domingo, 19 de dezembro de 2021

Um berço esplêndido

 

Um berço esplêndido

 

ꟷ Falaí, tudo tranquilo?

Tudo está tranquilo, e há de estar porque tem o que fazer.

Sentado de costas pra sala, ele enche uma bexiga. Está tentando.

Como tem a cadeira voltada para fora, pode ficar incomodado. Pois não é difícil se desconcentrar, pois aquela janela imensa parece uma tela de TV, mostrando nuvens.

Com tantas nuvens no céu, com tantas formas parecendo com tanta coisa conhecida, parava de encher o balão quando tinha facilidade pra enxergar uma tartaruga, uma arara ou um barquinho.

E o barquinho boiando tem essa insolência de ficar mais tempo que a vassoura, o chapéu, uma tartaruga. O barquinho dura, e vai durando, e essa permanência o alvoroça. O barquinho não passa, dissimula que passa devagar; tal descompasso entre a mudança e o que não parece se transformar, é isso que tanto o fascina, bestificando-o.

Quieto, mas sem babar, o seu rosto congelado naquela transmissão diz que janela não trava, não enguiça e não tem a luz cortada.

Sabe empenhar-se. Nem que fosse pedido a ele que falasse o que estava pensando, que comentasse sobre o que estava vendo, ignorava e ia ignorando.

Sem irritação, mas coçando o lóbulo da orelha que andava coçando tão logo se enxugou. Coçando-se depois de enxugado, tem mesmo do que reclamar, e dispensa fazê-lo.

A toalha tinha sido usada, ninguém achou necessário trocá-la. Que toalha, ainda mais quando é jogo de toalhas de banheiro, tem sempre que ser trocada depois que uma pessoa se lava.

E isso é inegociável, porque o desconforto vem da sujeira que fica impregnada no tecido. Que sensação desagradável: estar espalhando o que a água não conseguiu livrar do corpo. É coisa de gente porca.

Um outro homem com crachá vem avisá-lo de que as toalhas estão trocadas. Ele não se dirige ao enfermeiro que o incomodou. Não tem o que compartilhar com gente que se julga a tal só porque tem a cara no jaleco branco, alvíssimo, no guarda-pó novíssimo.

A causa de seu nojo, seguramente, é pela sua fala baixinha, mansa, de gente preparada, que se porta como quem tem permissão pra dizer o que não pode fazer, pra falar o que deixa fazer e insiste que conte o que mais gostaria de fazer. Fala, e só isso.

Toma um banho, o terceiro em três horas. Pra não beber as águas do chuveiro, segura a boca. Já quer almoçar. Lambe a espuma e urina. Sem querer, bate o cotovelo no box.

Volta pra mesma sala. Senta-se na mesma cadeira voltada pra fora. Quer encher aquela bexiga, o mesmo balão amarelo que há pouco quis enchido. No entanto, o céu está limpo de nuvens, tem um azul uniforme pegando o horizonte inteiro.

Dá, sim, para creditar aos remédios a calma em ficar segurando um balão vazio enquanto fica olhando o passarinho pousado na mureta do terraço. Dá pra ver que o joão-de-barro acorda o coração talhado pelas palpitações da eternidade.

Não vai perguntar quanto falta pro almoço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de dezembro de 2021.

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