro dar mais um tempinho na esquina. E não param de entregar santinhos nem de agitar bandeiras.

Viro estátua, que tudo vê, tudo ouve, e só não xinga. Pois não quero que tudo o mais vá pro inferno nem volte de lá.

É fogo cuidar da vida? Putz! Bota fogo nisso.

Tão perturbadora é a tragédia que a moça que normalmente vende flores está panfletando por um sanduíche de mortadela.

E com ela me solidarizo, pois ninguém merece ficar sem comer nem que seja um sanduíche de mortadela.

O rapaz que tira a sorte com o seu periquito adestrado não conta o que fez com o realejo. Pedindo que reeleja o homem íntegro que nunca desiste de lutar pelos legítimos indefesos, ele não tem papas.

Se eu sabia que sou um deles? Compreenda que é.

Compreendo. Que eu vote pela liberdade. Que meu voto garanta a igualdade. Que é direito beber água que passarinho não bebe.

Nada do que foi deixa de voltar?

Sim, a natureza não esquece. Se ninguém lembra, ela traz à mente o ar onde cantavam sabiás, voam urubus e zunirão balas.

E a chaga dói onde o calo canta, o folgado aperta e o drama da vida cai bem no olho cobiçoso do homem que não arregaça à toa a manga da camisa. Canoa a canoa, ele sabe com quantos jequitibás se monta um esquadrão. Que sorte!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de agosto de 2022.


domingo, 28 de agosto de 2022

Gente fina

 

Gente fina

 

Dói-me a face direita do rosto, suplico ao dentista que me atenda o quanto antes. Se a dor está de fato insuportável, que eu vá agora. Sim, de fato, preciso ser encaixado assim que possível, porque sou eu quem está sentindo esta dor terrível.

A radiografia mostra infecção. É prescrito anti-inflamatório.

Fiz o certo, pois cabe a especialista dizer qual é o problema.

Como a inflamação está acima da gengiva, provavelmente causada pela friagem das madrugadas, e para que o dano seja sanado, eu tome o remédio respeitando o intervalo entre os comprimidos e evite gelados e comidas quentes.

ꟷ A dor sumirá de pronto.

Como prudência recomenda discrição, não falo dos gargarejos com antissépticos alcoolicamente refrescantes depois das refeições.

Ainda que tenha consciência de que alívio é bom, não me vanglorio do abuso desta bondade.

ꟷ O estrago acabará em três dias.

Modesto, até porque ouvir elogios me acabrunha, também não digo que a semana foi de maçã dolorida coberta por capuz de blusa apesar dos trinta graus.

Já que as circunstâncias me fazem sensível à cautela, lembro o que preza aos físicos: entre gelados e quentes, há o morno.

Como a natureza visa ao equilíbrio, terei paciência: entre extremos de prazeres e sofrimentos, o meridiano é um intervalo de momentânea indiferença.

Mesmo que a sabedoria me falte, pela desagradável experiência da dor, agradeço à termodinâmica por este princípio tão simples. Sensato, compreendo que preciso suspender sopinhas e pudins ou sofrerei.

ꟷ O retorno fica pro dia anteriormente marcado.

O dentista fala devagar. Ele olha de modo sereno enquanto fala, até parece que estuda o efeito da sua fala sobre quem o escuta.

Penso que ele fala pausadamente para que suas palavras ganhem um acentuado sentido moral. Desconfio que ele, só de examinar minha boca, saiba que não dispenso goiabada depois do almoço. Ao imaginá-lo me censurando por meus caprichos, não fico nada contente com sua arrogância de gente sabichona.

Se açúcares fazem realmente um mal danado, não o refutarei pelos conhecimentos que o orientam. Que ele viva consciente e abstenha-se de um docinho. Quem sou eu pra criticar sua visão de mundo, mas da minha dieta cuido eu, caramba.

Até porque não sou de comer com os olhos, e já me é bastante bom um pedacinho mínimo. O que me satisfaz, entretanto, é não dar com a língua nos dentes, pois não lhe conto que gosto tanto que almoço duas vezes. E a cada prato lambido, ganho uma nesga de goiabada.

ꟷ Romeu e Julieta?

Como gente fina, elegante e muito sincera não conta garganta nem com a faca e o queijo nas mãos, não me dói nada fechar a matraca.

Não sou obrigado a reconhecer que ando comendo além da conta. Sei, a minha barriga está uma bolinha. Mesmo fora do peso ideal, não tenho cabeça pra balança desajustada. Tenho andado devagar pra não passar mal de repente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de agosto de 2022.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Urgente urgentíssimo

 

Urgente urgentíssimo

 

Estou animado. E minha animação é decorrente de um desejo que jamais imaginei que teria: quero escrever um roteiro.

Assumo a responsabilidade de preservar a sobriedade. Não quero virar personagem que se mete como se tivesse o direito de dirigir o que se há para contar. A história é minha, logo não desistirei de contá-la do jeito que é meu dever de contá-la. Não vou me entusiasmar a ponto de perder o foco. Direi apenas o que tenho a dizer, mais nada.

Feitas as devidas ressalvas, antes que a realidade conseguisse me ludibriar, já que estou bastante seguro da minha determinação pra agir dando pulso firme ao comando, digo que o mundo não me convence a esquecer qual o rumo da prosa que espero pegar.

Eu assistia a uma série sem outra disposição que não fosse passar o tempo depois de outra jornada fatigante contra os infortúnios do dia, quando o assassino disse algo que me foi surpreendente. No ápice da tensão, livrando-se das tibiezas que o apequenariam, o facínora disse que o fracasso do ídolo motivou-o a tornar-se seu próprio ídolo.

