quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Assim não vale

 

Assim não vale

 

O dia é realmente encantador. O sol brilha. Maritacas cruzam o céu. Nuvens boiam no firmamento esplendidamente azul. Embora pudesse ser incluído entre os encantados do dia, falta ao homenzinho avaliar o tanto de dor que o faz indiferente às maravilhas da hora.

Caminhando cabisbaixo sob as copas de uma fileira de arbustos na calçada esburacada, ele não pensa que toda pessoa ajuizada tem que olhar pro chão o tempo todo pra não acabar pisando em falso.

Com a grana curta, é mais do que prudente evitar tombos ou viradas de pé. Não que seja imprescindível à sanidade, mas ao bolso é. Afinal, gastar com analgésicos e anti-inflamatórios não é conveniente a quem faz meses pode apenas zanzar sem destino definido.

Aliás, fundamental é conservar a cabeça boa o mais que possa. Pra pegar no sono quando pretender dormir. Pra não ficar pulando da cama só pra ter certeza de que as lâmpadas estão mesmo apagadas.

Depois de ter as luzes apagadas e a televisão desligada, só depois de verificar que não tem bugiganga gastando energia à toa, é só depois da descrença confirmada que ele sai de casa.

E vai andando a esmo. Vai por aqui, entra por ali. Passa deste lado pro outro. A rua segue no leito. Os automóveis não voam, sequer a sua mente cria asas. Corvos voam. Os varredores continuam trabalhando, vão enchendo o carrinho de lixo. Há tanto a ser feito. Ele ziguezagueia, contudo nem fica atormentado com a falta de norte. Como o cheiro bom o atrai, ele troca moedinhas por café.

O cérebro sabe que asas são membros de pássaros assim como a capacidade de hibernação é de ursos. E todos os ursos hibernam, até os polares. A informação é processada pelo cérebro ou pela mente?

Quando a informação é nova, faz-se urgente uma análise. Para que a veracidade do conteúdo seja verificada, com aprovação ou rejeição.

A mente torna vulnerável o corpo que mais pensa que observa seu entorno. Nesse momento de fragilidade, fique enfatizado que não é um instante de fraqueza, nenhuma instrução deve ser dita, porque haverá confusão. Como se a boca pedisse pra seguir andando mas os ouvidos entendessem pra interromper o passo. Havendo conflito, há tensão; e, sem escolher como agir, há paralisia.

Nisso uma pomba passa rente à cabeça.

Com uma das mãos segurando firme um arbusto, desconfiando de que poderá se desequilibrar com o vento, o homenzinho ergue a perna para poder averiguar as condições do tornozelo.

A moça sentada no meio-fio se lamenta de dor no joelho direito.

Por sua causa, o antebraço direito machucado da moça sangra. Ele foi pro asfalto. Mais preocupado com a pomba, ele torceu o pé ao pisar numa garrafinha de água. Ele deu uma bicuda na garrafa, que foi bater na ciclista, que, assustada, freou bruscamente e teve queda imediata.

Que tristeza de vida. Sequer o cafezinho frio de esquina tem poder sobre urucubaca braba.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de fevereiro de 2022.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Nua e crua

 

Nua e crua

 

Você indo pela calçada quando mais à frente vai caminhando uma figura cujo jeitão lembra muito um amigo seu. Sem pensar, você chama pelo nome; a pessoa, no entanto, continua indo na dela.

Como o barulho da rua está bem alto, deve ser por isso que o sujeito não tenha escutado, pois qualquer um teria a curiosidade de virar para ver quem estaria chamando.

Você grita o nome, espera e, todavia, insiste. Afinal, não é possível que aquele velho amigo seu tenha ficado surdo desde a última vez que se falaram. E isso está fazendo o quê, duas décadas?

De tanto fazer alarde, você consegue a atenção do camarada. Ele finalmente se vira, mas teria sido melhor se continuasse indo em frente.

Seu amigo fez plástica.

Com o pasmo de vê-lo mudado, você olha para trás a fim de saber quem estaria fazendo tanto estardalhaço. Contudo, além de você, não tem mais ninguém provocando embaraço, e agindo feito criança.

É batata... Você não tem como disfarçar o desconforto de descobrir que justamente alguém que tinha em alta consideração, pois fizeram a primeira comunhão juntos, fosse pregar uma peça dessas.

Fazer mudanças no rosto sem nem mandar pelo zap uma foto com a nova cara chega a ser um ato de traição à sua confiança. Ele poderia ter pedido o seu número, pois você nunca se negaria a dá-lo.

Como fica a amizade que sempre imaginou que era transparente?

Sim, você está decepcionado. É frustrante encontrar outra pessoa vivendo em quem você jamais tinha pensado que poderia fazer aquilo, virar um estranho de uma hora para outra.

Quanta deselegância. Quanta falta de apreço.

Sorte sua saber se virar nos momentos de crise: se a angústia bota a cara na janela, você respira melhor com as cortinas fechadas.

Pensando bem, coloque-se no lugar desse que vai andando como se nada de anormal estivesse acontecendo. A pessoa mais indicada a dar explicações para ter torrado uma fortuna na transformação radical da própria aparência é ele, apenas ele.

Você sabe, não é nada fácil acordar cedo todo santo dia, pagar caro pelo pão que o diabo amassou e ir dormir com a barriga roncando.

Viver não dá folga a quem se esforça.

Você quer fazer o melhor. Você se dispõe a tomar para si as dores do outro. Você sabe que nem todo mundo está pronto para escalar as colinas que a vida vai colocando no caminho.

Subitamente, sem que precise parar, compreendendo com clareza o que tem que ser feito, você grita o nome que um dia um velho amigo usou como se fosse a chave mestra de portas e portões.

Então, desconfiando que o homem esteja a fim de enfiar a mão na sua cara, notando que aquela hostilidade pode estar relacionada com boletos, achando que a antiga aliança está morta naquele olhar de cão raivoso, precisando esclarecer tudo, mostrando que não tem medo de encarar a verdade, mesmo que tenha de estabelecer outros elos, você quer mais é se expor:

ꟷ Tem horas?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de fevereiro de 2022.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

O pão

 

O pão

 

Até que lhe pediu um pão, não tinha reparado naquela mulher. Mas a outra, a que acabara de ligar o alarme do automóvel, não olhou uma segunda vez, que o silêncio fosse loquaz o bastante como resposta à esmola pedida de modo tão impróprio.

A mulher que pedira pão à mulher que entrou no supermercado sem lhe dirigir obscenidades não esperou muito, porque um homem desceu sem pressa do carro estacionado de modo muito vagaroso.

