terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Tudo azul

 

Tudo azul

 

ꟷ Tudo azul?

ꟷ Só se for de raiva.

Não faz boa figura quem tira do sério a pessoa que acaba de molhar o bico com o primeiro gole do chopinho supimpa depois da ralação do expediente careta. O espírito de porco do homem fica uma arara com a falta de humanidade de quem não se toca, pois pedir uma assinatura numa folha de papel para evitar o apocalipse climático é um porre que corta o barato da bagaça.

Pode-se publicar um textão com forte apelo ao rancor hipócrita de censurar a inutilidade de abaixo-assinados pela vida menos rancorosa, hipócrita e ignorante das pegadas de carbono, porque até mesmo uma pessoa tão consciente importuna quem está bebendo um chope.

Quem bebe não está preocupado com o quanto é gasto com escada rolante, ar-condicionado e luz de praça de alimentação de shopping. É óbvio que, lá pelo sexto chope, a sensibilidade choramingosa teima em abraçar quem alerta generosamente que cachaça boa brota mesmo é no chão do bar da esquina.

E a baba perdigota acusa os escapamentos desregulados de carros que atropelam o bom senso de desacelerar a deterioração da casa de todo mundo, porque o meio ambiente abriga a todos nós.

Se não tem saída?

É preciso parar de fingir que não se está vendo, pois o fim do mundo está acontecendo bem diante do nariz. A nossa casa, o nosso lugar no universo, ela anda precisando de reforma de ponta a ponta, de cima a baixo, de lado a lado, por dentro e por fora. E a hora é agora, é chegado o momento de dar um basta à negação que não resolve patavina. Pois é necessário pôr abaixo o que está comprometido desde as fundações, antes que o telhado caia na cabeça de quem anda dormindo em pé.

ꟷ Belo discurso.

ꟷ Belo belo é uma ova.

Como não convém que se fale da parede mofada, com a pintura já descascando aqui e ali, então, faça-se uma nova pintura, chame-se um pintor que não fique colocando em dúvida a cor escolhida, a qualidade da tinta comprada e a quantidade de lixas e latas de látex.

Pinte-se de azul, fuja-se das ilações improdutivas como o verde da esperança e o amarelo da fortuna. Pinte-se de azul, que não tem nada que ver com o comunismo que a tudo corrompe nem com a paixão dos românticos que tocam fogo na mata como prova de amor furibundo.

Mas a floresta não é composta apenas de exemplares de um só tipo de árvore. Uma floresta natural é feita da mistura de árvores, das altas e das baixas, de novas e antigas, grossas e finas, as que pegam cupim e as que resistem ao verão polar.

Se uma mangueira numa praça dá muita manga, além das nuvens, todavia, não faz sol o tempo todo.

Resumindo a encrenca, o pioneiro cosmonauta soviético russo, que não matou de raiva a cadela Laika nem encheu a cara bolchevique de vodca abaixo de zero, assim que a ele lhe for dada a derradeira chance de entrar nesta história sem um pingo de lorota da boa, faça-se a justa e verdadeira saideira histórica:

ꟷ A Terra é bacana!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de janeiro de 2022.

domingo, 16 de janeiro de 2022

Tarde boa

 

Tarde boa

 

O menino estava no quintal. Naquela tarde sem chuva, uma alegria pegou no menino, que ele sentou no chão, na terra úmida, porque tinha chovido. E o menino nem sabia quanto ficaria sentado, poderia a tarde toda, porque a sua mãe disse à sua avó que escola só no ano que vem, que ele era novo, que podia brincar a hora que quisesse. As aulas que demorassem um bocado. Que o menino brincava a qualquer momento, começava e pronto. E o bom de brincar era não ter de pedir pra brincar. Ele começava a brincadeira que quisesse. O menino erguia torres com gravetos que pegava no quintal, subia chupar laranja no pé. E tudo era brincadeira, e ele brincava como queria. Para que a brincadeira ficasse gostosa, bastava ele sozinho chutar bola ou andar descalço.

O menino sabia que brincava, e que a sua vida era brincar o tempo todo. Acordava e tomava café, aquilo era divertido, que bem o menino enchia a boca de café com leite e segurava o quanto achava que podia, só depois o café com leite descesse pra barriga. O menino gostava de amolecer bolachas no café que a mãe tinha posto no copo, que aquele copo era dele, tinha o Batman. Podia deixar uma bolacha ficar tão mole que ela sumia no café, e tinha açúcar no café com leite da mãe.

Então, o bom da vida andava dentro do menino. Era do jeito que ele olhava pro mundo, a começar pela família, porque na sua casa tinha o pai, a mãe, mais a irmã. Sem pôr caso que fosse um menino de família, e ele teria de ir à escola. E o menino gostava de brincar por saber que tinha uma família boa. E ele brincava onde vivia, que a casa era boa.

O menino era pequeno, mirrado, franzino, de pouca idade, que ele iria pra escola só no ano que vem. A sua mãe disse pra sua avó que o menino poderia brincar, sem falar que não era bom sentar na terra do quintal. E o chão atrás da casa estava meio enlameado, bem molhado, mas o menino sentou e o seu short ficou sujo, pegou umidade do barro e aquilo não tinha importância. Ficar de calção sujo e meio molhado é que não iria impedir a brincadeira, que ele tinha visto uns passarinhos numa bananeira.

Então, o menino pegou uma pedra, atirou, mas o tiro foi fraco, que ele nem chegou aos pés da bananeira. O menino pegou outra pedra, pôs mais força, achou que tinha posto bem mais força do que fez. A pedra deu no meio do tronco da bananeira, que o menino não gostou de ter feito errado o tiro. Ele queria acertar um passarinho, algum dos passarinhos que estavam no pé de banana que tinha no quintal. Pois o menino achou de atirar outra pedra, pegou uma grande, brincou com a pedra, jogando pro alto e pegando sem deixar cair.

Então, o menino mirou bem, pôs fé que acertaria desta vez, que a pedra derrubasse o bicho. A pedra passou raspando, foi longe, passou que foi lambendo a bananeira, e assim foi que ela sumiu no riacho que corre atrás do terreno.

