O
rebelde
Está quente. Faz calor. Tem um sol de
uns quarenta graus forçando a cabeça a forrar-se de pensamentos. No entanto, decidida
a esvoaçar alguns dos fios da cabeleira, a cachola topa dançar a céu aberto.
Dançar é modo de dizer, pois a pessoa não
deseja provocar sustos nem quer simular-se embaraçada. Sorrindo, não arrisca, e
joga.
A figurinha ridícula, sem os tremeliques
dos gestos espontâneos, já ensaiadinha, um robô que não acerta o passo pelo
sopro do vento, ela cai em tentação por querer-se autoridade que baila sozinha.
Que o seu quadril duro se finja de malemolente, festeiro, que não passe a imagem
de que lhe falta o molejo do suingue.
Em polvorosa, esta mente em foco não sente
que o tempo quente, abafado, anuncia chuva logo logo, que tem o calor subindo
da terra do quintal. Nem liga pro sol ardendo os quarenta graus, tem o cai-que-cai
no catiço de um demônio dominante, a sua razão.
Sem chapéu e sem peruca, falta uma
mangueira pra dar um banho de água morna na consciência chapada de tanto suor
encruado.
Caso fosse possível relacionar o corpo
com as condições do mundo ao meio-dia, seria lógico sentir na pele os efeitos
das mudanças que o homem não se cansa de projetar como samba, de bamba no pé.
Destrava? Atreve-se.
O bom da tarde ensolarada está em bailar
como se baila na tribo, e na sua tribo tem cacique, pajé e pajem da mais nobre natureza,
que a sua cara transpira liberdade, exala o ar perfumado da expressão livre, e
dá abrigo ao pensamento que não tem vergonha de ser feliz do jeito que se é, ora,
ora.
Faz calor. Está quente. O sol de rachar
convida a ficar do meio-dia às duas, a hora de almoço todinha, saracoteando ajuizado,
e lindo.
Com tamanho preparo, não é nenhuma besta
quadrada.
Então, está quente, faz calor, o sol manda
ver os quarenta graus à sombra. Essa terra nua não sabe como segurar o mormaço
que sobe. As maritacas espiam o diabo dessa pessoa que acha que sabe dançar
quando não parece nem mangueira na pressão da água que jorra solta, em tudo
parecida com serpente tomada pelo feitio de uma múmia.
A falta de água deve-se às mudanças
climáticas, ao racionamento por causa das mudanças climáticas, à mangueira
conectada à torneira que nem foi aberta.
O nó da questão está em atar os fios: a
pessoa e a sua moringa.
Se a guerra entre homem e conhecimento
de si não está declarada, fica adiada a busca pelo diálogo entre estas partes
sensíveis.
O bom de conhecer as regras é poder
desobedecê-las, mas o bom da desobediência está em viver desalinhado ao momento
oportuno.
A resistência pede que a cabeça invente
de curtir o tempo sem ficar pensando como a gente pode ser curada da falta de
gingado.
Tá legal! Quede a rumba, o xaxado, o chá-chá-chá
e a umbigada?
Sem essa de não suar, não melar a cueca.
De não em não, nada.
Quão séria é a sutileza: herói que não bate
o pé na terra, o rebelde bebe coca-cola gelada.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 14 de dezembro de 2021.
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