É óbvio! Não é vilão quem não recua do repugnante, é antagonista; e antagonistas são heróis negativos.

Tal ideia não me pegou de imediato, foi preciso que a torneirinha do filtro quebrasse. Ela quebrou na minha mão. Acontece, porque objetos de plástico acabam quebrando depois de anos de uso. Faz tempo, sim, tanto que nem lembro se tive de trocá-la. Acho que a torneira que agora está quebrada deve ser a mesma de quando o filtro foi comprado.

Minto; ou melhor, manipulo. E ajo assim para dar coerência ao que evidentemente não tem nem um pingo de ilusionismo trapaceiro.

Uma torneira quebrar não me faz avaliar que eventos fortuitos são obras do acaso. Penso que enxergar com lucidez não me desmascara, pois me esforçar como tapeceiro amador é apenas outro truque.

Sim, amo conectar o que aparentemente está solto. E o fio forte que me ajuda a fabricar o tecido do que digo é a linha do pensamento.

E conto comigo para deixar de ser odioso, outro procrastinador que não se envergonha de lidar mal com a realidade.

Como me considero uma pessoa instruída no amor às boas coisas da vida, escolho bem as palavras pra que o texto não me contradiga.

O que topo fazer?

Com a torneira quebrada, usei uma concha pra encher uma jarra, e perdi tempo. Deu vontade de tomar água da pia, todavia não bebi.

Me recuso a beber água que vem da rua. Peraí! Não é nada disso. Que bobagem! Água encanada vem da caixa. Mas a caixa d’água deve estar suja. Nem sei quando foi a última vez que ela foi limpa.

E já que não me quis (como tampouco agora me quero) tão odioso, tomo a seguinte decisão.

Como a convicção é uma dádiva a quem pode transformar o mundo, como não posso ficar sem beber um litro e meio de água por dia, peço que venham entregar um garrafão de água, mas que seja da mais pura e cristalina fonte mineral.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de agosto de 2022.

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Pestanas ardentes

 

Pestanas ardentes

 

O homem que veio entregar o que comprei pela internet usa crachá com foto e nome completo. Como não o reconheço, ele diz que fomos colegas de escola. Vendo que continuo sem me lembrar dele, é o nome da professora do terceiro ano primário que confirma que estivemos na mesma classe em 1973.

Cinco décadas depois, ambos mudamos.

E a minha memória mudou para pior, porque não guardo lembrança das vezes que teria ido à sua casa pra fazer trabalho em grupo.

Eu era novo, bem novinho, tinha apenas nove anos.

Assim tão criança, acho improvável que minha mãe tenha permitido que andasse sozinho pela cidade, mas me convenço a não corrigi-lo.

Trabalho em grupo no terceiro ano?

Naquela época, minha timidez era muito grande. Eu não falava nas aulas. Mal erguia a cabeça. E quando olhava na direção da professora, mirava um ponto na lousa. Mesmo que nada estivesse escrito na lousa, me fixava na ideia de não ser constrangido a falar.

Pois eu não falaria aos demais alunos, falaria à professora.

Muitos colegas falavam errado. Muitos da turma faziam feio porque queriam responder primeiro. E a maioria vivia errando as lições.

Sempre séria, a professora corrigia tudo. Mesmo o menor dos erros lhe era estridente. E tudo merecia ser comentado de modo sério, a voz firme, com gestos comedidos, os olhos nos olhos da gente.

Se todos tínhamos que tomar cuidado pra não dar vexame, eu temia me afobar e passar vergonha na frente da classe. Porque não admitia ser como eles, que cometiam erros bobos.

Eu não era como os outros. De jeito nenhum faria besteira na frente de um bando de bobocas. Como era esperto, tinha que manter os olhos no caderno ou o abismo me engoliria.

Era um cacoete, algo imediato que me tornaria invisível.

Em vez de me interessar pelo que acontecia na sala, escancarava a perturbação: cabisbaixo, eu desenhava.

Era natural. Não imaginava que fosse uma atitude afrontosa.

Como sempre respeitei quem precisa ser respeitado, não seria em criança que desafiaria uma professora.

Fui chamado a responder sobre o que nem tinha ouvido.

Fiquei paralisado. Tinha que falar alguma coisa, mas não qualquer coisa. Tinha que acertar. Nem poderia gaguejar. Queria ter sumido.

Àquela vez, naquele distante ano de 1973, surpreendido rabiscando enquanto todo mundo prestava atenção na aula, a professora pegou o caderno, viu o meu desenho e, mesmo que ainda estivesse inacabado, recusou-se a exibi-lo à classe toda.

Quando acho que vou me sair bem, sou desastroso.

Porque à minha porta veio bater esse entregador de livros que nem sei dizer quem seja, só agora me recordo do soberbo homenzinho de palitos por mim esboçado num caderno que não guardei.

Sem ninguém pra me reprimir, imploro que compreendam:

ꟷ Senhoras e senhores, quem poderá acordar no adulto tagarela a criança tartamuda que teima permanecer esmaecida?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de agosto de 2022.


domingo, 21 de agosto de 2022

Aggiornamento

 

Aggiornamento

 

Bendita seja a quarta-feira.

Se a segunda pressupõe que não seja queimada a agenda de mais uma ferrada semaninha, a quarta é canário cantando.

Ainda que o despertador insista em martelar nos tímpanos que hora certa é a que está programada, tem gente que não enrola para sair da cama, porque sabe que ela existe.

Sabe, sim, que a quarta não falha por bagatela, ela é porreta.

Mesmo numa segunda braba, levanta e toca em frente. Pois é difícil, bem difícil, apagá-la. Como a cachola sabe que a quarta tem realidade, nem é preciso agendá-la nem ficar surdo ao seu chamado.