Achando bom não perder tamanha tarde linda, o guri pulou no rio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Um instante a bel-prazer

 

Um instante a bel-prazer

 

Perdido de mim um instante, é bem provável que justamente neste instante, que a mente deixa passar e dele, por suposto, não tenha nada de razoável a dizer, é bem possível que me sinta só, irremediavelmente só, e estranhamente calmo.

No entanto, o tempo tem uns troços difíceis de digerir. Eu não forço a barra pra engolir. Não fico enjoado nem faço cara de bobo, pois bobo que é bobo não fica querendo entender este estado d’alma e desfruta a calmaria que o pasmo produz.

Se nem me sinto fora de mim sequer por um segundo, como posso estar surtado?

Engano-me que eu gosto e, por muito gostar de mim a fazer truques como diversão inocente a me resignar vivo entre os vivos, peço paz às pessoas que reconhecem minha condição de ser humano que se acha sentado, começando a comer e portanto sem tempo pra mais nada.

A reboque do instante, percebo que posso mas não quero saber de nada. Por um momento, é prático não ficar pensando na vida.

Agora, neste exato momento que a paz de espírito me controla, não tenho a necessidade de dizer que não estou adiantado nem atrasado, pois estou sentado e, numa boa, nem gosto nem desgosto disso.

Se raciocinasse em função do que faço, e sem ninguém carecendo de atenção, sinto que estou feliz por estar comendo.

Talvez a satisfação pela boca explique a cara de bobo. Com alguma imbecilidade a me convencer a seguir pensando que me preocupo com o caos da vida, e depois do almoço, então, muito mais.

Corto o bife, mastigo o tanto do filé que o garfo espeta. Quero o que entra pela minha boca. Sem drama de passarinho guloso, vou cortando e abocanhando, e automaticamente me desligo do mundo.

Comporto um autômato que come quieto.

Do meu ritmo descuido eu, que não me ocupo do que vou fazendo. No entanto, é melhor prevenir: quando manipulo o garfo, tenho certeza de que posso ser ameaça às pessoas.

De fato, represento perigo a quem me force a comer em paz.

Que minhas palavras não iludam: se não preciso lutar pela paz nem acho necessário defender minha paz enquanto estou comendo, façam o obséquio de ignorar-me comendo sozinho.

Pois, sem ofensa, sei como engolir sem engasgar: a mão tem faca e garfo, a boca tem dentes e a química do corpo faz o resto.

Portanto, não ficarei olhando à toa a comida no prato. É para fazer justiça com a boca que farei bom uso da coordenação motora e usarei garfo e faca com propriedade.

A bem da verdade, a vida avisa que passa.

Com a calçada cheia de gente, com a rua movimentada, tem quem atravesse fora da faixa. Buzinando, há quem mostre o tanto de irritação com quem só vai atravessando sem ligar pros carros.

Sem ter sobre mim o controle preciso de um chip, pagarei a conta, bicarei o cafezinho e lamentarei a traição do juízo: se fumasse, tragaria à felicidade devoradora de charutos de folhas de repolho sem que meu coração disparasse por um escondidinho de camarão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de janeiro de 2022.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A menina dos meus olhos

 

A menina dos meus olhos

 

Ser leal a si pode tornar estressante a convivência consigo.

Ótimo! Compelido a não largar pelo caminho nenhuma das tarefas que achei de realizar, a lealdade durou até que o pescoço venceu.

Nem ri nem chorei, não perdi tempo tentando argumentar.

Ao perceber minha incapacidade para impedir a cabeça começando a pescar, tombando em direção à mesa, desisti da leitura do jornal. Se saí sem calombo algum na testa, fui pro mundo sem saber das últimas calamidades.

Contudo, foi pelo sol forte que levei o jornal, que, afinal, poderia me servir de abano ou chapéu. Como sentei na calçada do passeio, foi-me útil ao proteger os fundilhos e fugir do “marcha soldado”.

Debaixo de uma árvore, fiquei lendo mensagens.

Muita desgraça. Muita desinformação. Muitas bobagens. E gosto de curtir, compartilhar. E adoro viralizar as besteirinhas que curto.

Todavia, as fotos de um amigo já em casa me lembraram do carinho que, de uma maneira geral, pouco tenho demonstrado sentir.

Para sair da inércia, decidi que iria visitá-lo.

Boa! Se vou mesmo visitar o convalescente, comprarei maçãs.

Agora que pensei em maçã, ouço o ronco do estômago vazio. Estou de jejum desde que fui dormir. Sequer tive o prazer de um frugal copo d’água acompanhado de uma bolachinha água e sal.

Barriga vazia é oficina do diabo, professa o único faquir compulsivo que não faz parte da família. Não faz e continuará de fora porque esse magro de ruim tem a pachorra de convencer qualquer pessoa de que o inferno está cheio de gente que não aceita comer na sua mão.

Com o telefone bombando novidade, sei que não é boa coisa querer comer a maçã que nem foi comprada. A diatribe do balacobaco, porém, é que eu salivo como se fosse meu este pensamento.

Contrariado. Irritado. Sucumbo, e deixo vir à mente que o meu corpo é um gato tocando cuíca. Que coisa ridícula! Rio alto.

Constrangido, demoro levantar os olhos. Temeroso que estejam me achando um imbecil qualquer, censuro-me pela risada abrupta. E espio com o rabo do olho. E observo, quem está perto nem ouviu o riso solto ou nem chegou a se interessar pela gargalhada supostamente idiota.

A dois cuspes de mim, o homem que não é surdo está pintando.

Nem preciso explicar que gato não toca cuíca, só arranha.

Excelente! Esboço um interesse no homem que pinta.

Não deixarei que o mundo me distraia.

Reparo, o homem está pintando uma menina que balança.

Tomando o cuidado de parecer desinteressado, pois não quero que fique aborrecido, ponho um olho no quadro pintado e outro na menina balançando.

Tem alguma coisa que não está batendo.

A mancha colorida parece não retratar a cena da menina no balanço à frente do homem trabalhando.

Forçando um pouco o pescoço, consigo ver o que o quadro tem de esquisito: o artista pôs um passarinho na mureta do mirante às costas da menina do balanço.