Desta vez ela foi ouvida. Antes não fosse, porque o homem que não lhe deu dinheiro gritou que essa gente vagabunda deveria mesmo era morrer de fome.

Um homem saía do supermercado, parou, pôs as sacolas no chão, tirou dinheiro da carteira e entregou-o à mulher, que nem lhe disse para que iria servir aquela esmola.

A mulher agradeceu; sorrindo, o homem meneou a cabeça, pegou as compras, atravessou a rua e foi calmamente pela rua afora.

Sem perder tempo, a mulher entrou no supermercado, foi direto ao balcão da padaria e pediu que lhe fosse vendida a quantidade de pão até o valor da nota, que exibia na altura dos olhos da balconista.

Com um nada discreto pegador de aço inoxidável, a funcionária que trabalhava no balcão da padaria foi colocando pãozinho por pãozinho no saco de papel que tinha a mensagem “qualidade em primeiro lugar” sob a logomarca da rede de supermercado.

Assim que a balança mostrou um valor acima da nota exibida pela mulher que trajava puídas roupas ensebadas e estava recendendo a bodum de urina com suor, a balconista resolveu calçar um par de luvas de plástico transparente para retirar o peso que fosse necessário para que o limite não fosse ultrapassado.

Já o pãozinho a mais foi colocado de volta na grande cesta de pães.

Preocupada em ser simpática com a primeira pessoa que estava na fila atrás da mulher malcheirosa, a balconista foi logo lacrando o pacote com a etiqueta emitida pela balança e, como era obrigada, ela retribuiu o bom-dia dito pela mulher que empregara a esmola para comprar pão.

Como queria sair rapidamente do estabelecimento, a mulher com o saco de pães foi para o caixa que não tinha fila, entregou o dinheiro ao funcionário, pegou o troco e, já saindo do prédio, jogou fora a sacola.

Do outro lado da rua, sentada debaixo de um ipê amarelo, a mulher guardou as moedas do troco na bolsinha de pano que tinha sob a alça do vestido no ombro esquerdo.

Para não ter o saquinho danificado além do que fosse preciso para abri-lo, ela rompeu o lacre utilizando o indicador como espátula de abrir envelopes.

Sem frescura, a mulher partiu o pão, mordeu o pedaço, mastigou-o e um gole d’água ajudou a engolir o tanto que tinha mastigado. Ela foi repetindo aquilo tudo, cada uma daquelas ações, até que não sobrasse pão algum. Atirou o saco amassado. Então, a mulher bateu das roupas as migalhas. E foi limpando a boca com uma das mãos que, entretanto, lhe escapou um arroto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de fevereiro de 2022.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Putisgrila

 

Putisgrila

 

Depois de uma discussão política que não vem ao caso, na manhã de antes de ontem levei a minha fé na ciência tomar vacina, e, pulando o azucrinante da vida que é quitar contas e beber dois litros de água ao longo do dia, houve um dos previsíveis resultados: virei ameba.

Não uma ameba vulgar, catalogada em manuais de biologia, pois o bicho que me pegou tinha um quê de monstruoso. Sim, acabei virando uma ameba com consciência e sentimentos.

Viajante no inferno, todavia não sou fã de viver em coortes, mesmo nas invisíveis a olho nu, que ameba é microscópica representante dos inframundos, então, o corpo foi na onda da cachola: dramatizando.

O drama da rejeição aos corpos estranhos nas veias?

Queria entender o processo. Quis racionalizar o que vivia. E não me queria vestido de vítima, que o mal-estar prevalecesse durante a minha adaptação à novidade de antígenos no sangue.

Meia noite, por conta da febre, não fui pé ante pé até a cozinha atrás de paracetamol. Era outro o remedinho porreta que me convenceria de que as minhas roupas ensopadas não modelavam sexy este corpinho.

Ridículo, eu sei. Não dá para caminhar e analisar a caminhada sem enxergar as paredes; tateando-as, eu poderia me impedir a travessura de resvalar, apenas resvalar e não bater, a minha cabeça nas paredes do corredor às escuras.

Se faltava paracetamol, sobrava cerveja.

Certo de que o mal-estar se tornaria irrelevante se bebesse de gole em gole, beberiquei com gosto.

Contudo, a afobação de pegar outra lata deu a clareza de que entre as paredes da caixa craniana e a meninge o papo era azedo.

Ora, ora, o quão maravilhosa é a sabedoria da ignorância. Faz bem quem esquece dos males alegrando-se com o que tem à mão.

Compreende-se a importância de tomar uma cervejinha quando um corpo, ainda mais este corpo já cinquentão, reage de acordo com o seu estado natural. Com o meu produzindo anticorpos necessários ao bom combate, conforme o estipulado pelas leis biofísicas, a isso me tocava experimentar da forma menos bizarra que valorizo: curtindo.

Bebi uma, bebi duas, bebi todas. Todas as que aguentei, é claro.

Sábia como sempre, a febre ignorou o uso embasado no melhor do empirismo patafísico.

Realmente, a mim me pareceu que bebendo cutucaria os demônios da insurreição às apoplexias mais bestas.

Suei, suei, suei, e tanto suei que até desisti das geladinhas.

Suado e gemebundo, corri botar logo os fones. (Porque a realidade dói menos quando não se lhe dá ouvidos. Surpreenda, Spotify!)

E soou a marimba de Anne-Julie Caron a serviço do Astor Piazzolla das 5 Piezas, mas o couro da cadeira do papai continuava pegajoso.

Oba! G-Spot Tornado do Frank Zappa tocada por Valérie Milot me fez esquecer a vontade de urinar.

Apaguei.

Sussurro pantanoso, o sono recobra: o mijo quente, fedido, amarelo escuro, espesso e baço será de jacaré.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2022.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Cuidado com o cão

 

Cuidado com o cão

 

Depois de jantar, imprestável pra ler, indisposto pra música, espero que o sono venha. O cansaço nem me pede argumentos, porque estou um bagaço. Sem necessidade de convencimento de que uma semana de realizações, felicidades e saúde para dar e vender deixou-me nesta prostração que não me engano: eu sinto que este estado lamentável é tanto que nem posso me lamentar. Estou realmente um caco.

Sem força pra pensar em desligar a TV, afinal sigo distraído de mim e da realidade do mundo. Estou desinteressado, e tem ruídos de fundo. A voz da moça vindo, a voz do moço indo; voz fina, voz grossa: o tédio murmura. No entanto, cansado, modorrento, pesado, incapacitado pra raciocinar, nem penso que estou desequilibrado, que muita indiferença decorre das frustrações em série, que os tempos andam tristes.

