domingo, 6 de junho de 2021

Força estranha

 

Força estranha

 

O sol está disposto a aquecer até mesmo os seres que porventura nem queiram o seu radioso calor. A estrada não espera que a utilizem como escoadouro de frustrações banais, nem por isso finge não ver os caminhantes que acreditam estar indo com a certeza das suas justas necessidades. Não, não é possível reconhecer que o momento da vida que a cena registra diz a quem vive que há mortos sem sepultura.

Nesse contexto de tão fundo prosaísmo, eis um homem que briga consigo para desenlouquecer-se sem dar na vista de ninguém. Se bem que, justamente porque ocupado com o que possa estar aparentando, ele não se permite escapar como um desapontamento a outrem, e isso, por sua vez, orienta-lhe a transparecer-se como um cara tranquilo.

O que não quer dizer que essa tranquilidade de rosto e gestos faça dele um bom papo, afável, gente que bebe o seu pingado enquanto vai palpitando sobre fatos mundanos.

Além da porta, o caminho veste-se de via pública animada, com as pessoas indo em uma única direção.

Mais calado do que o normal, está consciente de que essa maneira discreta chama a atenção de quem o conhece de outras tantas manhãs ensolaradas.

Tem um desejo incontrolável de um raio de paz, mas o astro rei de sua majestosa manhã pouco tem de luminoso ou pacífico. A querer-se em paz, inquieta-se. Ao ansiar-se longe do turbilhão que o assombra, percebe pontas sem nexo, um emaranhado de histórias mal-acabadas, descontinuadas, que o angustiam por obrigá-lo a ter um pouco mais de desfaçatez, de ostentar-se uma pessoa sensata, de juízo calmo.

Ele quer manter a sobriedade dos empáticos, pois tem que seguir convivendo com quem anda participando da sua jornada.

Urbana, a rua não se lamenta do aumento do movimento.

Pudera, lá do alto, um sol tremendo nem liga diferenciar os corpitos, que bem se assemelham a animais ─ os orgânicos se embebedam de caninha, os mecânicos explodem com carbono sem açúcar.

Em outras palavras, o pai de família não bebe um dedo de cachaça porque não está livre das aporrinhações da função a que está sujeito. Desde o momento da gravidez aparecida daquela noite inigualável, é camarada responsável, sem direito a uma vida de estripulias.

Nada de inventar ter um tempinho para uma cerveja, um truco, uma olhada maliciosa para a mulher do cartaz ao lado da porta do banheiro, uma vez que a rua não para de lembrá-lo que tem de conferir se a mãe dos seus meninos já se encontra no lugar combinado.

O ronco do batalhão de motocicletas não impede o pensamento de conjuminar a boca carrancuda com onde está. Não haja desculpa, pois um bar, todo bar, é antro de perdição.

Ainda que as suas costas doam, o marido levanta o isopor, que está bem pesado.

Do lado de cá do rio, cestas despejam mortadelas, salames, lombos e caixinhas de leite, suco e chá.

Mesmo barrentas, as águas fazem que não vêm das cordilheiras.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de junho de 2021.

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