Ô diabo! Cadê a menina?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de janeiro de 2022.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Sortudos

 

Sortudos

 

Por uma baita coincidência, que só as estrelas para explicar por que série de circunstâncias miraculosas aquilo se tornou um acontecimento incrível: sem que soubessem da disposição de cravar as seis dezenas durante as doze badaladas, eles entraram na lotérica minutinhos antes do meio-dia, tomaram lugar em filas paralelas e, justamente na décima segunda badalada, cada um teve apostado o jogo que levou de casa.

Como se as energias renovadoras do Ano Novo não os orientassem em tudo que iam fazendo, eles suspiravam de quando em quando.

Determinados, mas só com olhar de lince pra retratá-los agindo com a certeza de que um não sei que transcendental lhes havia tocado em algum momento de suas rotinas tão normais.

Passando-se por história, o mistério se fazendo ordinário, cada qual tomava a ducha diária. Entre seis e meia e sete horas, com quarteirões a distanciá-los um do outro, a ligá-los, todavia, um curto-circuito. Então, o formidável deu o ar da sua graça: o cheiro de queimado cresceu-lhes o êxtase no instante em que cada qual não pronunciava em vão o nome daquela poderosa deusa do funk.

Contudo, as faíscas do chuveiro não foram um detalhe qualquer, já que a conexão cósmica começou a se tornar real na madrugada, pois, pelejando pra escalar a Seleção do Tite pra Copa do Catar, os números da sorte foram repassados pela mesma deusa do funk.

E essa boca carnuda sussurrou-lhes José, nome comum a ambos, porque de fato os dois tinham esse nome, José.

Ao serem despertados pela deusa do funk, cada José tratou de não esquecer os números que dariam fim ao desastre de viver sem maiores alegrias. E o melhor meio de continuar lembrando as seis dezenas era anotando-as num volante. Logo correndo, com o azul que não era mais o simples azul, a Sena foi marcada.

Os dois Josés sabiam que a sonhada vida feliz não haveria de ser construída solitariamente.

O primeiro José devia arrumar casamento ou gastaria a dinheirama toda numa só noitada de Keep Cooler com a sublime Suelen Cristine, aquela rainha sórdida nascida Marciana Maria.

Embora José estivesse contente por continuar empregado, ou seja, embora reconhecesse o coração do patrão que poderia tê-lo despedido porque o restaurante ficara fechado durante a primeira onda do corona, não mais se vendo obrigado a ficar somente contente, o segundo José queria ser mais útil à sociedade inteira.

Desconfiados, já que alguma coisa muito boa estava pra acontecer, os dois Josés comeram pastel, beberam guaraná, ouviram as notícias, tiraram uma casquinha de quem ainda não tinha tomado vacina e, com o temporal armado, sumiram que nem saci.

Uma vez que a esperança estivesse lançada, José e José, cada um no seu lar, entraram, beberam, fumaram, quedaram desdenhar do céu carrancudo, pois a deusa do funk, ela própria, era a mãezona de todas as Megas Premiadas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Pacote completo

 

Pacote completo

 

Na semana depois do Natal, não tendo sido atendido o pedido bem simples ꟷ só quero relaxar um pouco esta pessoa presa à consciência que gosta de tumultuar para seguir parada ꟷ, resolvi que me mexeria.

Embora quisesse um dedinho de paciência para comer sem pressa mais um pedaço de panetone, engoli depois de umas três mastigadas, consegui enfiar na cabeça que nem valeria tanto assim exigir respeito à lista de realizações inadiáveis.

Como não me preocupo com o funcionamento do fígado, virei beber copos e copos de leite enriquecido com cálcio, que isso era bom pros ossos, mas a quantidade exagerada atacou a vesícula.

Que vesícula? A minha foi retirada.

Pois é, vai entender como o organismo humano trabalha...

Ajo e falho, gero frustrações; vitorioso, crescem as expectativas de que eu possa virar especialista em conquistas avassaladoras.

Avassaladora foi a minha impotência diante do poder, pois o Papai Noel bem que poderia ter alguma simpatia por mim e ter valorizado a predisposição a errar cálculos banais, até pra não ultrapassar os limites recomendáveis ao trabalho normal das entranhas.

Sempre achei que poderia viver acreditando que um mundo melhor depende de nossa barriga digerir numa boa o que tem pra digerir, sem abrir o bico e pedir clemência à flora intestinal.

Peraí!

Uma ova que vou ficar chorando as pitangas.

Com um mercado pela frente, fui convicto, realmente esperançoso, pois ninguém agiria em nome deste cidadão.

Tenho direito a voto e exerço-o com alegria.

E declaro de peito aberto, voz mansa e sorriso sem nada de santo: estou certo de que depois do relâmpago vem o estrondo.

Radiante de lúcido, fui às compras com cinquenta reais.

Cinquenta?

Cinquenta, pois, ao vê-la tão curtinha na carteira, deu um dó sentido da gaita, então, peguei a nota que gerasse o maior número de notas.

Se dinheiro anda valendo o volume que faz, queria estufado o bolso.

Acredite, fiz o certo. Levando a carteira, as merrecas me deixariam incomodado. Atrás de algum compartimento secreto, iria fuçar ansioso.

De ansioso pra furioso, adeus bonde da felicidade.

E pior! Meu último amor me sorriria da foto que o zíper da bolsinha de moedas faz bem em resguardar do meu rancor.

Não quero viver outra vez o que passei.

Aliás, fiquei sozinho, em paz, nem fui à missa do galo. E, sem gente reclamando, fiz coro à Nara Leão, porque nasci feliz, nasci para bailar, e bailei até cair bêbado no sofá.

Finalmente, acordei! E acordei querendo sequilho.

No caixa, a mocinha sugeriu que trocasse aquele pacote que estava uma farofinha que dava nojo.

Não só não troquei, como juntei outro pacote. Porque não sou burro, não seria uma farofa que iria me impedir de constrangê-la a me sugerir a esperada troca, e ela cobrou sem dizer um A.

Comi tudo de uma vez. Tive azia, diarreia e vomitei.

Putz! Que olho gordo do caramba.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de janeiro de 2022.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

O presente

 

O presente

 

Primeiro dia do ano, é bom pôr as coisas nos seus devidos lugares, daí que dá essa comichão de exagerar os defeitos dos outros e tirar o peso dos erros cometidos no ano recém-passado. Porém, para não se prender ao já vivido, ou se pega leve com a ressaca ainda parada na boca do estômago ou uma dor de cabeça hiperbólica topa transformar os abusos da virada nuns cataclismos irrefreáveis.