Trancado em casa, as cortinas corridas, a luz da sala acesa, tenho a estupidez a me afundar no sofá. As lâmpadas continuam acesas pela casa toda. Não olharei quem passa gritando que a chuva está gelada. Chove, nem tinha reparado. Sequer a hora me interessa, contudo o Big Ben que herdei de vovô soa as sete badaladas da noite.

Por falta de coisa melhor para fazer, aumento o som porque passam uma criança pedindo uma pá. Houve água de enchente subindo pelas paredes da sua casa, das casas vizinhas, do bairro inteiro. Na periferia, excluída da ilha central, houve o verão de sempre, houve água e barro e destruição e aflições e muita indignação.

Embora tenha visto tantas e tantas enxurradas mal curadas, anoto o nome daquele garoto. Sublinho o nome. Adenso as formas do escrito com a esferográfica. Dou ênfase ao traço forçando a mão.

No agudo do momento, acordo da sonolência crônica; que o fim de mais um dia não vença a minha vontade. Não quero deixar pra depois. Como quero que seja agora a vez da solidariedade, vou ao micro.

Busco e encontro. Leio páginas e mais páginas. Há tanto material sobre tragédias e superações. Tantos são os exemplos de como dar a volta por cima e continuar vivo. Tantos os infortúnios a que nossa gente segue sobrevivendo. E por muito ler as histórias do povo socorrendo o povo, ocorre-me a palavra resiliência.

Resiliência, pronuncio-a, experimento-a outra vez. É um pedregulho na boca, é abstrata. Uma vez que toda calamidade não deve ficar para depois, forço dizê-la até senti-la ferida.

E a chuva me ultrapassa. As chuvas vêm e vão. E a previsão aponta sol forte, muito calor e chuvaradas. Modelos calculam as formações de nuvens e a força dos ventos. E temporais caem, elevam-se rios, águas enchem ruas, arrastam carros, afogam ratos, derrubam árvores. Vidas são devastadas, arruinadas. Por que essas águas matam?

Quando soterradas, pessoas pedem socorro, podem ser escutadas, devem ser salvas. Portanto, é preciso ter cuidado com o cão que sabe o resgate não só pelo faro.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de fevereiro de 2022.

domingo, 30 de janeiro de 2022

O linguarudo

 

O linguarudo

 

Desde que o mundo é mundo, sempre tem quem apareça cheio de novidades. Esperta que só, tal pessoa atingida pelo raio da sabedoria ganha audiência porque a sua arte está em ir pondo pitadas pitorescas até no cochilo depois do almoço.

A pestana não chega a extirpar da alma estranhamentos, tanto que os olhos deixam-se possuídos por uma fatia de torta holandesa; ainda que continue intacta, no limite da obsessão, ela desaparece.

Sem nenhum garfinho, lambendo-se nos beiços, a guloseima entra no circuito nervoso. Faz a eletricidade do prazer pegar em correntezas, as que sobem ao coração e as descarregadas pelo cérebro. Sem tirar nem pôr, a língua saliva de felicidade.

E a boca quer outro pedaço. Não é gula nem é vício, a boca entende que é tortura ficar esperando outro bocado. Afinal, uma torta holandesa merece condicionar a ideia de ser saborosa até em pensamento.

Contudo, há vida; e vida depois de uma torta holandesa saboreada por uma mente deliciada é bem outra. Há o abismo da escassez.

De repente, o mundo parece ainda mais cruel quando a torta falta.

De fato, criar um mundo menos abjeto exige mais de quem se pega querendo transformar a fraqueza da carne em fortaleza da mente.

É certo aumentar a confiança de quem se põe a pensar ideias que não agradam. É bom diminuir o barulho pra que seja captado direito o que incomoda. Enfim, tramando para que tal sensibilidade dissimulada venha à tona sem as névoas da covardia, intua-se o alumbramento de que o desejo segue sendo senhor de si.

Sim, a autoridade do medo escusa ser reconhecida legítima. Quem acha que domina o que sente pode se gabar um legítimo representante da razão, todavia não passa de mero espalhador de vento.

Todavia, voltemos.

Desde que o mundo é mundo, andará no caminho do conhecimento quem se der ao trabalho de encadear os eventos como fatos. Vem essa ideia à mente alvoroçada: aquele bicho que olhava sombras não soube juntar o sol esplêndido com a vida projetada na parede? Na sequência, a matraca traz notícias de outro mundo, do mundo iluminado pelo fogo brilhando no céu. Se o sol existe, por que a pele está molhada?

Como a curiosidade dá ânsias para sondar o desconhecido, alguns arriscam botar o nariz para fora da caverna. Desses indomáveis, muito menos gente aposta colocar a cabeçorra sob os raios de luz que vêm lá do alto. Finalmente, os raríssimos gatos-pingados comem dos frutos, nadam nos rios e fornicam na relva macia.

Este mundo é mesmo muito ordinário.

A vida moderna é bem melhor do que a dos cavernícolas ignorantes da própria sombra. Hoje não precisa fazer fogueira, porque celular tem lanterna. Nem precisa correr atrás da torta holandesa de cada dia, pois entregador atende por aplicativo. Aliás, nem convém andar com grana no bolso, pra não rodar na esquina com a cuca pilhada de açúcar.

A beleza da vida pesa na gente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Vento solar

 

Vento solar

 

Zanzando por aí, ganho abraços de amigos da velha guarda, gente da minha idade, um pessoal que adolesceu nos anos setenta, é patota que sabe dizer o nome dos três patetas sem recorrer à Wikipédia.

Que experiência boa poder abraçar uns e outros sem a angústia de desconfiar, sem recusar as demonstrações carinhosas de afeto. Prefiro abraços calorosos a constrangimentos boçais.

Que delícia encontrar pessoas que elogiam quando recebidas com elogios. Que maravilha saber que podemos compartilhar alegrias com entusiasmo, que sobrevivemos ao pandemônio causado por um vírus. É muito bom seguir vivo apesar do cotidiano insistir em inocular em nós uma torrente de infelicidades.

Ter sobrevivido ao medo me autoriza a mudar de calçada ao avistar quem vem sem máscara. Sobrevivente, não faço drama algum ao virar as costas a quem vive a azucrinar as vacinas.

Condescendência não me fortalece e o que não fortalece deixa-me triste. E ficar reprisando um filme hediondo tantas vezes visto é burrice. Prefiro receber beijinhos a ter que denunciar velhacarias.

