O
pão
Até que lhe pediu um pão, não tinha
reparado naquela mulher. Mas a outra, a que acabara de ligar o alarme do automóvel,
não olhou uma segunda vez, que o silêncio fosse loquaz o bastante como resposta
à esmola pedida de modo tão impróprio.
A mulher que pedira pão à mulher que
entrou no supermercado sem lhe dirigir obscenidades não esperou muito, porque
um homem desceu sem pressa do carro estacionado de modo muito vagaroso.
Desta vez ela foi ouvida. Antes não
fosse, porque o homem que não lhe deu dinheiro gritou que essa gente vagabunda deveria
mesmo era morrer de fome.
Um homem saía do supermercado, parou, pôs
as sacolas no chão, tirou dinheiro da carteira e entregou-o à mulher, que nem
lhe disse para que iria servir aquela esmola.
A mulher agradeceu; sorrindo, o homem meneou
a cabeça, pegou as compras, atravessou a rua e foi calmamente pela rua afora.
Sem perder tempo, a mulher entrou no
supermercado, foi direto ao balcão da padaria e pediu que lhe fosse vendida a
quantidade de pão até o valor da nota, que exibia na altura dos olhos da
balconista.
Com um nada discreto pegador de aço
inoxidável, a funcionária que trabalhava no balcão da padaria foi colocando
pãozinho por pãozinho no saco de papel que tinha a mensagem “qualidade em
primeiro lugar” sob a logomarca da rede de supermercado.
Assim que a balança mostrou um valor acima
da nota exibida pela mulher que trajava puídas roupas ensebadas e estava
recendendo a bodum de urina com suor, a balconista resolveu calçar um par de
luvas de plástico transparente para retirar o peso que fosse necessário para que
o limite não fosse ultrapassado.
Já o pãozinho a mais foi colocado de volta
na grande cesta de pães.
Preocupada em ser simpática com a
primeira pessoa que estava na fila atrás da mulher malcheirosa, a balconista foi
logo lacrando o pacote com a etiqueta emitida pela balança e, como era obrigada,
ela retribuiu o bom-dia dito pela mulher que empregara a esmola para comprar
pão.
Como queria sair rapidamente do
estabelecimento, a mulher com o saco de pães foi para o caixa que não tinha
fila, entregou o dinheiro ao funcionário, pegou o troco e, já saindo do prédio,
jogou fora a sacola.
Do outro lado da rua, sentada debaixo de
um ipê amarelo, a mulher guardou as moedas do troco na bolsinha de pano que tinha
sob a alça do vestido no ombro esquerdo.
Para não ter o saquinho danificado além
do que fosse preciso para abri-lo, ela rompeu o lacre utilizando o indicador como
espátula de abrir envelopes.
Sem frescura, a mulher partiu o pão,
mordeu o pedaço, mastigou-o e um gole d’água ajudou a engolir o tanto que tinha
mastigado. Ela foi repetindo aquilo tudo, cada uma daquelas ações, até que não
sobrasse pão algum. Atirou o saco amassado. Então, a mulher bateu das roupas as
migalhas. E foi limpando a boca com uma das mãos que, entretanto, lhe escapou
um arroto.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 06 de fevereiro de 2022.
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