Decididamente, é por excesso de motivo aparente que capotar de bêbado na beira-mar torna fácil explicar o porquê de escarrar espuma. A dificuldade, no entanto, está em se livrar das sete ondinhas sem ficar enjoado com a maré subindo boca afora, como se a indiscrição pedisse estes arrotos carnavalescos.

Melhor imaginar alguma coisa menos cômica e nojenta.

Sabe aquela pessoa amiga, legal, que curte um papo descontraído, que está fazendo aniversário justamente nesta data querida?

Escolha ir visitá-la, peça para abraçá-la, tente trocar beijinhos. Faça isso e talvez você aguente o perfume azedando a cena tão singela.

Vá, mas não vá porque sente que tem que ir. Não queira ir só para agradar ou não fazer feio. Não aja por obrigação. Pois marcar presença é atitude burocrática, e não comece a agir de maneira passiva.

Pondo de lado as burrices que sempre pedem para ser perpetradas de novo, lembre-se de que janeiro é ótimo para encarar o futuro.

Vamos, não volte a empurrar com a barriga a sujeira para debaixo do tapete. Não se iluda, a montanha majestosa proeminente no meio da sala é fruto do seu ego. Com a vassoura e a pá formando um conjunto harmoniosamente fotogênico, o jogo é inútil.

Livre-se da balela de acreditar-se mudado, empenhe-se em mudar. Anime-se, não deixe pra depois: varra e faxine. Pois varal de camisetas pingando prova que roupa suja se lava com água e sabão.

Não duvide, abrir janela não impedirá a mente de ficar babando com pudim. Suar de um lado pro outro não diminui um tiquinho a queimação do estômago. Aceite logo, não há frase feita que abale um alicerce.

Você acha que rabiscar parede não quebra ponta de lápis?

Tem quem viva ambicionando outro amanhã. E tanto fala nisso que a gente nem pensa duas vezes ao lhe emprestar a credulidade. Porém, quando não tem ninguém olhando, a saliva ajuda na hora de contar a bufunfa ganha com a nossa sensibilidade perdulária.

Ligue os pontos.

Por amor à amizade, vá.

Ainda que servido gelado, experimente o vinho tinto.

Ganhe fôlego. Pense no livro maravilhoso que precisa indicar, pois seus versos incríveis saem diretamente da memória.

Ouça com carinho. Queira assistir àquele filme que nem tinha posto na sua lista de desejos.

Sinceramente, só promessas honradas merecem ser assumidas.

Por isso, e consequentemente, a mão espalmada do aniversariante adora sentir reais as cem pratas da aposta.

Afinal, suas doze latinhas de breja sempre vêm pra festa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de janeiro de 2022.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Isso e aquilo

 

Isso e aquilo

 

Isso aconteceu já faz algum tempo, mas todo mundo estava numa vadiação que ninguém punha importância nem no que ia fazendo.

Serelepes de tanta infância, quem se entregava por inteiro em ficar correndo entre as mesas eram aquelas duas crianças.

Garrafas e copos poderiam ir ao chão a qualquer instante, uma vez que as travessas resolveram acelerar. Gritando mais e mais alto, umas espevitadas, as meninas iam batendo as mãozinhas em tudo.

Contrariadas, duas bêbadas saíram do bar. Cadeiras e mesas nada tinham de santificadas, só que ninguém bulia com as buliçosas com o diabo no corpo.

No começo da fuzarca, e num nível de embriaguez mais baixo, elas tinham achado graça, entretanto o barulho foi ficando intolerável.

Seria muito ficarem de boca seca, então, pediram copo descartável. E cada uma pegou duas latinhas de cerveja e um conhaque, cuja dose acabou antes de pisarem a calçada.

A de maior irritação virou-se, queria mais, queria outra dose, só que, agora, seu conhaque deveria ter mel e limão. Teve êxito com a bebida, mas, em vão, chamou para briga a mãe daquelas barulhentas.

Mesmo crendo santificado o seu sangue na carne das filhas, a moça não desceria dos tamancos. Com bêbada, com essa bêbada oscilando nos chinelos, menos ainda que o faria. Ela permaneceu como estava, toda entretida com seu celular.

A mulher insistiu, ficaria insistindo, ainda bem que a ventania pegou de tal jeito que ajudou a botar a bocuda no olho da rua.

De lá, de fora, não só as borrascas do olhar crismavam impropérios contra quem não a atendia. A boca batizava a grana: ela era sua e, por sê-la sua, exigia o privilégio de que valesse mais do que a desfeita de pô-la esperando. Queria a prioridade de beber pelo quanto pagava.

A dona do bar, simples assim, cuidava ouvir o que o rapaz queria.

Em meio àquela gritaria destemperada, ele foi direto ao balcão pedir água. Se possível, se não fosse pedir muito, podia ser água de torneira, que seria bom do mesmo modo. Tinha sede, e não queria incomodar.

Correspondendo à elegância do sereno pedido, antes de lhe passar o copo d’água, a senhora quis saber se aceitava que fosse gelada.

Pelo calor que estava fazendo, quanta amabilidade.

Sem vê-lo bebendo um gole, as meninas não pararam um segundo.

Digitando no telefone, a mãe das crianças nem reparou no segundo gole bebido em pé.

Talvez estivesse agradecendo, porém aquilo, a maneira como dizia aquelas palavras pouco empregadas no dia a dia, fez a senhora tomar da mesma água oferecida ao moço.

A ele não interessava somente agradecer, queria muito deixar claro o quanto estava tocado. Porque o interessante não estava no gesto da mulher, o importante foi entregar o copo d’água sem ficar perguntando, bisbilhotando, querendo sondar o que a ela não lhe dizia respeito.

Sem ficar especulando, a ela importava atender o que pediam.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Retrato falado

 

Retrato falado

 

A fim de se preservar impressionante, dono de vozeirão intimidador, já que era muito homem pra falar grosso, ele falava pouco.

