Milonga
da simpatia
Como saí com a alma que estava no corpo,
tinha que me arranjar. Às vezes, sorrio como imbecil quando ouço besteira das
grandes. E há reação que me surpreende, porque o fio afiado do humor solta na
lata o que bem entende. Este espírito traz um porco pra chafurdar nas boas
maneiras? Sou de ranger os dentes, debochar ou me apagar.
Sentei um instante. Assim que entrei, corri
sentar na poltrona atrás da pilastra. Não estava a fim de me exibir, pois nem
me acho um cara exibido. Teria de esperar, esperaria como se ali não estivesse.
Se fosse recostar-me no muro do jardim, daria
uns cinco minutos à fuzarca dos passarinhos. Buscaria aviões no céu se tivesse
realmente algum interesse. Mas, em pé, o meu pescoço latejaria em alarme.
Tenho um desvio num bendito ossinho na
nuca, e xeretar no celular com a cabeça inclinada acordaria a dorzinha velha
companheira. Tinha que ficar sentado e com o telefone na linha dos olhos, era
razoável que me antecipasse aos dramalhões do esqueleto.
Que motivos eu tenho pra confiar em quem
faz o que não deve?
Sabendo de antemão que poderia irritar
ou irritar-me, sentei, cruzei as pernas, pus-me ereto. Com a cabeça apoiada na
coluna, fiz questão de me proporcionar a melhor postura. Quis o estresse sob
controle, pra que as chances de não incomodar ninguém aumentassem. Navegaria por
páginas e páginas sem Penélope a espetar uma agulha de tricô na minha espinha.
Entre não fazer o que não devia ou um improvável
arrependimento, a sala ficou interessante. Entrou uma mulher trazendo uma
caixa.
Fiz que não era comigo. Embora acompanhasse
a cena de soslaio, apostei no nonchalance. De vez em quando, ergui os
olhos eletrizados pela bisbilhotice. Levantei-os com a discrição de quem não tem
certeza de que esteja mesmo sendo discreto. Certo, fiz o que devia.
Já a mulher... Coisa encantadora foi vê-la
em ação.
Sem exagerar-se fascinante. Ao natural, em
sua leveza magnética. Ela foi à assistente, viu confirmado o horário da sua
consulta e veio se sentar na poltrona à minha frente.
Eu não a conhecia. Nunca a vira. Nem mesmo
ali. E olha que tenho vindo três vezes por semana nos últimos dois meses. Viria
mais vezes se o doutor me ouvisse, e a probabilidade de vê-la seria maior.
Não morro de medo de dentista, o que me
aborrece mesmo é ficar anestesiado numa cadeira odontológica.
Descartada a dor, o que dará nos nervos,
o que me desnorteará, vai ser passar quase uma hora querendo descobrir se o bolo era
de morango ou chocolate.
Se pudesse parar de pensar, eu suportaria
o papo furado. Meteria o pau no preço da gasolina. Arrancaria a cabeça da
inflação. Mandaria pelos ares tudo que aflige, e tanto tira o sono como o apetite.
Na sua hora, a mulher passou ao
consultório. Voltaram com o bolo. O aniversariante nem usava luvas. Tinha uma
meia dúzia aguardando a vez. Mas, todo mundo comeu um pedaço.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 07 de junho de 2022.