domingo, 6 de fevereiro de 2022

O pão

 

O pão

 

Até que lhe pediu um pão, não tinha reparado naquela mulher. Mas a outra, a que acabara de ligar o alarme do automóvel, não olhou uma segunda vez, que o silêncio fosse loquaz o bastante como resposta à esmola pedida de modo tão impróprio.

A mulher que pedira pão à mulher que entrou no supermercado sem lhe dirigir obscenidades não esperou muito, porque um homem desceu sem pressa do carro estacionado de modo muito vagaroso.

Desta vez ela foi ouvida. Antes não fosse, porque o homem que não lhe deu dinheiro gritou que essa gente vagabunda deveria mesmo era morrer de fome.

Um homem saía do supermercado, parou, pôs as sacolas no chão, tirou dinheiro da carteira e entregou-o à mulher, que nem lhe disse para que iria servir aquela esmola.

A mulher agradeceu; sorrindo, o homem meneou a cabeça, pegou as compras, atravessou a rua e foi calmamente pela rua afora.

Sem perder tempo, a mulher entrou no supermercado, foi direto ao balcão da padaria e pediu que lhe fosse vendida a quantidade de pão até o valor da nota, que exibia na altura dos olhos da balconista.

Com um nada discreto pegador de aço inoxidável, a funcionária que trabalhava no balcão da padaria foi colocando pãozinho por pãozinho no saco de papel que tinha a mensagem “qualidade em primeiro lugar” sob a logomarca da rede de supermercado.

Assim que a balança mostrou um valor acima da nota exibida pela mulher que trajava puídas roupas ensebadas e estava recendendo a bodum de urina com suor, a balconista resolveu calçar um par de luvas de plástico transparente para retirar o peso que fosse necessário para que o limite não fosse ultrapassado.

Já o pãozinho a mais foi colocado de volta na grande cesta de pães.

Preocupada em ser simpática com a primeira pessoa que estava na fila atrás da mulher malcheirosa, a balconista foi logo lacrando o pacote com a etiqueta emitida pela balança e, como era obrigada, ela retribuiu o bom-dia dito pela mulher que empregara a esmola para comprar pão.

Como queria sair rapidamente do estabelecimento, a mulher com o saco de pães foi para o caixa que não tinha fila, entregou o dinheiro ao funcionário, pegou o troco e, já saindo do prédio, jogou fora a sacola.

Do outro lado da rua, sentada debaixo de um ipê amarelo, a mulher guardou as moedas do troco na bolsinha de pano que tinha sob a alça do vestido no ombro esquerdo.

Para não ter o saquinho danificado além do que fosse preciso para abri-lo, ela rompeu o lacre utilizando o indicador como espátula de abrir envelopes.

Sem frescura, a mulher partiu o pão, mordeu o pedaço, mastigou-o e um gole d’água ajudou a engolir o tanto que tinha mastigado. Ela foi repetindo aquilo tudo, cada uma daquelas ações, até que não sobrasse pão algum. Atirou o saco amassado. Então, a mulher bateu das roupas as migalhas. E foi limpando a boca com uma das mãos que, entretanto, lhe escapou um arroto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de fevereiro de 2022.

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