Não era exibido pra esgoelar denunciando ter tomado gol contra em plena peleja. Não preferia tal discrição, via-se obrigado a viver naquele mundo estreito. Nem que a partida começasse na chuva, com o campo que só lama, nem que estivesse atrasado, mal tendo o jogo começado, era bom no cumprimento de tabela.

Nunca adiassem nenhum jogo, uma vez que estava treinado a não escancarar o vexame. Sabia como garantir um honesto WO.

Sem pinta de competidor debelado, disfarçado perdedor contumaz, não chegava solando sem piedade. Não precisava nem tirar o pé, pois dificilmente entrava em dividida com quem lhe apontava a marca maior dos derrotados: o emparedamento pelas quatro linhas.

Com horror aos pigarros de comandante de trovoadas, que a quarta parede jamais desabasse na testa como vaia, ou o barco erraria longe do cais da sua tão almejada boa fortuna, dando rumo certo à sorte.

E tinha voz firme, forte, grossa, com filigranas de grosseria pontuais, pois ao jogo de cena fosse admitida a plateia hipnotizada, vidrada, sem condições de notar a cortina de fumaça como efeito do gelo seco.

Truque, ou artimanha, que ficasse invisível a falta de encantamento. Seguisse a vida como se viver dispensasse a graça dos afetos. Agisse com o gesto preciso à palavra bem-posta. Que fosse absurdo o desejo de ver-se como pessoa trancafiada numa voz de impostor, tonitruante.

Véu ajustado do rosto, a voz era a chave para não oferecer a face oculta. Pois só um raríssimo pio (nada, nada ocasional) tinha o condão pra denunciá-lo em maus lençóis, como fantasma despido do medo e da ameaça de dar medo.

Falando grosso, falando pouco, falava ao ponto.

Temia as tramoias do improviso.

Em pânico, pensando-se uma chuva passageira, um chuvisco leve, garoa que derrubaria pandorgas, mas não derrubaria urubus nem faria aviões serem desviados das rotas.

Como tinha que sustentar com a voz essa nuvem aterradora, de um chumbo enfurecido por raios mil, os seus olhos não sorriam.

A cara, reparando bem, não tinha como defendê-lo do quanto tinha recolhido do sereno das esferas escoado para o fundo dos vales. Sério, podia imaginar como não se revelar tão humano quanto alpinistas mais preparados. Rindo, vivia a um passo de ver aflorados seus solecismos de solipso embromador.

Embora seus vulcões fossem gordurosos, marcantes, cicatrizados, mapeava-os minúsculos, muito pequenos, que suas rugas não fossem bastantes nem suficientes, fossem tão ínfimas, as menores possíveis, dos tamanhos que permitissem o engenho da malícia engendrar a voz da montanha sobre a planície.

Aparecida, Auxiliadora e Socorro, as suas três estrelinhas, todavia, estatelavam-no um tartamudo todo afônico.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de dezembro de 2021.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Tolices

 

Tolices

 

“Vivemos dias em que é preciso escrever tolices”, agrada-me fazer pilhagem destas palavras de Antônio Maria, sobreviventes a 1964.

Se fosse escrever um livro, se tivesse a audácia de propor uma obra repleta de parvoíces, jogaria as aspas do Maria logo na abertura, como aperitivo leve, sem dar coral às oxidadas âncoras bem-pensantes, pois me serviriam de epígrafe às tantas Tolices do bom amigo.

Menos, não se exalte, menos.

Pois, então, o sabiá da crônica sabia que, naquele inferno redentor, no coração de cada brasileiro havia uma dor intensa, demasiadamente sufocante, que tangia os livres aos matadouros quase clandestinos, tal qual a presente apocalíptica bem-aventurança de proclamar aos céus augustos, com cara de pau diabolicamente angelical, que seja negada, quiçá apenas adiada, aos braços das crianças a salvação pela vacina.

Sem tirar nem pôr: então e agora, estupidez é o que nos une.

Estúpido, não um tolo, é que concordo em arrumar algumas tralhas destrambelhadas que trago corroendo dentro de mim, como suco ácido inventando de danificar tudo por onde passa. Ou, ao menos, me ajude a converter amor, calma e prazer num alvo menos abstrato; a gosma ganhe corpo; pra que o bem encarnado possa ser benzido por um belo beijo, e que esse beijo tenha tudo de misericordioso.

Piedoso, não um estúpido.

Nem preciso falar que este bicho benigno, que agora está fervendo, arranhando, carcomendo, apodrecendo, empesteando e corrompendo a mim que vivo à solta no mundo, tão à toa, só que, subitamente atento às tolices que digo, acho redundante falar que esta força sobrenatural me mesmeriza, porque o monstro que me encara com meus olhos tem o olhar de gente pura que diz o quanto estou curado, é um milagre!

Por ingenuidade, não por crueldade: é melhor virar a página.

Desejoso de saltar o abismo para cair feliz da vida no colo de 2023, tenho vertigem de precisar de algo bem forte.

Não quero café, suco de acerola ou chazinho morno de hortelã.

Se quero mel, não quero vinho. Pois não quero apanhar de vara de marmelo. Que nunca gostei de ser surrado com vara de marmelo nem com rabo de tatu. Nunca gostei.

Só não sei se no Marmeleiro, no mosteiro dos carmelitas descalços, não sei se terei o mel de marmelo que quererei.

Lá posso orar por camelos travessos na travessia do deserto que já descortino novo no próximo ano.

Se os frades confrades só bebem licor de marmelo que não beberei, a eles não perguntarei o nome do camerlengo que eles não têm.

Ademais, sem vigiar transeunte cansado, vou orar por quem pira na batatinha e, por tanto adorar um purê, recua de pronto, que o apavora o pomodoro do molho cobrado em dobro.

Com os olhos tentados a me tapear sem dó, por pura perdição, esse molenga frívolo, que não passa de outro tolo sentimental, esse coitado estraga a barriga: empanturro-me com miojo frito no bacon.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de dezembro de 2021.

domingo, 26 de dezembro de 2021

Céu a gosto

 

Céu a gosto

 

Imagine você que uma das minhas alegrias das festas de dezembro está perdida, a reunião à mesa. Já bem antes de a pandemia acentuar as tristezas, tinha me decidido a não tomar parte de ceias de Natal nem fazer a contagem regressiva pro Ano Bom. Porém, entenda-me, não é porque fuja das comilanças esfuziantes que também tenha me tornado avesso aos balanços reflexivos.

