Assim
não vale
O dia é realmente encantador. O sol
brilha. Maritacas cruzam o céu. Nuvens boiam no firmamento esplendidamente
azul. Embora pudesse ser incluído entre os encantados do dia, falta ao homenzinho
avaliar o tanto de dor que o faz indiferente às maravilhas da hora.
Caminhando cabisbaixo sob as copas de
uma fileira de arbustos na calçada esburacada, ele não pensa que toda pessoa
ajuizada tem que olhar pro chão o tempo todo pra não acabar pisando em falso.
Com a grana curta, é mais do que
prudente evitar tombos ou viradas de pé. Não que seja imprescindível à
sanidade, mas ao bolso é. Afinal, gastar com analgésicos e anti-inflamatórios
não é conveniente a quem faz meses pode apenas zanzar sem destino definido.
Aliás, fundamental é conservar a cabeça boa
o mais que possa. Pra pegar no sono quando pretender dormir. Pra não ficar pulando
da cama só pra ter certeza de que as lâmpadas estão mesmo apagadas.
Depois de ter as luzes apagadas e a
televisão desligada, só depois de verificar que não tem bugiganga gastando
energia à toa, é só depois da descrença confirmada que ele sai de casa.
E vai andando a esmo. Vai por aqui,
entra por ali. Passa deste lado pro outro. A rua segue no leito. Os automóveis
não voam, sequer a sua mente cria asas. Corvos voam. Os varredores continuam trabalhando,
vão enchendo o carrinho de lixo. Há tanto a ser feito. Ele ziguezagueia, contudo
nem fica atormentado com a falta de norte. Como o cheiro bom o atrai, ele troca
moedinhas por café.
O cérebro sabe que asas são membros de
pássaros assim como a capacidade de hibernação é de ursos. E todos os ursos
hibernam, até os polares. A informação é processada pelo cérebro ou pela mente?
Quando a informação é nova, faz-se
urgente uma análise. Para que a veracidade do conteúdo seja verificada, com aprovação
ou rejeição.
A mente torna vulnerável o corpo que
mais pensa que observa seu entorno. Nesse momento de fragilidade, fique
enfatizado que não é um instante de fraqueza, nenhuma instrução deve ser dita,
porque haverá confusão. Como se a boca pedisse pra seguir andando mas os
ouvidos entendessem pra interromper o passo. Havendo conflito, há tensão; e, sem
escolher como agir, há paralisia.
Nisso uma pomba passa rente à cabeça.
Com uma das mãos segurando firme um
arbusto, desconfiando de que poderá se desequilibrar com o vento, o homenzinho
ergue a perna para poder averiguar as condições do tornozelo.
A moça sentada no meio-fio se lamenta de
dor no joelho direito.
Por sua causa, o antebraço direito machucado
da moça sangra. Ele foi pro asfalto. Mais preocupado com a pomba, ele torceu o
pé ao pisar numa garrafinha de água. Ele deu uma bicuda na garrafa, que foi bater
na ciclista, que, assustada, freou bruscamente e teve queda imediata.
Que tristeza de vida. Sequer o cafezinho
frio de esquina tem poder sobre urucubaca braba.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 10 de fevereiro de 2022.