Não há de tardar a quarta que vem.

Ainda que seja razoável pensar que a sua existência não torne leve uma alma ancorada em compromissos inadiáveis, não se há de ignorar a boa ideia que é o canário cantando no coração do cotidiano.

Não o ignorando, também é lógico imaginá-lo num lugar aprazível, que lhe seja aconchegante. Sim, projetá-lo em um ipê amarelo não tem nada de prepotente; aliás, tal pensamento revigorante é bem bom.

Afinal, amarelo é cor que apazigua, serena, faz suportável a chatice de feira, feira, feira, por cinco vezes, a feira é feira. E ninguém é feirante o tempo todo, e é bem bom um sossego de vez em quando.

Canário cantando em ipê amarelo, pouco há que se lhe compare.

Mal comparando, insuportável é a quinta-feira a quem vai à padaria pelo café com pão. Não um qualquer a outro qualquer. Tal par supimpa: o café está adoçado e o pão vem da chapa.

Todavia, maldito e autoritário, o resultado do futebol azeda a média. Negando o direito de passá-la batida, que a quinta-feira fosse rotineira, na mesa ao lado, porém, comentam o jogo, elevam a jogaço a partida da noite passada. E tchau, tchau, mavioso canarinho da terra.

Se a quinta já era, não se negue à sexta o desejo de um futuro mais suingado. No salão, ergam-se canecas de chope. Pelas mesas, bailem as bandejas. Entre pessoas extrovertidas por natureza e as bailadoras por golinhos e golinhos de felicidade, cantem, encantem-se, vibrem de tanta alegria. Não seja administrada com moderação, porque sexta boa pra valer não acaba quando termina, dá ressaca.

Como corvo aborrece o sábado, que a biriba no boteco fique adiada pro dia seguinte ao dia seguinte?

Quando urubu bica o domingo, deveria ter tomado banho completo, deveria ter lavado atrás da orelha e passado bucha embaixo do braço, pois trocar de roupa, pôr nova cueca e outras meias, que assim nem o canário barra a brisa nem as folhas param no galho?

Amanhã, belo amanhã, pelamor!, venha, voe ligeiro, e voe pelo céu, é anil o céu à luz do sol.

Pessoal que sustenta que sábados e domingos tiram o estresse dos engarrafamentos nas ruas com o congestionamento em idas e voltas pelas estradas, perdão pela perspectiva?

Agora, agorinha, no meio deste instante, não grassa às cinzas outra semente, pulsa, que a feira farte, já.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de agosto de 2022.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Uma baita confusão

 

Uma baita confusão

 

Na parede atrás da máquina de café expresso, bem visível, o cartaz deixava explícito: CONVERSA FIADA SÓ NA ESQUINA.

Lendo a placa, o rapaz de rosto empipocado de espinhas parou um instante de comer um quibe. Porque o barato dos botecos é justamente o papo furado, querer impedir as pessoas de conversarem numa boa? Que ridículo! O dono deve andar nadando em dinheiro pra vir com essa de obrigar a gente a gastar, seu bar vai perder muito freguês.

ꟷ Ora, meu caro, não está errado achar que tempo é dinheiro. E as pessoas podem ir comendo salgadinhos e bebendo sucos enquanto se comprometem a salvar o nosso amado planetinha.

Engolido o guaraná, o ancião completou:

ꟷ Quem trabalha apenas pra cobrir água e luz é burro, que dá sopa pro azar. Cadê o agrado de levar a patroa comer pizza numa sexta que nem tinha nada de especial?

Mas, o dono não tem que ficar controlando o que ocorre do lado de cá do balcão. Se tem quem passe do limite, é bom que a encrenca seja resolvida numa boa. E falar abobrinha não faz mal a ninguém.

Falando baixinho, meio gaguejando, o garoto vestido como o Pato Donald foi ignorado ao perguntar:

ꟷ Abobrinha é aquela coisa azeda que tem no vidro?

O adolescente não parava de pensar que o dono do bar deveria se achar um cara certinho, alguém que faz o que todo mundo considera o certo, o bem. Pois o importante é dar inveja, ser apontado na rua como pessoa honesta, íntegra. Quem trabalha direito merece ser respeitado. Ele não é que nem essa gente que não respeita a verdade. Quem não acredita na verdade não é nada exemplar. O homem tem que acreditar que faz o bem, que não mente à toa. Para que o seu nome se imponha como gente respeitável, ele tem que ser um cara de classe.

A mente do marinheiro-mirim se divertia ligando barriga vazia, prato vazio, mãos vazias, cabeça oca e o oco que faz eco no vazio da cabeça é ronco, pois a barriga vazia da gente ronca tanto que dói.

O mais velho dos quatro concordava com o dono do bar. Não faltam bares na cidade. Quem joga conversa fora sem gastar um centavo que vá aonde isso não seja um problema. Ninguém é obrigado a ficar onde não é bem-vindo. Se bem que tem gente que arruma confusão sem pé nem cabeça. Feito bobo, começa a discutir. E fala alto, berra, gesticula que nem doido e ainda acha que não faz papel de palhaço.

Como o mais novo à mesa prestava atenção nas moscas, ele parou de pensar que ali não tinha nenhum pote de abobrinha azeda. E lascou um tapa num mosquito.

ꟷ Seu besta!

Com a bronca, tentando enfiar-se debaixo da mesa, o guri bateu a cabeça. Com a batida, os copos tombaram; um até caiu e quebrou.

O homem mais experiente disse que um tapa na mesa pode matar quem está ocupado em pedir os ovos de codorna.