Faço-os com discrição, pois os meus rancores costumam provocar arroubos delirantes, como se as implosões da mente gerassem apenas sussurros da imaginação, mas, passado, chego a gritar.

De lápis à mão, luto comigo; e ferido, titubeio.

Com tantas mágoas dolorosas, que às vezes as percebo latejantes sem que palavras possam traduzi-las de modo inteiramente inteligível, luto por querê-las registradas por escrito. Luto e fracasso.

Embora sofra o tanto que tento evitar, procuro não capitular e dobro a aposta. Combato a tentação de dispersar-me, uma vez que, distraído pelos demônios do colapso, acabaria anotando as lembranças ligeiras, não as recordações relevantes, perturbadoras, que agem em silêncio.

Não que o azar da vida seja desprezível ou nem mereça crédito, só que vivo em trânsito, indo e vindo, entre o afável e a rispidez, o cômico e o dramático, o atrevimento e a prudência.

Cobro-me, assim, a lucidez de reconhecer que a vida até pode estar restrita ao sofrimento, mas, se vivesse em dor contínua, enlouqueceria ou, esgotado, morreria.

Fiel a mim, o quanto possível, acredito que estou consciente de que costumo me enganar achando que busco equilíbrio à vida, estabilidade ao caminhar, amortecimento ao impacto do pé chapinhando onda.

Pensando bem, a página do meu diário permanece em branco. Ora, se estou no comando, por que nada sobe à flor branca da folha?

Por amor ao texto, não aceito que o fortuito agite as águas, turve o límpido e a crônica suba à linha d’água como tábua de salvação.

Embora não tenha escrito a respeito na época nem tenha fotografia que me confirmem que estive realmente lá em 1981, não mais que de repente, brota o mar como o vi pela primeira vez. Recordo que garoava, subia uma neblina do mar. E tinha aquele taxista falando do crime que houve ali, houvera logo ali, com o corpo no Chapéu dos Pescadores.

Não há mar, há palavras.

E elas me escapolem, contradizem a vontade de comer uma pera: pegá-la da fruteira; escolhê-la por sua aparência e sua carne apetitosa; depois de lavada devagar, mordê-la sem afobação; mordê-la.

Ainda que o bom senso ache o amor uma coisa de louco, feito bobo, aprimora-me o riso, cultiva-me a lucidez, cativa-me o humor; apuro-me com o jogo.

Sem saber como a felicidade faz pra sumir com uma dor de cabeça chata, acontece: UM GOSTO DE SOL ganha minha atenção; com CÉU colada nos ouvidos, esqueço o baixo astral, e consigo dançar, assobiar e respirar, tudo isso ao mesmo tempo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de dezembro de 2021.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

O sol de cada um

 

O sol de cada um

 

A vida não facilita, e retribuo na mesma moeda. Não tergiverso, pois admito que não sou fã de gente que espera viver num mar de rosas de facilidades benévolas. Tenho o gosto de complicar; e tanto não facilito que me alegra dificultar o que a simplicidade considera prático.

Sei, não, acho muito conveniente tratar o mundo como se ele fosse uma caravana que empaca de repente.

Lamento dizer, mas o comboio do circo para na estrada mesmo sem acostamento ou porque tem pneu furado pela topada no buraco ou ficar bebendo um copo atrás do outro foi acumulando água nos joelhos.

Donde se conclui que motorista pisa no freio quando não tem como impedir o funcionamento dos rins encharcados de birita.

Aliviar a bexiga, aliás, não altera em nada essa maravilha dionisíaca que é encher o rabo de goró. Desce mais, nem penso, e desço cervas, vinho e cachaça. Tomo porque gosto, mas exagero. Machuca, dói, e já não chega, e já não paro.

Na praça, sem imitar um bêbado que quer trocar pneu com a banda passando, não lamento que o pernilongo tenha decidido que não tinha como ignorar a falta de sangue no organismo hematófago.

Não sei de onde vem o vampiro: seja morcego que ataca vaca, boi ou bezerro; seja carrapato que chupa canelas moças ou senhorinhas; seja o chupão na minha nuca.

Decidi deixar o bicho em paz. Que me esquecesse, buscasse outra disposição. Sem febre, mas deitado no escuro, com a mente obcecada em fixá-lo, entraria em transe com o mantra:

ꟷ Vá, pernilongo, vá ser feliz na parede.

A minha mente anda fraca, sem gerar magnetismos psíquicos, pois o dito sugador de sangue não foi dormir em parede alguma nem entrou pros hematófagos anônimos.

Posto que não nasci pra facilitar a vida de ninguém, sequer a minha, nasci pra pensar que tenho multiplicados os pensamentos porque não sei dominar as forças do pensamento, e elas brincam comigo de modo implacável, insondável, já irrespirável.

Como uma Jolly Roger tremulando pilhada ao sol do Caribe, e pirata de tapa-olho, perna de pau e um papagaio chamado Errol Flynn, salto do lado obscuro da mente pra Rua das Flores bem na horinha em que o verão começa.

Não tenho como explicar, mas a minha cachola me põe em Curitiba ao mesmo tempo que estou em Ibiúna, chupando sorvete. Sim, sim, lá como cá, chupo um delicioso sorvete de brigadeiro com a cobertura de caramelo.

Opa!

Desconfio: há razão pra tudo, até pra isso.

Se é para complicar a bagaça, então, complico-a todinha.

E este todo inclui o Vampiro caminhando em paz. Sem boné, óculos escuros ou uma pasta 007. Uma da tarde, e Dalton Trevisan passa que nem aí pro Dalton Trevisan que muita gente projeta que ele seja.

Opa! Opa!

E tudo se encaixa. Encaixando, a crônica não entra pelo cano. Com isso, pra ir indo pra cucuia, a vida segue não fazendo sentido. E porque não faz ideia do absurdo, a graça de viver aí está, derretendo-se.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de dezembro de 2021.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Carta singela

 

Carta singela

 

Agradeço-lhe, bom velhinho, ter aberto mágoas profundas entre as carnes do meu corpo. Que esta alma antiga andava suspirando tédios, caminhava idiota no fio do abismo, incapaz de identificar esforços a me disciplinar ao luxo de poder caminhar por alamedas floridas, sobrevoar enseadas paradisíacas, cantarolar a melodia afortunada de quem sabe ignorar as minhas ofensas doídas, que a elas nem eu as louvava. Pois, meus nervos precisavam dos estímulos de rancor, inveja, desamor.

