Quando
a manhã está destinada à glória de não mais desaparecer no esquecimento das
eras, cada ação conta para contrariar o banal de estar vivendo só mais outro
dos dias sempre rotineiros.
A
começar pelo grito vindo do terraço do prédio em frente de casa, comigo na
varanda a ultimar a ilustríssima leitura das notícias.
Achando
que era um cumprimento urbano, retribuí com um aceno, como ao bom-dia protocolar
retribuísse com igualmente, vizinho.
O
morador do lado ensolarado da rua estava ouriçado, tagarelando, e eu o consegui
compreender apenas supostamente.
Como
almoçaríamos quibe de forno, deixei-o fixando na mureta do seu apê aquela
bandeira com o inconfundível tucano azul e amarelo.
Pra
colher hortelã, foi com essa intenção que fui pros fundos.
A
gatinha veio ver o que estava ocorrendo, cheirou tudo, caçou no ar um inseto ou
outro. Satisfeita de ter feito o que tinha pra fazer, voltou dormir no sofá, o
seu cantinho predileto da casa.
Sem
saber o que mais teríamos no almoço, não tinha me esquecido de que o arroz
pedia cubos de bacon e provolone. Bastava ir comprar, e, porque responsável
pela minha parte, fui de uma vez.
Um
sujeito interpelou-me, como não traduzi aquele grunhido, fiz um positivo com o
dedão. E segui em meu caminho.
Entre
a fila de frios no fundo do mercado, cujo ar gelado não negava que estava
condicionado pela plenitude do inverno, e o fundo do prato fundo do qual
encheria sem moderação a colher de sopa com o fubá com a couve cortada
finíssima, houve esse trânsito ao qual não fugi.
Macambúzio
pelo desejo imaginário da sopa, cruzei com o mesmo sujeito, que, assim que me
viu, passou a gesticular mais enfático, mais enfurecido, provavelmente ralhando
comigo por algo que não teria feito nem na ida nem na volta.
Com
o dito cujo controlando a esquina?
A
ele não fiz nenhum sinal, sequer levantei a cabeça. Tratei de ir no meu passo,
sem transmitir o desconforto daquele incômodo.
Com
tamanha agressividade, queria que tirasse a máscara.
Nem
sob vara iria tirar do rosto a proteção, ainda mais com aqueles perdigotos
possuídos pela demência. Não ficaria exposto àquela baba contaminada pelo vírus
do que há de pior à solta. Jamais me sujeitaria àquela saliva infecta, de pessoa
que prefere vituperar contra a saúde coletiva, o bem-estar comunitário e a consciência
individual. Nem a pau que iria me permitir fraquejar, ainda mais com toda aquela
pantomima de gente autoritária desmascarada no passeio público.
Mesmo
com as lentes embaçadas, não tropiquei. Fui em paz.
E
fui logo cortando tomate, pimentão e cebola, pondo sal à vontade e algumas gotas
de azeite. Todavia, pra ir misturando-os com o patinho moído, teria de ter espremido
o alho e amassado a hortelã. Então, por meia hora, desde que tivesse ligado o
forno a 300 graus...
Lógico!
E
a gata? A sumida estaria no guarda-roupa?
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 04 de julho de 2021.