quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

A essência do mundo

 

A essência do mundo

 

Mordendo e assoprando, cheguei a pensar que conseguiria domar o vento quente do pastel, mas meu alento foi uma bobagem doce que a física dissipou sem peteleco. A língua não o conteve e, tuft, o ar teve a decepcionante evolução esperada: perder-se do encanto.

Seria complicado considerar o desencanto como algo inexplicável, reação absurda a contradizer o equilíbrio termodinâmico das coisas do universo. Seria assim natural caso a natureza assim fosse, algo a pedir reavaliações, mas o disparate está nesta minha inclinação a perceber tudo numa fração que reduzo pormenorizadamente a algo aferível.

Pois é, tenho uma queda pro desequilíbrio. Platônico, e inútil.

O que me deixa tenso, e muito bobo, pois não me refiro tão somente às trocas entre calor e frio. Noto que uma ponta de melancolia toca o ponto nevrálgico que em mim me faz atento ao sintomático, ao anotado como irrelevante, acentuando-o, borrando seus limites. O que me deixa com um pé atrás, e cabisbaixo, que olho o mundo de soslaio. Sem ficar dando palpite sobre deus e o diabo, como quem da família, alguém que está em casa e pode muito bem tacar o pezão em cima da mesa.

Preciso parar de alimentar essa fraqueza. Nem sei explicar o desejo de tornar tangível o que o lirismo sente que pode compreender, como se à realidade coubesse adequar-se, resignar-se, acomodar-me.

Viro daqui e mexo dali, só pra dar em frustração. E quando forço a barra, o que me frustra cresce além do razoável, me pego angustiado, entristecido e apalermado, duvidando de minha sobriedade, da minha sóbria racionalidade. Entrevejo-me um outro, já uma pessoa esquisita. Por isso, nem tento arrumar desculpa; prefiro agir feito criança que fica encasquetando com o pastel de queijo que não é de carne seca.

Mordendo e assoprando, consegui. Se comi um, poderia mais um.

Para espanto desta pessoa ansiosa, aguardei a vez.

Com tanto assunto pra colocar em dia, a garçonete estava sentada à mesa ao lado. Entre as garotas da sua idade, de uns treze pra catorze anos, nem me ocorreu que ela trabalhasse ali. Tão simpática.

Uma alma esperta afetada pela curiosidade de cheirar como se seu nariz captasse a essência das coisas do mundo resvalando-lhe a pele. O seu segredo estava em puxar o livro, acariciá-lo com os dedinhos e inspirar o aroma de objeto novo cuja capa tinha uma magia toda sua, de portal pra outro universo, a ser revelado. Que descobriria se tivesse tempo ou se o instinto não a pusesse ressabiada.

Vagabundeando ou o quê?

Fui educado, respondi. Eu tinha ficado muito tempo debruçado num texto e as letrinhas do computador começaram a bailar e deram essa dor de cabeça bem chata.

E pastel curava?

Ela mesma acrescentou que o bafo quente do pastel ia ajudar a tirar as sujeiras que pegam nas lentes, e um escritor precisa de olhos limpos pra ver a realidade da vida.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de dezembro de 2021.

Nenhum comentário:

Postar um comentário