Com astral lá em cima, nada macambúzio, eis que meu cérebro vai abrindo janelas a cada cumprimento amistoso. E o ar flui, a brisa dá a renovada necessária, e o ambiente fica mais agradável, com muita luz, menos tóxico. Porque as tristezas derrubam e prostram, delas eu quero distância. Eu ando feliz da vida. Naturalmente contente, aliás.

Atualmente, quero muito ter distância de pessoas de mal com a vida porque, depois do susto da doença sem controle, quero manter o foco no que for positivo para todo mundo, exclusive os velhos babacas.

Estou de bem comigo. Penso nas borboletas polinizando laranjais. Imagino filhotes mamando. Mentalizo bagres limpando o leito dos rios. Tenho o dia todo para seguir desejando que o dia prossiga bom.

Como eu não quero discutir que o ar mortiço de ambiente fechado intoxica, mofa e repele quem gosta dos espaços aprazíveis, arreganho as janelas.

E o vento gira as pás, o moinho produz a farinha, a moagem reduz a pó o que é milho. Sendo ainda milho na substância de sua essência, o grão tem transformada sua existência, feito fubá. E fubá vira polenta, broa, torta, bolo. Gosto muito de angu. Então, o vento destrói a matéria, transfigura-a, dá-lhe outra condição e, nessa nova configuração, segue sendo alimento a quem tem fome. E há que se digerir com o estômago que se tem. No fundo, o milho sempre serve para fortalecer corpos.

E como não hei de pipocar...

Embora soe uma fantasia absurda a quem adepto do realismo, cuja prédica fundamental diz que é razoável evitar comparações aleatórias, porque a maioria das pessoas quer entender, compreender e repassar o que lhe dizem sem parecer confusa, enfatizo que não dá para reduzir a beleza solar da vida a cheiro azedo de milho de lavagem que o vento escarra na minha cara.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de janeiro de 2022.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

A gorjeta

 

A gorjeta

 

Como prezo a paciência, não refreio o ímpeto de dar cabo de inseto que vem sugar sangue. Ora, antes ele morto do que eu irritado.

Outro dia, veio pernilongo fazer gracinha nas minhas pernas. Levou tapa, foi zonzo ao chão, fulminei-o de sola.

Ao lado do morto, achei cinco centavos. E poderia ter mais. É como diz o ditado: a sorte faz o sortudo; moeda com moeda, o rico.

Como a lucidez dos atentos ensina a ouvir as ruas, não tirei os olhos da calçada. Fui andando lento, nem que encontrasse apenas migalhas. Por intuição, eu sabia que estava na trilha da fortuna. Boa, e muito boa, nem me pus a duvidar do quilate da minha lavra, e fui projetando uma escultura com os excrementos da sorte.

De modo algum que iria descuidar da escuta, nem por miado fortuito nem por freada bruta. Sendo homem que acredita em muito do que diz o povo, segui, calado e confiante, à cata da mina. Vi baganas, também vi tampinhas e, alegrando-me com minhas esperanças, fui prevendo o ouro relinchando um futuro menos sombrio.

Não estava perdido, certo de que minha mente, como a de qualquer outro, tinha o poder histórico de produzir boas notícias, ia desejoso de uma felicidade construída apesar dos acasos. De fato, sentia os meus pulmões fazendo subir mais e mais aquele monumento de indiscutível valor. Mango a mango, lavando o meu espírito com a arte da boa ação, com milhares de moedas desemporcalhando o caminho.

Como não deixaria pra outro o que eu poderia fazer, ainda que haja tanta dispersão nas ruas, não desistiria de separar e recolher moedas.

Por temer ficar suando em bica, a minha boca secou. Precisava do refresco de uma sombra. Perto tinha uma pracinha e, sob as árvores, eu queria beber um suco. Sabendo que tomaria uma limonada gelada, ainda que desabasse o temporal, eu ia lento, atento, e ia sem medo.

O mormaço era de tempestade. Mesmo que a chuva fosse intensa, a ideia de ficar onde estava foi crescendo em mim. Carregado de folhas secas, o meu cansaço dizia que a natureza tinha ciclos. Entretanto, sou fraco. Tenho essa fraqueza de ver as copas ressecadas, ainda que não estejam. Penso como idiota, um triste e fraco idiota que vê estabilidade no desespero, todavia a primavera virá.

Luisinho apareceu. E uma vez aparecido, disse que a máquina de lavar pifou de repente. Como quem faz não fica contando papo, o rapaz foi ágil: desmonta daqui, aparafusa dali e o troço voltou a funcionar.

Com a lava-roupa novinha outra vez, Luisinho sugeriu um desconto porque pagaria à vista, só que o moço dava garantia do serviço feito. Embora não pretendesse ofender quem sabia o justo pelo tempo gasto no conserto, Luisinho insistiu no choro camarada.

Obtido o abatimento, a bondade em pessoa tratou como generosa gorjeta a quantia abatida que foi reposta ao valor pedido inicialmente.

Caramba, isso não é ridículo nem mesquinho, é brilhante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de janeiro de 2022.

domingo, 23 de janeiro de 2022

O décimo segundo

 

O décimo segundo

 

Se a vida fosse um jogo, teria regras. Porque, sem regras, não seria simples determinar se há vencedor, ou mais de um, quando a disputa acaba. Aliás, sem fixar o fim, e consequentemente definir as posições de cada jogador, acarretaria embaraços e confusões. Note-se que não se está sugerindo injustiças ou erros de julgamento, aponta-se que há começo e fim ꟷ tais salvaguardas admitem emparelhar vida com jogo.

Aceita a brincadeira de dar à vida o sentido de uma partida, que se faz ludicamente mórbida quando a contenda considera integrantes: os tolos que se matam de trabalhar a troco de merrequinhas de nada; os pacóvios que entregam o que não têm a quem não recusa ter mais do que tem; e os inocentes que sentem que precisam bandear-se para os bobocas com câimbras dolorosas que lutam pra nunca deixar a peteca cair ou brigam para serem vistos como gente que gosta de se lambuzar enfiando a mão na cumbuca alheia.

Pois é, fala-se da imparcialidade do jogo como se não houvesse um determinismo cruel desde o nascimento. Sim, há certos joguinhos que ludibriam pela leviandade desde o berço, que são os que escondem a carta na manga porque trazem marcadas as cartas, todas elas, desde a seleção dos felizes perdedores escolhidos a dedo para cometerem o erro de pensar que jamais deixarão de perder.