Por depositar a minha esperança, como fé no juízo dos homens que ainda têm dentes pra mastigar: de boca aberta pra escancarar o prazer de encarar uma feijoada sem pé de frango ou de boca fechada pra não escandalizar a odaliscas despidas de pé de galinha.

Não que o senhor, bom velhinho, esteja a fim de escutar os pedidos, pedidos não, que tenho um, apenas um: que neve nos polos no inverno ou até que os ursos se sintam à vontade pra destroçar bonecos de gelo e os pinguins vibrem ao petecar bolas de neve.

Bem vejo que comecei mal, porque o senhor, bom velhinho do gorro vermelho, talvez enfeze logo de cara, fique aperreado comigo que nem ando fazendo coisas simples e prazenteiras, mas, tenho consciência, não quero encher o saco com querelas ressentidas.

Posso dizer, de coração, que peço justiça a quem obra por um real a mais depois do quinto dia útil, e, tocado por uma sadia benevolência, que haja sol aos sábados e nos feriados.

Ficarei grato com o senhor, bom velhinho da pança avantajada por colarinho de chope bem tirado, leia esta carta como quem não esbanja os poderes mágicos com problemas insolúveis, pois a vida tem jeito, e o senhor, solidário do grande saco, o senhor tem como dar um jeito.

Permita-me insistir, reiterar, querer que o senhor tome partido, meu partido, o lado de quem pega no seu pé porque a coisa tá feia.

Coisa que pego fácil é doença. Tem gente que pede pra pegar leve e não pisar no calo de quem viaja num trem lotado. Tem quem me peça pra pegar o bonde andando, isso não faço, porque não corro pra sentar na janelinha. Outro pede pra pegar pé de vento, porém ando descalço de habilidade tão singular, de modo que não assobio para engarrafar o que não quero pegar. Vem pessoa malandra que chega a mim como quem usa o sorrisinho feito rede para deitar e rolar, pedindo que pegue o touro à unha, mas tenho a carne fraca, e não sei fingir a covardia que demonstro ter, se não tramo que nos ossos tem bicharada dançando, é porque tem, sim.

Bom senhor, velhinho de barba branca de profeta bonachão, que o senhor me perdoe a certeza que deposito na sua destreza de fazer que o ano bom aconteça nestas bandas.

Tomando posse da prece, querido chapa bem velhinho, se apresse, ponha foco na vinda, se acerte, venha ajudar a tirar o pé da jaca, venha comer o abacaxi que não paro de descascar.

Bom velhinho da escuta cordial, até breve.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de dezembro de 2021.

domingo, 19 de dezembro de 2021

Um berço esplêndido

 

Um berço esplêndido

 

ꟷ Falaí, tudo tranquilo?

Tudo está tranquilo, e há de estar porque tem o que fazer.

Sentado de costas pra sala, ele enche uma bexiga. Está tentando.

Como tem a cadeira voltada para fora, pode ficar incomodado. Pois não é difícil se desconcentrar, pois aquela janela imensa parece uma tela de TV, mostrando nuvens.

Com tantas nuvens no céu, com tantas formas parecendo com tanta coisa conhecida, parava de encher o balão quando tinha facilidade pra enxergar uma tartaruga, uma arara ou um barquinho.

E o barquinho boiando tem essa insolência de ficar mais tempo que a vassoura, o chapéu, uma tartaruga. O barquinho dura, e vai durando, e essa permanência o alvoroça. O barquinho não passa, dissimula que passa devagar; tal descompasso entre a mudança e o que não parece se transformar, é isso que tanto o fascina, bestificando-o.

Quieto, mas sem babar, o seu rosto congelado naquela transmissão diz que janela não trava, não enguiça e não tem a luz cortada.

Sabe empenhar-se. Nem que fosse pedido a ele que falasse o que estava pensando, que comentasse sobre o que estava vendo, ignorava e ia ignorando.

Sem irritação, mas coçando o lóbulo da orelha que andava coçando tão logo se enxugou. Coçando-se depois de enxugado, tem mesmo do que reclamar, e dispensa fazê-lo.

A toalha tinha sido usada, ninguém achou necessário trocá-la. Que toalha, ainda mais quando é jogo de toalhas de banheiro, tem sempre que ser trocada depois que uma pessoa se lava.

E isso é inegociável, porque o desconforto vem da sujeira que fica impregnada no tecido. Que sensação desagradável: estar espalhando o que a água não conseguiu livrar do corpo. É coisa de gente porca.

Um outro homem com crachá vem avisá-lo de que as toalhas estão trocadas. Ele não se dirige ao enfermeiro que o incomodou. Não tem o que compartilhar com gente que se julga a tal só porque tem a cara no jaleco branco, alvíssimo, no guarda-pó novíssimo.

A causa de seu nojo, seguramente, é pela sua fala baixinha, mansa, de gente preparada, que se porta como quem tem permissão pra dizer o que não pode fazer, pra falar o que deixa fazer e insiste que conte o que mais gostaria de fazer. Fala, e só isso.

Toma um banho, o terceiro em três horas. Pra não beber as águas do chuveiro, segura a boca. Já quer almoçar. Lambe a espuma e urina. Sem querer, bate o cotovelo no box.

Volta pra mesma sala. Senta-se na mesma cadeira voltada pra fora. Quer encher aquela bexiga, o mesmo balão amarelo que há pouco quis enchido. No entanto, o céu está limpo de nuvens, tem um azul uniforme pegando o horizonte inteiro.

Dá, sim, para creditar aos remédios a calma em ficar segurando um balão vazio enquanto fica olhando o passarinho pousado na mureta do terraço. Dá pra ver que o joão-de-barro acorda o coração talhado pelas palpitações da eternidade.