O rapaz das espinhas estava tão bravo que nem se deu conta que acabou concordando com o velho que matar de susto é coisa que não se faz com quem tem medo de morrer de repente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de agosto de 2022.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

O leão do cafezinho

 

leão do cafezinho

 

Doutor Viola tomava café. Como sempre, de costas pra rua. Em pé, postura que adotou quando viera pra cidade há quarenta anos.

Menos aos domingos, vai diariamente àquela lanchonete. Gosta de tomar café depois do almoço. Aos sábados, na ida, paga seus boletos no caixa que nunca tem fila, porque fica dentro da loja de conveniência de um posto de gasolina.

Aquela era uma segunda-feira, ele caminhara devagar, fumara sem pressa, parara pra conversar de quando em quando. Mesmo com hora pra voltar ao escritório, fora lento.

Sentia-se bem, percebia que a caminhada não era boa somente pra digestão, era principalmente pra cabeça. Ainda que o aguardassem no escritório, gostava de pitar um cigarrinho enquanto andava. Como seria deselegante não opinar sobre os assuntos do dia, vivia parando.

Em pé, de costas pra rua, mais ouvindo do que falando, no lugar de sempre, ali estava a simpatia em pessoa: Viola, doutor e boa gente.

Fumava, mas soltava a fumaça pro alto. Sabia que muitos puxavam conversa porque o queriam irritado, pois conhecia expressões vulgares em muitas línguas. Não só brasileiras e italianas, diziam que era fluente em inglês, francês e alemão. Contudo, ninguém nunca o viu mandando às favas os chatos.

Às vésperas das eleições, surgiam sujeitos que tinham argumentos pra tudo. Se havia alguma guerra, estavam do lado errado. No caso de briga entre torcidas rivais, pediam cadeia imediata, apenas pros rivais. Já os salafrários, essa escumalha que rouba do povo, esses deveriam fritar em cadeira elétrica, com a conta cobrada à família dos safados.

O digníssimo era paciente, fumava em silêncio. As pessoas tinham muita coisa para falar, que falassem. Eram tantos os problemas que as incomodavam, imploravam que fossem resolvidos.

Achavam-no capaz de proezas além de suas condições de homem simples, outro eleitor frustrado com o voto sufragado.

Bradavam por façanhas? Fossem fustigar outra freguesia.

Ora, não há café que faça do reles cidadão um gênio demiurgo.

Como a infâmia enfraquece a reputação de quem se engrandece à honra, faz-se estrago permanente quando o difamado titubeia, na ação equivocada ou pela demora ao agir.

Há quatro anos, embora pensasse em não assumir a missão a ele atribuída como candidato, o doutor recorrera às cestas básicas quando deveria ter repassado os telefones de organizações humanitárias.

Antes, nas eleições anteriores ao mais recente pleito, o imprudente inebriou-se de vaidade, uma vez que o seu nome ganhou ruas, fez sala nas casas, hipnotizou juízos, conquistara corações.

Fruto legitimado da vasta família desta terra, seria pouco assediado pelos irmãos mendicantes se tivesse ceifado o joio de uma candidatura de fato inexistente.

Se tem quem peça recibo pelo cafezinho de cada dia?

Tem burro que não zurra quando bebe café.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de agosto de 2022.

domingo, 14 de agosto de 2022

Pela raiz

 

Pela raiz

 

Súbito apareceu aquele bicho que tinha fome. E não importava por onde entrara, mordia o pano porque o cérebro de roedor farejou onde havia comida. Pouco lhe importava saber se o saco era de arroz, aveia, farinha ou soja, queria comer. Possuído pela ideia de que tinha mesmo que comer, devoraria o que encontrou.

Se não fosse prontamente repelido dali, causaria prejuízo maior que ter um saco amaciado pela saliva asquerosa, enfim furado por aqueles dentes mais do que vorazes, ensandecidos.

Bicho pestilento, imundo, nojento, repugnante, que o matassem de imediato. Antes que lhe atribuíssem direitos de estar vivo, como animal cuja vida nada tinha de boçal. Se nascera como era, se não escolhera agir do jeito que agia, era um bicho qualquer, não o personificassem a peste, era apenas um rato.

Os ruídos denunciavam a presença, mas nenhum dos funcionários estava presente para evitar os danos. Faltavam gatos no depósito; não espalharam chumbinho pelos cantos; e sequer funcionavam os sensores de movimento instalados.

A situação só piorava: atraídos por barulho ou cheiro, vieram outros ratos, mais e mais ratos atacavam as sacas. Sem exagero, havia uma alcateia desses famélicos, bestiais, ferozes roedores.

A rataria era muita. Tais ratos chiavam, rinchavam, guinchavam de fome. Sem ninguém pra impedi-los, sacos e sacos foram atacados. As pilhas do estoque foram o pasto. Àquilo tudo não haveria outro destino que não o lixo. Na caçamba cheia de um caminhão, fosse levada toda aquela comida: perdida, comprometida, contaminada.

E nos confins da cidade, urubus e homens disputariam o que nem prestava comer. No monte fétido, baratas e ratazanas brigariam. Nesse monumento: que reis, rainhas e infantes sobrepujem a ratos e urubus.

Ao largo, entre pedras limosas, latas enferrujadas e pneus carecas, espreitavam lacraias, aranhas, besouros, cobras, escorpiões. Que eles sabiam esperar, pois, uma hora ou outra, o alimento acabava vindo.

Como a natureza não desperdiça práticas e sabedorias: a primeira norma diz que não morre de fome quem come de tudo; a segunda das lições, sobrevive quem na hora agá não dá um agá.

Pra não acabar com os burros n’água?

Que a pessoa pense. Pra que lixão não mais exista, construam-se usinas. Para que não se formem montanhas de lixo, seja repensado o consumo. Pra que seja mais ainda reduzido o descarte, haja reuso. Pra que se fabrique saudável o ambiente, recicle-se a mente.