Naturalmente, vence quem não conta com a sorte pra alcançar uma vitória consagradora, porque pode manipular sem parecer estar agindo como se a neutralidade estivesse instituída de antemão, com as regras indo pro papel como instruções estabelecidas pro jogo limpo.

Como a honestidade pede, nada mais cristalino do que avisar quem pode ganhar no final. De todo modo: quem pode, ganha mesmo; e não precisa fazer muito esforço; com um pé nas costas, sagra-se vencedor quem calça luvas de pelica pra lidar melhor com batata quente.

Muito bonito ficar falando assim, da vida feito jogo, mas que jogo se estará imaginando? De xadrez, com sua malha fina em que peões dão o sangue ao bispo que parte pra cima bradando lealdade ao trono real? De damas, com os seus ziguezagues que dão tontura mal a gente veja que jogou fora a chance de um baile menos indigno? De truco, que não faz conta de querer controlada a gritaria bestial de seis, nove, marreco! Ou se está propondo uma pelada em que a bola nossa das divididas é sempre a favor da zaga truculenta?

Para evitar que a bola se perca pela linha de fundo, estrile-se o apito pro intervalo regulamentar. Sim, é bom ter um tempo pra respirar, ainda mais com a camisa já pesada, bem encharcada, tão calorosa.

Dá um nó nas tripas ter de dividir o ar com quem chama o tira-teima apenas pra confirmar que a jogada besta só serve para detonar a infeliz da nossa equipe.

Justiça seja feita a quem leva vermelho sempre no banco: nada tem de esportivo ter de contar até dez atuando na cancha adversária.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Momento crítico

 

Momento crítico

 

Fiz algo simples. Não o fiz por escolha ou pela recusa ao poder de decidir o que faria: eu simplesmente apaguei a luz.

Tendo apagado a lâmpada da sala, quis ir à geladeira; também me propus que chegaria lá sem esbarrões nem joelhadas. De estranho, os móveis portaram-se indiferentes ao meu deslocamento.

Minha sensibilidade acendeu o alerta. Por que uma poltrona ou uma maçaneta poderiam achar que minha presença era irrelevante, que eu nem merecia tomar uma topada bem dada?

Me moveria sem ficar tateando o espaço à volta com algum respeito aos móveis, fossem os comprados por mim ou os herdados.

Se bati com os cotovelos, não foi para abrir passagem: quis marcar a epiderme das coisas com fragmentos da minha pele. Por minúsculas que fossem, tais lascas contaminariam com minha realidade a genética artificial de um cenário que se porta afrontoso aos fantasmas de gente viva, porque sou fonte claudicante de desejos.

Se não há em mim um traço de desastrado, forço derrubar um vaso. Mas o diabo do vaso fica que nem aí pro meu despropósito, o que fere o orgulho que tenho da minha vaidade de pessoa ativa.

Não me perco, reajo de maneira transparente às circunstâncias.

Sei de mim pelo comportamento de ser vivo, que busco me localizar entre paredes, portas, janelas. Como viro sondar o desassossego, trato de lapidar as farpas que agudizam as dores e sofrimentos. Quero tanto que a casa sinta que estou circulando em suas entranhas.

Como a um bebê é permitida a gestação com os desconcertos que transformações acarretam, ajuízo: vida é permanente mudança.

Todavia, não preciso de me conformar congelado na sala da minha casa, que não é nem um palco nem uma cela. Não quero esbarrar por esbarrar, quero-me vulnerável, frágil, quebrável. Quero ser tocado.

Sinto a treva. Pela confiança de não me ver barrado, alegrar-me-ei com a deselegância de arrepiar os pelos da nuca.

Sinto, e me arrepio.

Chove forte na escuridão de minhas angústias. Há rajadas de vento que uivam pelas frestas de minhas vergonhas. Suo, não patino na urina das minhas temeridades infantis. Sem dó nem piedade, a consciência arrepiada estarrece os olhares tão familiares dos retratos.

Como não gosto nada de perder, aposto?

Perco quando não consigo o que quero, e quero um vaso em cacos. Mesmo tentando, minhas mãos dão na porta da entrada. Perdido, não encontro a mesinha de centro. Giro, rodo, rodopio, desabo de joelhos. Bato com tudo no chão. Tonto e tendo os joelhos doloridos, fico pê da vida, é patética a incompetência pra quebrar um vasinho de violeta. As mãos buscam os pés da mesa. Ergo-me, endireito-me o quanto posso, como consigo. A dor não é tanta. Não finjo que não sinto dor. Que doa onde estiver doendo.

Quero ir à geladeira, e decido que vou. Pegarei o copo sem dar com a boca na borda. Respiro fundo: beber água não mata sede alguma.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de janeiro de 2022.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Tudo azul

 

Tudo azul

 

ꟷ Tudo azul?

ꟷ Só se for de raiva.

Não faz boa figura quem tira do sério a pessoa que acaba de molhar o bico com o primeiro gole do chopinho supimpa depois da ralação do expediente careta. O espírito de porco do homem fica uma arara com a falta de humanidade de quem não se toca, pois pedir uma assinatura numa folha de papel para evitar o apocalipse climático é um porre que corta o barato da bagaça.

Pode-se publicar um textão com forte apelo ao rancor hipócrita de censurar a inutilidade de abaixo-assinados pela vida menos rancorosa, hipócrita e ignorante das pegadas de carbono, porque até mesmo uma pessoa tão consciente importuna quem está bebendo um chope.

Quem bebe não está preocupado com o quanto é gasto com escada rolante, ar-condicionado e luz de praça de alimentação de shopping. É óbvio que, lá pelo sexto chope, a sensibilidade choramingosa teima em abraçar quem alerta generosamente que cachaça boa brota mesmo é no chão do bar da esquina.

E a baba perdigota acusa os escapamentos desregulados de carros que atropelam o bom senso de desacelerar a deterioração da casa de todo mundo, porque o meio ambiente abriga a todos nós.

Se não tem saída?

É preciso parar de fingir que não se está vendo, pois o fim do mundo está acontecendo bem diante do nariz. A nossa casa, o nosso lugar no universo, ela anda precisando de reforma de ponta a ponta, de cima a baixo, de lado a lado, por dentro e por fora. E a hora é agora, é chegado o momento de dar um basta à negação que não resolve patavina. Pois é necessário pôr abaixo o que está comprometido desde as fundações, antes que o telhado caia na cabeça de quem anda dormindo em pé.

ꟷ Belo discurso.

ꟷ Belo belo é uma ova.