Não vai perguntar quanto falta pro almoço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de dezembro de 2021.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

A essência do mundo

 

A essência do mundo

 

Mordendo e assoprando, cheguei a pensar que conseguiria domar o vento quente do pastel, mas meu alento foi uma bobagem doce que a física dissipou sem peteleco. A língua não o conteve e, tuft, o ar teve a decepcionante evolução esperada: perder-se do encanto.

Seria complicado considerar o desencanto como algo inexplicável, reação absurda a contradizer o equilíbrio termodinâmico das coisas do universo. Seria assim natural caso a natureza assim fosse, algo a pedir reavaliações, mas o disparate está nesta minha inclinação a perceber tudo numa fração que reduzo pormenorizadamente a algo aferível.

Pois é, tenho uma queda pro desequilíbrio. Platônico, e inútil.

O que me deixa tenso, e muito bobo, pois não me refiro tão somente às trocas entre calor e frio. Noto que uma ponta de melancolia toca o ponto nevrálgico que em mim me faz atento ao sintomático, ao anotado como irrelevante, acentuando-o, borrando seus limites. O que me deixa com um pé atrás, e cabisbaixo, que olho o mundo de soslaio. Sem ficar dando palpite sobre deus e o diabo, como quem da família, alguém que está em casa e pode muito bem tacar o pezão em cima da mesa.

Preciso parar de alimentar essa fraqueza. Nem sei explicar o desejo de tornar tangível o que o lirismo sente que pode compreender, como se à realidade coubesse adequar-se, resignar-se, acomodar-me.

Viro daqui e mexo dali, só pra dar em frustração. E quando forço a barra, o que me frustra cresce além do razoável, me pego angustiado, entristecido e apalermado, duvidando de minha sobriedade, da minha sóbria racionalidade. Entrevejo-me um outro, já uma pessoa esquisita. Por isso, nem tento arrumar desculpa; prefiro agir feito criança que fica encasquetando com o pastel de queijo que não é de carne seca.

Mordendo e assoprando, consegui. Se comi um, poderia mais um.

Para espanto desta pessoa ansiosa, aguardei a vez.

Com tanto assunto pra colocar em dia, a garçonete estava sentada à mesa ao lado. Entre as garotas da sua idade, de uns treze pra catorze anos, nem me ocorreu que ela trabalhasse ali. Tão simpática.

Uma alma esperta afetada pela curiosidade de cheirar como se seu nariz captasse a essência das coisas do mundo resvalando-lhe a pele. O seu segredo estava em puxar o livro, acariciá-lo com os dedinhos e inspirar o aroma de objeto novo cuja capa tinha uma magia toda sua, de portal pra outro universo, a ser revelado. Que descobriria se tivesse tempo ou se o instinto não a pusesse ressabiada.

Vagabundeando ou o quê?

Fui educado, respondi. Eu tinha ficado muito tempo debruçado num texto e as letrinhas do computador começaram a bailar e deram essa dor de cabeça bem chata.

E pastel curava?

Ela mesma acrescentou que o bafo quente do pastel ia ajudar a tirar as sujeiras que pegam nas lentes, e um escritor precisa de olhos limpos pra ver a realidade da vida.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de dezembro de 2021.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

O rebelde

 

O rebelde

 

Está quente. Faz calor. Tem um sol de uns quarenta graus forçando a cabeça a forrar-se de pensamentos. No entanto, decidida a esvoaçar alguns dos fios da cabeleira, a cachola topa dançar a céu aberto.

Dançar é modo de dizer, pois a pessoa não deseja provocar sustos nem quer simular-se embaraçada. Sorrindo, não arrisca, e joga.

A figurinha ridícula, sem os tremeliques dos gestos espontâneos, já ensaiadinha, um robô que não acerta o passo pelo sopro do vento, ela cai em tentação por querer-se autoridade que baila sozinha. Que o seu quadril duro se finja de malemolente, festeiro, que não passe a imagem de que lhe falta o molejo do suingue.

Em polvorosa, esta mente em foco não sente que o tempo quente, abafado, anuncia chuva logo logo, que tem o calor subindo da terra do quintal. Nem liga pro sol ardendo os quarenta graus, tem o cai-que-cai no catiço de um demônio dominante, a sua razão.

Sem chapéu e sem peruca, falta uma mangueira pra dar um banho de água morna na consciência chapada de tanto suor encruado.

Caso fosse possível relacionar o corpo com as condições do mundo ao meio-dia, seria lógico sentir na pele os efeitos das mudanças que o homem não se cansa de projetar como samba, de bamba no pé.

Destrava? Atreve-se.

O bom da tarde ensolarada está em bailar como se baila na tribo, e na sua tribo tem cacique, pajé e pajem da mais nobre natureza, que a sua cara transpira liberdade, exala o ar perfumado da expressão livre, e dá abrigo ao pensamento que não tem vergonha de ser feliz do jeito que se é, ora, ora.

Faz calor. Está quente. O sol de rachar convida a ficar do meio-dia às duas, a hora de almoço todinha, saracoteando ajuizado, e lindo.

Com tamanho preparo, não é nenhuma besta quadrada.

Então, está quente, faz calor, o sol manda ver os quarenta graus à sombra. Essa terra nua não sabe como segurar o mormaço que sobe. As maritacas espiam o diabo dessa pessoa que acha que sabe dançar quando não parece nem mangueira na pressão da água que jorra solta, em tudo parecida com serpente tomada pelo feitio de uma múmia.

A falta de água deve-se às mudanças climáticas, ao racionamento por causa das mudanças climáticas, à mangueira conectada à torneira que nem foi aberta.

O nó da questão está em atar os fios: a pessoa e a sua moringa.

Se a guerra entre homem e conhecimento de si não está declarada, fica adiada a busca pelo diálogo entre estas partes sensíveis.

O bom de conhecer as regras é poder desobedecê-las, mas o bom da desobediência está em viver desalinhado ao momento oportuno.

A resistência pede que a cabeça invente de curtir o tempo sem ficar pensando como a gente pode ser curada da falta de gingado.

Tá legal! Quede a rumba, o xaxado, o chá-chá-chá e a umbigada?

Sem essa de não suar, não melar a cueca. De não em não, nada.

Quão séria é a sutileza: herói que não bate o pé na terra, o rebelde bebe coca-cola gelada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de dezembro de 2021.