Que a pessoa não tema ao ter raiva, cobre mudanças. Preserve-se lúcida, lute pelas mudanças. Aja com ódio, garanta as mudanças.

Para que o ódio seja fecundo?

Saber-se imbecil enquanto os ratos roem os pés. Em vez de tiro no pé, dar bicudas nos ratos. Armar as ratoeiras, e trazer gatos. Ainda que os pensamentos hesitem, ganhar coragem.

Ironias à parte, o ódio vencer o medo é transformador.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de agosto de 2022.

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Brotinho

 

Brotinho

 

O cansaço está instalado. Sinto-me cansado. O corpo, a mente, até a coluna, que canseira de dar dó. Curva-me um pouco no pescoço, e vejo unhas, vejo pés. Quão cansado me alcanço.

Que estúpido. O tédio é estúpido.

O cansaço espelha-me triste. Fatigado em estupidez. Enfatuado por aporrinhações. Pois triste, estúpido, entediado a olhar-me, como cansa estar à mercê do tempo.

Quero agora recontar os dias, ouvir o vento. Sim, o vento não para, insiste em silvar pelas frestas. Pelas mínimas frestas das janelas, pelos vidros das janelas, sua voz de sibila.

Abaixados os vidros, mesmo fechadas as janelas, tem esse assovio do vento que vai e volta, e isso aborrece mais um pouco.

Não quero papo. Sobre o tempo, não quero.

Com muita luz pra pouco calor, não puxarei a cortina. E quando não quero fazer, não faço. Ainda que a luz do sol continue na jornada pelos quadrantes do universo, a Terra gire, e a natureza nem se redima das estupidezes de ordem dita natural, não faço nada.

O universo não sabe de mim deitado na penumbra da sala. Sim, eu puxei a cortina porque a rotação do planeta não está na velocidade que mais me agradaria. Sim, estou decepcionado com a luz do sol, também com o cosmos todo. Penso que o universo poderia colaborar comigo e apressar o colapso entrópico, que há de haver daqui a zilhões de anos.

E a noção de ‘mais um pouco’, que pra mim agora é muito relevante, já que estou chateado comigo, suporto, e repasso que nem passa pela minha cabeça orar ao tempo.

Como indivíduo sujeito à passagem dos segundos, à revolução dos corpos celestes, às comichões biológicas de bem-estar e mal-estar, eu poderia, sem pensar no sol como parceiro, fechar os olhos.

Ora, não produzo energia sintetizando fótons, isso quem faz são as plantas e, arrisco o palpite, os plânctons dos oceanos.

Corrido o filó, material que mais enfeita que corta a luz do sol, penso nas possibilidades de ter mais o que fazer.

Desisto, pois não se faz necessário que eu diga que está frio. Afinal, é inverno. O que, de repente, me aborreceu foi o tempo. Da madrugada pra manhã e daí pra agora de tarde, tais viradas.

Como não sou de acessar redes sociais nem pertenço a grupos de bate-papo por celular, o frio chuvoso da manhã foi surpreendente. Tem ainda essa mudança pro sol gelado do céu limpo desde o almoço.

Deixo estar. Que a natureza me ignore por mais um pouco. Depois faço o que for. E pra cumprir só o que faço, não faço nada.

Penso, logo tento ser lógico. Tento seguir a lógica do eterno retorno. Que a natureza, o cosmos imenso, o universo ínfimo, tudo isso que eu vejo, toco, ouço, penso e sinto, tudo que me envolve, revolve, dissolve, isso faz crer em quem sou.

Sou quem?

Eu serei um broto careca desdentado a pedir à Fada do Dente que ponha tostões quando estiver sonhando comigo a revisar o que tenho feito durante esta vida de regressões em progresso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de agosto de 2022.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Muito bem

 

Muito bem

 

Falador descarado, falando ao celular, rego as mimosas da floreira. Pessoa bem tranquila, sou um sujeito tão calmo que acho dispensável que peçam para me acalmar. Se exibo trejeitos de homem a quem nem ocorre que saliva humana tenha química corrosiva às plantinhas, é ele, esse homem sossegado, que solta bobagens quando nervoso.

Como janelas sem cortina facilitam a vida dos bisbilhoteiros, deveria me sentir nu, porém me empolgo. Mesmo que a rua interprete mal meu entusiasmo, gesticulo aos beócios do outro lado da linha. Tenho razão justamente porque não me envergonho de frente pros outros.

Se falasse pouco, pausadamente, com voz baixa, os trabalhadores da construção nem notariam minha fúria. Creio que homens furibundos quebram a indiferença: se não gero simpatia, gero piedade.

Apiedo-me de mim, pois tenho consciência de que uma vida banal, maçante e rotineira é recomendável a quem se descontrola ao perceber que o contrariam por qualquer coisa. Como passar raiva não é bom pro coração, pequenas doses de comiseração fazem bem.

Longe de mim querer pensar duas vezes diante do que não engulo. Porque serenidade não faz de mim alguém mais inteligente, muito mais perspicaz ou verdadeiramente destemido, encoraja-me ser franco.

Simpatizo-me com as mimosas, porém, enquanto arranco o que me parecem ser matinhos invasores, não preciso largar o telefone.

Tranquilizo-me depois de finalizar o que tenho para falar. Embora a mente calma saiba que dizer tudo não implica que os problemas sejam resolvidos com presteza, desacelero-me.

Menos barulhento, vejo a rua. Na banalidade das rotinas, vai a vida.

Alertam-me as entranhas que o vivo aqui nem tomou café. Vou sem alardes, sem mover mundos e fundos. Simplesmente vou e bebo.