Como não convém que se fale da parede mofada, com a pintura já descascando aqui e ali, então, faça-se uma nova pintura, chame-se um pintor que não fique colocando em dúvida a cor escolhida, a qualidade da tinta comprada e a quantidade de lixas e latas de látex.

Pinte-se de azul, fuja-se das ilações improdutivas como o verde da esperança e o amarelo da fortuna. Pinte-se de azul, que não tem nada que ver com o comunismo que a tudo corrompe nem com a paixão dos românticos que tocam fogo na mata como prova de amor furibundo.

Mas a floresta não é composta apenas de exemplares de um só tipo de árvore. Uma floresta natural é feita da mistura de árvores, das altas e das baixas, de novas e antigas, grossas e finas, as que pegam cupim e as que resistem ao verão polar.

Se uma mangueira numa praça dá muita manga, além das nuvens, todavia, não faz sol o tempo todo.

Resumindo a encrenca, o pioneiro cosmonauta soviético russo, que não matou de raiva a cadela Laika nem encheu a cara bolchevique de vodca abaixo de zero, assim que a ele lhe for dada a derradeira chance de entrar nesta história sem um pingo de lorota da boa, faça-se a justa e verdadeira saideira histórica:

ꟷ A Terra é bacana!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de janeiro de 2022.

domingo, 16 de janeiro de 2022

Tarde boa

 

Tarde boa

 

O menino estava no quintal. Naquela tarde sem chuva, uma alegria pegou no menino, que ele sentou no chão, na terra úmida, porque tinha chovido. E o menino nem sabia quanto ficaria sentado, poderia a tarde toda, porque a sua mãe disse à sua avó que escola só no ano que vem, que ele era novo, que podia brincar a hora que quisesse. As aulas que demorassem um bocado. Que o menino brincava a qualquer momento, começava e pronto. E o bom de brincar era não ter de pedir pra brincar. Ele começava a brincadeira que quisesse. O menino erguia torres com gravetos que pegava no quintal, subia chupar laranja no pé. E tudo era brincadeira, e ele brincava como queria. Para que a brincadeira ficasse gostosa, bastava ele sozinho chutar bola ou andar descalço.

O menino sabia que brincava, e que a sua vida era brincar o tempo todo. Acordava e tomava café, aquilo era divertido, que bem o menino enchia a boca de café com leite e segurava o quanto achava que podia, só depois o café com leite descesse pra barriga. O menino gostava de amolecer bolachas no café que a mãe tinha posto no copo, que aquele copo era dele, tinha o Batman. Podia deixar uma bolacha ficar tão mole que ela sumia no café, e tinha açúcar no café com leite da mãe.

Então, o bom da vida andava dentro do menino. Era do jeito que ele olhava pro mundo, a começar pela família, porque na sua casa tinha o pai, a mãe, mais a irmã. Sem pôr caso que fosse um menino de família, e ele teria de ir à escola. E o menino gostava de brincar por saber que tinha uma família boa. E ele brincava onde vivia, que a casa era boa.

O menino era pequeno, mirrado, franzino, de pouca idade, que ele iria pra escola só no ano que vem. A sua mãe disse pra sua avó que o menino poderia brincar, sem falar que não era bom sentar na terra do quintal. E o chão atrás da casa estava meio enlameado, bem molhado, mas o menino sentou e o seu short ficou sujo, pegou umidade do barro e aquilo não tinha importância. Ficar de calção sujo e meio molhado é que não iria impedir a brincadeira, que ele tinha visto uns passarinhos numa bananeira.

Então, o menino pegou uma pedra, atirou, mas o tiro foi fraco, que ele nem chegou aos pés da bananeira. O menino pegou outra pedra, pôs mais força, achou que tinha posto bem mais força do que fez. A pedra deu no meio do tronco da bananeira, que o menino não gostou de ter feito errado o tiro. Ele queria acertar um passarinho, algum dos passarinhos que estavam no pé de banana que tinha no quintal. Pois o menino achou de atirar outra pedra, pegou uma grande, brincou com a pedra, jogando pro alto e pegando sem deixar cair.

Então, o menino mirou bem, pôs fé que acertaria desta vez, que a pedra derrubasse o bicho. A pedra passou raspando, foi longe, passou que foi lambendo a bananeira, e assim foi que ela sumiu no riacho que corre atrás do terreno.

Achando bom não perder tamanha tarde linda, o guri pulou no rio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Um instante a bel-prazer

 

Um instante a bel-prazer

 

Perdido de mim um instante, é bem provável que justamente neste instante, que a mente deixa passar e dele, por suposto, não tenha nada de razoável a dizer, é bem possível que me sinta só, irremediavelmente só, e estranhamente calmo.

No entanto, o tempo tem uns troços difíceis de digerir. Eu não forço a barra pra engolir. Não fico enjoado nem faço cara de bobo, pois bobo que é bobo não fica querendo entender este estado d’alma e desfruta a calmaria que o pasmo produz.

Se nem me sinto fora de mim sequer por um segundo, como posso estar surtado?

Engano-me que eu gosto e, por muito gostar de mim a fazer truques como diversão inocente a me resignar vivo entre os vivos, peço paz às pessoas que reconhecem minha condição de ser humano que se acha sentado, começando a comer e portanto sem tempo pra mais nada.

A reboque do instante, percebo que posso mas não quero saber de nada. Por um momento, é prático não ficar pensando na vida.

Agora, neste exato momento que a paz de espírito me controla, não tenho a necessidade de dizer que não estou adiantado nem atrasado, pois estou sentado e, numa boa, nem gosto nem desgosto disso.

Se raciocinasse em função do que faço, e sem ninguém carecendo de atenção, sinto que estou feliz por estar comendo.

Talvez a satisfação pela boca explique a cara de bobo. Com alguma imbecilidade a me convencer a seguir pensando que me preocupo com o caos da vida, e depois do almoço, então, muito mais.

Corto o bife, mastigo o tanto do filé que o garfo espeta. Quero o que entra pela minha boca. Sem drama de passarinho guloso, vou cortando e abocanhando, e automaticamente me desligo do mundo.

Comporto um autômato que come quieto.

Do meu ritmo descuido eu, que não me ocupo do que vou fazendo. No entanto, é melhor prevenir: quando manipulo o garfo, tenho certeza de que posso ser ameaça às pessoas.

De fato, represento perigo a quem me force a comer em paz.

Que minhas palavras não iludam: se não preciso lutar pela paz nem acho necessário defender minha paz enquanto estou comendo, façam o obséquio de ignorar-me comendo sozinho.

Pois, sem ofensa, sei como engolir sem engasgar: a mão tem faca e garfo, a boca tem dentes e a química do corpo faz o resto.

Portanto, não ficarei olhando à toa a comida no prato. É para fazer justiça com a boca que farei bom uso da coordenação motora e usarei garfo e faca com propriedade.

A bem da verdade, a vida avisa que passa.

Com a calçada cheia de gente, com a rua movimentada, tem quem atravesse fora da faixa. Buzinando, há quem mostre o tanto de irritação com quem só vai atravessando sem ligar pros carros.

Sem ter sobre mim o controle preciso de um chip, pagarei a conta, bicarei o cafezinho e lamentarei a traição do juízo: se fumasse, tragaria à felicidade devoradora de charutos de folhas de repolho sem que meu coração disparasse por um escondidinho de camarão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de janeiro de 2022.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A menina dos meus olhos

 

A menina dos meus olhos

 

Ser leal a si pode tornar estressante a convivência consigo.

Ótimo! Compelido a não largar pelo caminho nenhuma das tarefas que achei de realizar, a lealdade durou até que o pescoço venceu.

Nem ri nem chorei, não perdi tempo tentando argumentar.

Ao perceber minha incapacidade para impedir a cabeça começando a pescar, tombando em direção à mesa, desisti da leitura do jornal. Se saí sem calombo algum na testa, fui pro mundo sem saber das últimas calamidades.

Contudo, foi pelo sol forte que levei o jornal, que, afinal, poderia me servir de abano ou chapéu. Como sentei na calçada do passeio, foi-me útil ao proteger os fundilhos e fugir do “marcha soldado”.

Debaixo de uma árvore, fiquei lendo mensagens.

Muita desgraça. Muita desinformação. Muitas bobagens. E gosto de curtir, compartilhar. E adoro viralizar as besteirinhas que curto.

Todavia, as fotos de um amigo já em casa me lembraram do carinho que, de uma maneira geral, pouco tenho demonstrado sentir.

Para sair da inércia, decidi que iria visitá-lo.

Boa! Se vou mesmo visitar o convalescente, comprarei maçãs.

Agora que pensei em maçã, ouço o ronco do estômago vazio. Estou de jejum desde que fui dormir. Sequer tive o prazer de um frugal copo d’água acompanhado de uma bolachinha água e sal.

Barriga vazia é oficina do diabo, professa o único faquir compulsivo que não faz parte da família. Não faz e continuará de fora porque esse magro de ruim tem a pachorra de convencer qualquer pessoa de que o inferno está cheio de gente que não aceita comer na sua mão.

Com o telefone bombando novidade, sei que não é boa coisa querer comer a maçã que nem foi comprada. A diatribe do balacobaco, porém, é que eu salivo como se fosse meu este pensamento.

Contrariado. Irritado. Sucumbo, e deixo vir à mente que o meu corpo é um gato tocando cuíca. Que coisa ridícula! Rio alto.

Constrangido, demoro levantar os olhos. Temeroso que estejam me achando um imbecil qualquer, censuro-me pela risada abrupta. E espio com o rabo do olho. E observo, quem está perto nem ouviu o riso solto ou nem chegou a se interessar pela gargalhada supostamente idiota.

A dois cuspes de mim, o homem que não é surdo está pintando.

Nem preciso explicar que gato não toca cuíca, só arranha.

Excelente! Esboço um interesse no homem que pinta.

Não deixarei que o mundo me distraia.

Reparo, o homem está pintando uma menina que balança.

Tomando o cuidado de parecer desinteressado, pois não quero que fique aborrecido, ponho um olho no quadro pintado e outro na menina balançando.

Tem alguma coisa que não está batendo.

A mancha colorida parece não retratar a cena da menina no balanço à frente do homem trabalhando.

Forçando um pouco o pescoço, consigo ver o que o quadro tem de esquisito: o artista pôs um passarinho na mureta do mirante às costas da menina do balanço.

Ô diabo! Cadê a menina?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de janeiro de 2022.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Sortudos

 

Sortudos

 

Por uma baita coincidência, que só as estrelas para explicar por que série de circunstâncias miraculosas aquilo se tornou um acontecimento incrível: sem que soubessem da disposição de cravar as seis dezenas durante as doze badaladas, eles entraram na lotérica minutinhos antes do meio-dia, tomaram lugar em filas paralelas e, justamente na décima segunda badalada, cada um teve apostado o jogo que levou de casa.

Como se as energias renovadoras do Ano Novo não os orientassem em tudo que iam fazendo, eles suspiravam de quando em quando.

Determinados, mas só com olhar de lince pra retratá-los agindo com a certeza de que um não sei que transcendental lhes havia tocado em algum momento de suas rotinas tão normais.

Passando-se por história, o mistério se fazendo ordinário, cada qual tomava a ducha diária. Entre seis e meia e sete horas, com quarteirões a distanciá-los um do outro, a ligá-los, todavia, um curto-circuito. Então, o formidável deu o ar da sua graça: o cheiro de queimado cresceu-lhes o êxtase no instante em que cada qual não pronunciava em vão o nome daquela poderosa deusa do funk.

Contudo, as faíscas do chuveiro não foram um detalhe qualquer, já que a conexão cósmica começou a se tornar real na madrugada, pois, pelejando pra escalar a Seleção do Tite pra Copa do Catar, os números da sorte foram repassados pela mesma deusa do funk.

E essa boca carnuda sussurrou-lhes José, nome comum a ambos, porque de fato os dois tinham esse nome, José.

Ao serem despertados pela deusa do funk, cada José tratou de não esquecer os números que dariam fim ao desastre de viver sem maiores alegrias. E o melhor meio de continuar lembrando as seis dezenas era anotando-as num volante. Logo correndo, com o azul que não era mais o simples azul, a Sena foi marcada.

Os dois Josés sabiam que a sonhada vida feliz não haveria de ser construída solitariamente.

O primeiro José devia arrumar casamento ou gastaria a dinheirama toda numa só noitada de Keep Cooler com a sublime Suelen Cristine, aquela rainha sórdida nascida Marciana Maria.

Embora José estivesse contente por continuar empregado, ou seja, embora reconhecesse o coração do patrão que poderia tê-lo despedido porque o restaurante ficara fechado durante a primeira onda do corona, não mais se vendo obrigado a ficar somente contente, o segundo José queria ser mais útil à sociedade inteira.

Desconfiados, já que alguma coisa muito boa estava pra acontecer, os dois Josés comeram pastel, beberam guaraná, ouviram as notícias, tiraram uma casquinha de quem ainda não tinha tomado vacina e, com o temporal armado, sumiram que nem saci.

Uma vez que a esperança estivesse lançada, José e José, cada um no seu lar, entraram, beberam, fumaram, quedaram desdenhar do céu carrancudo, pois a deusa do funk, ela própria, era a mãezona de todas as Megas Premiadas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Pacote completo

 

Pacote completo

 

Na semana depois do Natal, não tendo sido atendido o pedido bem simples ꟷ só quero relaxar um pouco esta pessoa presa à consciência que gosta de tumultuar para seguir parada ꟷ, resolvi que me mexeria.

Embora quisesse um dedinho de paciência para comer sem pressa mais um pedaço de panetone, engoli depois de umas três mastigadas, consegui enfiar na cabeça que nem valeria tanto assim exigir respeito à lista de realizações inadiáveis.

Como não me preocupo com o funcionamento do fígado, virei beber copos e copos de leite enriquecido com cálcio, que isso era bom pros ossos, mas a quantidade exagerada atacou a vesícula.

Que vesícula? A minha foi retirada.

Pois é, vai entender como o organismo humano trabalha...

Ajo e falho, gero frustrações; vitorioso, crescem as expectativas de que eu possa virar especialista em conquistas avassaladoras.

Avassaladora foi a minha impotência diante do poder, pois o Papai Noel bem que poderia ter alguma simpatia por mim e ter valorizado a predisposição a errar cálculos banais, até pra não ultrapassar os limites recomendáveis ao trabalho normal das entranhas.

Sempre achei que poderia viver acreditando que um mundo melhor depende de nossa barriga digerir numa boa o que tem pra digerir, sem abrir o bico e pedir clemência à flora intestinal.

Peraí!

Uma ova que vou ficar chorando as pitangas.

Com um mercado pela frente, fui convicto, realmente esperançoso, pois ninguém agiria em nome deste cidadão.

Tenho direito a voto e exerço-o com alegria.

E declaro de peito aberto, voz mansa e sorriso sem nada de santo: estou certo de que depois do relâmpago vem o estrondo.

Radiante de lúcido, fui às compras com cinquenta reais.

Cinquenta?

Cinquenta, pois, ao vê-la tão curtinha na carteira, deu um dó sentido da gaita, então, peguei a nota que gerasse o maior número de notas.

Se dinheiro anda valendo o volume que faz, queria estufado o bolso.

Acredite, fiz o certo. Levando a carteira, as merrecas me deixariam incomodado. Atrás de algum compartimento secreto, iria fuçar ansioso.

De ansioso pra furioso, adeus bonde da felicidade.

E pior! Meu último amor me sorriria da foto que o zíper da bolsinha de moedas faz bem em resguardar do meu rancor.

Não quero viver outra vez o que passei.

Aliás, fiquei sozinho, em paz, nem fui à missa do galo. E, sem gente reclamando, fiz coro à Nara Leão, porque nasci feliz, nasci para bailar, e bailei até cair bêbado no sofá.

Finalmente, acordei! E acordei querendo sequilho.

No caixa, a mocinha sugeriu que trocasse aquele pacote que estava uma farofinha que dava nojo.

Não só não troquei, como juntei outro pacote. Porque não sou burro, não seria uma farofa que iria me impedir de constrangê-la a me sugerir a esperada troca, e ela cobrou sem dizer um A.

Comi tudo de uma vez. Tive azia, diarreia e vomitei.

Putz! Que olho gordo do caramba.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de janeiro de 2022.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

O presente

 

O presente

 

Primeiro dia do ano, é bom pôr as coisas nos seus devidos lugares, daí que dá essa comichão de exagerar os defeitos dos outros e tirar o peso dos erros cometidos no ano recém-passado. Porém, para não se prender ao já vivido, ou se pega leve com a ressaca ainda parada na boca do estômago ou uma dor de cabeça hiperbólica topa transformar os abusos da virada nuns cataclismos irrefreáveis.

Decididamente, é por excesso de motivo aparente que capotar de bêbado na beira-mar torna fácil explicar o porquê de escarrar espuma. A dificuldade, no entanto, está em se livrar das sete ondinhas sem ficar enjoado com a maré subindo boca afora, como se a indiscrição pedisse estes arrotos carnavalescos.

Melhor imaginar alguma coisa menos cômica e nojenta.

Sabe aquela pessoa amiga, legal, que curte um papo descontraído, que está fazendo aniversário justamente nesta data querida?

Escolha ir visitá-la, peça para abraçá-la, tente trocar beijinhos. Faça isso e talvez você aguente o perfume azedando a cena tão singela.

Vá, mas não vá porque sente que tem que ir. Não queira ir só para agradar ou não fazer feio. Não aja por obrigação. Pois marcar presença é atitude burocrática, e não comece a agir de maneira passiva.

Pondo de lado as burrices que sempre pedem para ser perpetradas de novo, lembre-se de que janeiro é ótimo para encarar o futuro.

Vamos, não volte a empurrar com a barriga a sujeira para debaixo do tapete. Não se iluda, a montanha majestosa proeminente no meio da sala é fruto do seu ego. Com a vassoura e a pá formando um conjunto harmoniosamente fotogênico, o jogo é inútil.

Livre-se da balela de acreditar-se mudado, empenhe-se em mudar. Anime-se, não deixe pra depois: varra e faxine. Pois varal de camisetas pingando prova que roupa suja se lava com água e sabão.

Não duvide, abrir janela não impedirá a mente de ficar babando com pudim. Suar de um lado pro outro não diminui um tiquinho a queimação do estômago. Aceite logo, não há frase feita que abale um alicerce.

Você acha que rabiscar parede não quebra ponta de lápis?

Tem quem viva ambicionando outro amanhã. E tanto fala nisso que a gente nem pensa duas vezes ao lhe emprestar a credulidade. Porém, quando não tem ninguém olhando, a saliva ajuda na hora de contar a bufunfa ganha com a nossa sensibilidade perdulária.

Ligue os pontos.

Por amor à amizade, vá.

Ainda que servido gelado, experimente o vinho tinto.

Ganhe fôlego. Pense no livro maravilhoso que precisa indicar, pois seus versos incríveis saem diretamente da memória.

Ouça com carinho. Queira assistir àquele filme que nem tinha posto na sua lista de desejos.

Sinceramente, só promessas honradas merecem ser assumidas.

Por isso, e consequentemente, a mão espalmada do aniversariante adora sentir reais as cem pratas da aposta.

Afinal, suas doze latinhas de breja sempre vêm pra festa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de janeiro de 2022.