Carta
singela
Agradeço-lhe, bom velhinho, ter aberto
mágoas profundas entre as carnes do meu corpo. Que esta alma antiga andava
suspirando tédios, caminhava idiota no fio do abismo, incapaz de identificar
esforços a me disciplinar ao luxo de poder caminhar por alamedas floridas, sobrevoar
enseadas paradisíacas, cantarolar a melodia afortunada de quem sabe ignorar as minhas
ofensas doídas, que a elas nem eu as louvava. Pois, meus nervos precisavam dos estímulos
de rancor, inveja, desamor.
Por depositar a minha esperança, como fé
no juízo dos homens que ainda têm dentes pra mastigar: de boca aberta pra
escancarar o prazer de encarar uma feijoada sem pé de frango ou de boca fechada
pra não escandalizar a odaliscas despidas de pé de galinha.
Não que o senhor, bom velhinho, esteja a
fim de escutar os pedidos, pedidos não, que tenho um, apenas um: que neve nos
polos no inverno ou até que os ursos se sintam à vontade pra destroçar bonecos
de gelo e os pinguins vibrem ao petecar bolas de neve.
Bem vejo que comecei mal, porque o
senhor, bom velhinho do gorro vermelho, talvez enfeze logo de cara, fique
aperreado comigo que nem ando fazendo coisas simples e prazenteiras, mas, tenho
consciência, não quero encher o saco com querelas ressentidas.
Posso dizer, de coração, que peço justiça
a quem obra por um real a mais depois do quinto dia útil, e, tocado por uma sadia
benevolência, que haja sol aos sábados e nos feriados.
Ficarei grato com o senhor, bom velhinho
da pança avantajada por colarinho de chope bem tirado, leia esta carta como quem
não esbanja os poderes mágicos com problemas insolúveis, pois a vida tem jeito,
e o senhor, solidário do grande saco, o senhor tem como dar um jeito.
Permita-me insistir, reiterar, querer
que o senhor tome partido, meu partido, o lado de quem pega no seu pé porque a
coisa tá feia.
Coisa que pego fácil é doença. Tem gente
que pede pra pegar leve e não pisar no calo de quem viaja num trem lotado. Tem
quem me peça pra pegar o bonde andando, isso não faço, porque não corro pra sentar
na janelinha. Outro pede pra pegar pé de vento, porém ando descalço de
habilidade tão singular, de modo que não assobio para engarrafar o que não quero
pegar. Vem pessoa malandra que chega a mim como quem usa o sorrisinho feito
rede para deitar e rolar, pedindo que pegue o touro à unha, mas tenho a carne
fraca, e não sei fingir a covardia que demonstro ter, se não tramo que nos
ossos tem bicharada dançando, é porque tem, sim.
Bom senhor, velhinho de barba branca de
profeta bonachão, que o senhor me perdoe a certeza que deposito na sua destreza
de fazer que o ano bom aconteça nestas bandas.
Tomando posse da prece, querido chapa
bem velhinho, se apresse, ponha foco na vinda, se acerte, venha ajudar a tirar
o pé da jaca, venha comer o abacaxi que não paro de descascar.
Bom velhinho da escuta cordial, até
breve.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 21 de dezembro de 2021.
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