Quem pretende melhorar que se pareça melhor.

Todavia, não agitem o copo de café. Cobrem celeridade, mas sem ansiar que as aflições me tornem menos ridículo.

Quero beber o meu café. Quero saborear o tempo a que me dedico bebê-lo. Não me perturbem enquanto bebo meu cafezinho.

Não é coisa que se faça. Não tem nada de ridículo. É pirraça, coisa de gente trapaceira que ataca no contrapé.

Posso engasgar com um golinho, mas reajo. Tento me defender da melhor forma que conheço: rindo por quinze segundos.

Gente, nada de drama!

Até parece que quinze segundos são quinze minutos. E pela lei de Warhol, posso gozar quinze minutinhos de fama que tudo bem.

Como assim, não tenho que fazer hora para agir decidido? Pra fazer papelão, nem devo perder tempo?

Pois bem.

Eu seria outra pessoa se mirasse na gatinha mastigando brotos de milho. Não a observaria na caixa de areia enquanto estivesse fazendo necessidades. Como animal elegante, só depois de cobrir a mijadinha, eu miaria. E teria concordado com a veterinária que mandou arrancar a citronela que ultimamente tem feito mal.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de agosto de 2022.

 

domingo, 7 de agosto de 2022

Fã declarado

 

Fã declarado

 

Fã declarado de quem utiliza o humor para fazer rir de tudo que seja humano, lamento a morte de Jô Soares.

Das TVs e dos jornais, do meio daquela avalanche de homenagens, das honestas às hipócritas, flagrei-me a cismar sobre a orientação da família para que o hospital e seus funcionários nada dissessem quanto à causa da morte do humorista.

O fato é que o Jô morreu, porém o universo, sempre jocoso, moveu névoas e minha mente faiscou: “celacanto provoca maremoto”.

De repente, o muro com a pichação surgiu-me nítido, tal qual eu o via no final dos anos 70. De segunda a sexta, passava por ele quando ia pro ginásio e, a cada vez que a lia, encasquetava.

Estava funcionalmente alfabetizado, não tive dificuldades na leitura; o significado de ‘celacanto’ fui encontrar na Barsa; contudo, aquilo dizia o quê?

Fato consumado, o silêncio sobre o que acarretara a morte do ator octogenário, a consciência sobrepôs o que fotografei com o que achei ter fotografado.

Como ainda tenho guardado muita coisa que fiz, vi as fotos que tirei pra Fotografia I. Putz! Os negativos não escondem o registrado.

A frase pichada era outra, uma muito conhecida nos anos 80, pois espalhada por todo o país, e zombeteiramente assinada por um gaiato Reagan tupiniquim: “calma que o Brasil é nosso!”

Pra desmontar o relógio que a minha cachola me apresenta, preciso desanuviar os pensamentos ou pedirei somente a mim pra emparelhar o que recordo ao que desejo seja rememorado como fato.

Mas, a leitura subjetiva da realidade não anula o que houve, que “o sentido do acontecimento é o acontecimento não ter qualquer sentido”.

Ê lasqueira! A morte é absurdo natural e a fantasia não.

Como não dá para viver só de riso, o tempo canta: levante-se, ande com as pernas que tem, desdobre-se a obrar pelo bem.

Na real?

Pobre homem, que imagina ter domínio de si, é outro napoleão lelé tirado à dormência pela cuca indomável.

Se se faz ridículo como reizinho, alcança o hilário quando monta um cavalinho de vassoura. Que aprenda a amar, todavia nem por amor vá à guerra, que os energúmenos vão.

Sei lá por que troco olhos por ouvidos, só sei que vivo a fazê-lo.

Se a cabeça estiver legal, acho que em 1995, acredito que deve ter sido no programa radiofônico Jam Sessions, apresentado pelo Jô, que ouvi falar no George Clooney, famoso pela série Plantão Médico.

Jô, o tocador de bongô que ensaiou com Oscar Peterson na Suíça, citou o sobrinho de Rosemary Clooney pra informar que, foi mesmo em 1995, a cantora ganhara um Emmy como melhor atriz convidada numa série dramática de TV.

E o que se pode tirar desse balaio de gato?

Jô do Bongô, obrigado por me ajudar a lembrar que também sou fã dessa Clooney. Com ela, emendo: “se eu sou o fel, você é o mel”.

Meu caro Jô, you are the top. Jô da Galera, você é fera.

Então, como as ruas bem sabem: Jô é o cara.

Abaixo o regime. Viva o Gordo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de agosto de 2022.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

A casa em ordem

 

A casa em ordem

 

Gosto de tudo limpo, e a mulher fez questão de passar o dedo para acentuar que não estava brincando.

Antecipando-se à bronca, foi a filha mais velha que deixou o fogão limpinho depois que, com a frigideira destampada, fritou batatinha para o irmão e pra si.

Como se isso a pudesse impedir de avançar, muito entrona, a irmã do meio chiou porque batata frita com pouco sal é para quem não gosta de batata frita, e esse ranço gorduroso, hein?

Era uma casa de gente que não ficava dizendo o quanto se amava. Eram pessoas que viviam juntas, e a condição de conviverem indicava que o sentimento fundamental dessa união era o amor. E família unida não precisa mostrar a todo instante o quanto é amorosa.

Se comiam batatinha quando bem queriam?

ꟷ Eles sabem que não dá pra ter batata frita todo dia.

ꟷ Não tem bolso que aguente, amiga.

Para não concorrer com o filme que as crianças assistiam, as duas senhoras foram conversar na cozinha.

