Mordendo
e assoprando, cheguei a pensar que conseguiria domar o vento quente do pastel,
mas meu alento foi uma bobagem doce que a física dissipou sem peteleco. A
língua não o conteve e, tuft, o ar teve a decepcionante evolução esperada:
perder-se do encanto.
Seria
complicado considerar o desencanto como algo inexplicável, reação absurda a
contradizer o equilíbrio termodinâmico das coisas do universo. Seria assim natural
caso a natureza assim fosse, algo a pedir reavaliações, mas o disparate está nesta
minha inclinação a perceber tudo numa fração que reduzo pormenorizadamente a
algo aferível.
Pois
é, tenho uma queda pro desequilíbrio. Platônico, e inútil.
O
que me deixa tenso, e muito bobo, pois não me refiro tão somente às trocas
entre calor e frio. Noto que uma ponta de melancolia toca o ponto nevrálgico
que em mim me faz atento ao sintomático, ao anotado como irrelevante,
acentuando-o, borrando seus limites. O que me deixa com um pé atrás, e
cabisbaixo, que olho o mundo de soslaio. Sem ficar dando palpite sobre deus e o
diabo, como quem da família, alguém que está em casa e pode muito bem tacar o
pezão em cima da mesa.
Preciso
parar de alimentar essa fraqueza. Nem sei explicar o desejo de tornar tangível
o que o lirismo sente que pode compreender, como se à realidade coubesse
adequar-se, resignar-se, acomodar-me.
Viro
daqui e mexo dali, só pra dar em frustração. E quando forço a barra, o que me
frustra cresce além do razoável, me pego angustiado, entristecido e apalermado,
duvidando de minha sobriedade, da minha sóbria racionalidade. Entrevejo-me um
outro, já uma pessoa esquisita. Por isso, nem tento arrumar desculpa; prefiro
agir feito criança que fica encasquetando com o pastel de queijo que não é de
carne seca.
Mordendo
e assoprando, consegui. Se comi um, poderia mais um.
Para
espanto desta pessoa ansiosa, aguardei a vez.
Com
tanto assunto pra colocar em dia, a garçonete estava sentada à mesa ao lado.
Entre as garotas da sua idade, de uns treze pra catorze anos, nem me ocorreu
que ela trabalhasse ali. Tão simpática.
Uma
alma esperta afetada pela curiosidade de cheirar como se seu nariz captasse a
essência das coisas do mundo resvalando-lhe a pele. O seu segredo estava em
puxar o livro, acariciá-lo com os dedinhos e inspirar o aroma de objeto novo
cuja capa tinha uma magia toda sua, de portal pra outro universo, a ser revelado.
Que descobriria se tivesse tempo ou se o instinto não a pusesse ressabiada.
Vagabundeando
ou o quê?
Fui
educado, respondi. Eu tinha ficado muito tempo debruçado num texto e as
letrinhas do computador começaram a bailar e deram essa dor de cabeça bem chata.
E
pastel curava?
Ela
mesma acrescentou que o bafo quente do pastel ia ajudar a tirar as sujeiras que
pegam nas lentes, e um escritor precisa de olhos limpos pra ver a realidade da vida.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 16 de dezembro de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário