Um
berço esplêndido
ꟷ Falaí, tudo tranquilo?
Tudo está tranquilo, e há de estar
porque tem o que fazer.
Sentado de costas pra sala, ele enche
uma bexiga. Está tentando.
Como tem a cadeira voltada para fora, pode
ficar incomodado. Pois não é difícil se desconcentrar, pois aquela janela
imensa parece uma tela de TV, mostrando nuvens.
Com tantas nuvens no céu, com tantas
formas parecendo com tanta coisa conhecida, parava de encher o balão quando
tinha facilidade pra enxergar uma tartaruga, uma arara ou um barquinho.
E o barquinho boiando tem essa
insolência de ficar mais tempo que a vassoura, o chapéu, uma tartaruga. O
barquinho dura, e vai durando, e essa permanência o alvoroça. O barquinho não
passa, dissimula que passa devagar; tal descompasso entre a mudança e o que não
parece se transformar, é isso que tanto o fascina, bestificando-o.
Quieto, mas sem babar, o seu rosto
congelado naquela transmissão diz que janela não trava, não enguiça e não tem a
luz cortada.
Sabe empenhar-se. Nem que fosse pedido a
ele que falasse o que estava pensando, que comentasse sobre o que estava vendo,
ignorava e ia ignorando.
Sem irritação, mas coçando o lóbulo da
orelha que andava coçando tão logo se enxugou. Coçando-se depois de enxugado,
tem mesmo do que reclamar, e dispensa fazê-lo.
A toalha tinha sido usada, ninguém achou
necessário trocá-la. Que toalha, ainda mais quando é jogo de toalhas de
banheiro, tem sempre que ser trocada depois que uma pessoa se lava.
E isso é inegociável, porque o
desconforto vem da sujeira que fica impregnada no tecido. Que sensação
desagradável: estar espalhando o que a água não conseguiu livrar do corpo. É coisa
de gente porca.
Um outro homem com crachá vem avisá-lo
de que as toalhas estão trocadas. Ele não se dirige ao enfermeiro que o
incomodou. Não tem o que compartilhar com gente que se julga a tal só porque
tem a cara no jaleco branco, alvíssimo, no guarda-pó novíssimo.
A causa de seu nojo, seguramente, é pela
sua fala baixinha, mansa, de gente preparada, que se porta como quem tem
permissão pra dizer o que não pode fazer, pra falar o que deixa fazer e insiste
que conte o que mais gostaria de fazer. Fala, e só isso.
Toma um banho, o terceiro em três horas.
Pra não beber as águas do chuveiro, segura a boca. Já quer almoçar. Lambe a
espuma e urina. Sem querer, bate o cotovelo no box.
Volta pra mesma sala. Senta-se na mesma
cadeira voltada pra fora. Quer encher aquela bexiga, o mesmo balão amarelo que
há pouco quis enchido. No entanto, o céu está limpo de nuvens, tem um azul
uniforme pegando o horizonte inteiro.
Dá, sim, para creditar aos remédios a
calma em ficar segurando um balão vazio enquanto fica olhando o passarinho pousado
na mureta do terraço. Dá pra ver que o joão-de-barro acorda o coração talhado
pelas palpitações da eternidade.
Não vai perguntar quanto falta pro
almoço.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 19 de dezembro de 2021.
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