Comeram bolo de fubá. Tomaram café com leite. Comeram bolo de chocolate. Beberam mais café com leite. Comeriam e beberiam até de noite, mas passariam o último capítulo e não queriam perdê-lo.

Comentaram que os bons sofreriam mas seriam premiados, que é o esperado de novela que valorize o que eleva a alma. A gente precisa se distrair, tem que se esquecer um pouco desse dia a dia bem rasteiro, traiçoeiro, muito carente de festa.

ꟷ Pegue mais bolo, mas a visita foi se levantando, pois tinha que ir dar banho nas crianças.

Se não estragarem no fim, se não inventarem de chocar com ideias mirabolantes, disse a vizinha à porta, vamos palpitar um bocado.

A mãe chamou, que a filha mais velha viesse arrumar a mesa.

Ela obedeceu que nem resmungou, pois a quantidade de louça na pia era maior do que a usual. Tinha as assadeiras dos bolos e da torta de sardinha, tinha o bule de café e o jarro da laranjada, e tinha os cacos do copo que alguém largou para outro limpar.

Que correria, Santo Deus! Sem fantasias com um colega de classe, filho da professora de artes, ela foi lavando tudo com muita espuma.

ꟷ Olhe a água! E a torneira foi fechada.

A sala estava pronta. A TV ligada no canal certo. O som no volume necessário pra tornar audíveis todas as falas. A janela da frente estava fechada; por causa do barulho, a porta da cozinha também.

Deitado perto da porta, o cachorro já tinha saído pra checar troncos e postes. Como iogue de celular em punho e tênis na poltrona, a caçula teve que ser admoestada. Com o corpo impedindo que fosse notada a câmera ligada, uma vez que seus treze anos pediam registro de beijos e amassos, o garotão ajeitou-se a meio metro da TV.

Quando o pai entrava, o horário político terminava e vibrava o alerta de outro emoji engraçadinho daquele seu amigo nada secreto, quando finalmente podia se sentar, a filha mais velha foi atalhada pela mãe:

ꟷ Ô menina chata, que só sabe incomodar na hora errada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de agosto de 2022.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Retrato em branco e preto

 

Retrato em branco e preto

 

Com oito ou nove anos, a menina era mais velha do que eu dois ou três, ia à escola, era cativante sem forçar a barra. Do pouquíssimo que resta de quem fui nos anos sessenta, na penumbra dessa vez, no que acreditei ter visto, ela fez sombras virarem gente. Apavorado, não notei que as palavras que conjuraram a aparição partiam da espertinha.

Porque imaginário, o perigo era real. Era real, porque a imaginação amedrontada era minha. O monstro crescia com o medo. Tal realidade criada na hora: assombrava-me o que surgia, não a sua criadora.

Queria correr dali, e escapuli. Só não escapei do seu poder.

Quem dera não abismassem essas magias, a memória, porém, tem seus caprichos. Aquele sentimento, posso acessá-lo às vezes.

Em geral, quando não sou submetido a situações aterrorizantes, me saio bem. Entretanto, não nego que perco o controle quando o chão se abre sob os meus pés.

As palavras não armam nenhuma rede de proteção, daí que minhas quedas serão sempre patéticas. Não resisto. De tombo em tombo, vou aprendendo. Admito, tenho mesmo essa fraqueza por histórias.

Como quem morde pão quentinho, ouço-as. Como quem esquenta o pão de ontem, leio-as. Como quem não abusa do sal, escrevo-as.

Se tenho a receita? Que coisa boa! Tenho nada.

Sem que me ache uma pomba esfomeada, também admito que não desprezo migalhas. Encontro-as, papo-as. Bico-as, e quero mais. Vou por aí, querendo-as sempre, mais e mais.

Ai caramba! Como pobre-diabo, arrulho ao deus-dará.

No período de minha vida em que os meus olhos bicavam toda sorte de história, tive orientação em casa. O meu pai foi o leitor eclético que me apresentou a jornais, revistas, enciclopédias e livros de ficção e de não ficção. De Tesouro da Juventude a Histórias Extraordinárias.

Ele lia de tudo. Começava todo tipo de leitura, o que não implicava que terminasse. Como nem tudo era agradável ou instrutivo, sem fazer cerimônia, ele abandonava.

Ler é bom, mas falar sobre o que se lê também é bom.

E o meu pai gostava de conversar depois da janta. E a gente ficava proseando sem obrigação de piruetas lógicas, acrobacias inteligentes, malabarismos filosóficos.

Sentávamos, papeávamos, íamos dormir. Poderíamos continuar, e nós continuávamos, portanto.

Recomendando-me que fosse anotando observações à margem do texto, ganhei um livro que me fez pensar no futuro.

O romance era impactante, é. Havia o retrato de um país devastado. Com rios contaminados, fome generalizada, população mal-informada, ciclistas selvagens e lixo, muito lixo.

Que país é esse?

O medo fabrica monstros. O perverso impressiona. Por temer o que ignora, o indefeso dá ao maldoso mais poder que ele possa ter. O cruel se apraz na dor que provoca em quem confia cegamente.

Esta terra tanto assombra, desola, deprime, envergonha, que eu até rio, rio de tanto desgosto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de agosto de 2022.

domingo, 31 de julho de 2022

Pregão anacronista

 

Pregão anacronista

 

Numa ducha rápida depois de uma hora de caminhada forçada, me apressei pro desjejum.

Pego o pão, cubro-o com uma folha de alface picada com as mãos, completo com a segunda fatia de pão; e adeus sanduba.

Quantos cumprimentos deixarão o dia menos ordinário?

Abria a porta quando a senhora que varria a calçada deu-me aquele bom-dia de gente afoita, a querer de pronto demonstrar-se educada.

Ainda que formal, contabilizarei esse bom-dia na coluna positiva ou o travesseiro julgará carregadíssima a cabeça abalroada pelo cotidiano de insensibilidade generalizada.

Bons dias!

Chegando de volta, na esquina perto de casa, Luisinho atravessou meu caminho. Queria muito me contar que os ventos da fortuna tinham encaminhado até ele uma ideia genial.

Observando os bem-te-vis que cantavam sem razão para tamanha cantoria, o velho amigo de tantas jornadas disse que achara a solução pros problemas do mundo.

Graças a um camarada entusiasmado, o mundo tem solução.

Bons dias!

Sim. Mesmo pensadores geniais precisam de ouvintes polidos. Até me ocorreu de abraçá-lo à vista de quem passava, mas tive o impulso de ir-me logo. Que contasse em outro instante, me perdoasse a pressa. Como desconhece bons modos, o intestino me cobrava celeridade.

De livro à mão, na página congelada, regresso um tanto.

A mulher que varria a calçada talvez tenha desejado que o meu dia fosse bom, todavia meus tímpanos de pessoa apurada filtraram como mera formalidade aquele desejo simpático.

Bons dias!

Ontem mesmo, ouvi a criança que falava uns versinhos ao vovô que a escutava interessado no que lhe era segredado com a inocência que desconcerta cínicos, céticos e comediantes.

“No mundo de muitas faces, quem planta couve não colhe tomates”.

O engraçado é que eu penso ter ouvido que “no mundo das alfaces, quem semeia tomate colhe alicate”. Que surrealismo frívolo.

Frívolo! Ô coisa gostosa. Inté falar frívolo é bem frívolo.

Uma vez que não preciso crer na infância, volto à criança que trago em mim. Volto sem medo, porque acredito na evolução carismática de pedir, implorar, suplicar, espernear, esgoelar e quebrar carrinhos como quem atira copos.

Espatifá-los-ia, mas não tocaria nos cacos, pois são deslumbrantes. Nada ameaçadores, ficam tão belos quando o sol bate nas faces.

Se nas alfaces brotassem alfajores, a história seria bem outra. Com a meninada pedindo, se esperneando, suplicando por alfajor alfácico.

Bons dias!

Corro ao papel. Sem nenhum aceno ao Senado nem às Academias, escrevo o segredo que não pretendo revelado: há em mim essa ânsia permanente, vitalícia e imortal. Me acho uma pessoa calma, de escrita moderada, apenas um escrevinhador pacato.

Bons dias!

Sem embaraços, complicações, conflitos paradoxais, sem provocar apoptose, quero-me anônimo, eterno anônimo, a escutar os dias.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de julho de 2022.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Amor livre

 

Amor livre

 

Com indignação, contaram-me este caso da celebridade que ousou sambar sobre o pavilhão nacional. Abalado pela prepotência ultrajante da relatada, fui tomado por uma força abissal. Parido pela memória, à tona não veio um mamute; num rato, degelei-me mentecapto.

Deste instante em diante, nunca mais serei quem achava que era até agora. Como houve tal gatilho, esse disparo à queima-roupa, entrei na dança sem nem atinar qual a seta ou qual o alvo.

Assim perdido, peço às luzes da sabedoria que iluminem os meus cômodos escuros, obscuros, mesmo tenebrosos, pois houve um tempo que, reles, coitado e panaca, fui mesmo um aluno.

Eram dias de ensino médio na Maria Angerami Scalamandré. Lá na escola eu tinha amigos, alguns colegas e muitos conhecidos. Todavia, éramos todos condôminos de um rincão paulista chamado Ibiúna.

Na hierarquia do colegial, os alunos estávamos na base.

E uma vez alocados na base, ou vestíamos o avental com o brasão da escola ou, no portão, barrar-nos-iam os serventes, operadores da ordem. Sem escolha com os ordeiros, saíamos já uniformizados.

Éramos estudantes, tínhamos nossas obrigações de colegiais. Os cadernos tinham pauta. O polegar media o início do parágrafo a partir do traço da pauta. A primeira letra do parágrafo era necessariamente maiúscula. Como éramos alunos, havíamos de seguir o ordenamento pra escrita. Aprendíamos a aprender que tínhamos que aprender e as notas azuis na caderneta mediam o tanto que tínhamos aprendido das lições que nos foram dadas.

Estudantes são alunos. Os alunos que reclamam pro bispo estão errados. Alunos precisam estudar o catecismo, respeitar as regras que comungam com os demais membros da mesma igreja e, obedientes e fiéis à ordem comungada, servirem de exemplo a alunos menores.

Sejam sempre respeitados os adultos exemplares que fazem leis e regramentos inteligentes, pois adultos são pessoas lúcidas, adoráveis e sabem mais da vida que os jovens.

Os jovens? Os jovens acham que sabem mais do que todo mundo, até mais que o pai e a mãe que também foram alunos, mas estudaram, dedicaram-se a aprender o que lhes era dito pra aprender e assumirem como pai e mãe de alunos em casa, na igreja e na escola.

Caramba, os jovens alunos que não se envergonham de proclamar a torto e a direito que sabem que a escola da vida ensina a se virar na hora do aperto. Entretanto o mundo não ensina, ele deseduca.

Na hora do hino, quem aprende a viver pelas regras do mundo não canta. Ele poderia ficar cabisbaixo, tentar se esconder entre os outros, mas o arrogante nem finge que tem boca pra amar o hino nacional.

E chegamos àqueles que se dizem democratas porque queimam a bandeira da nação encarnada nas cores da pátria.

Mas aprendemos, e somos homens livres, ordeiros e benevolentes, porque em nossos corações reina a flâmula augusta de Pasárgada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de julho de 2022.