Força
estranha
O sol está disposto a aquecer até mesmo os
seres que porventura nem queiram o seu radioso calor. A estrada não espera que
a utilizem como escoadouro de frustrações banais, nem por isso finge não ver os
caminhantes que acreditam estar indo com a certeza das suas justas necessidades.
Não, não é possível reconhecer que o momento da vida que a cena registra diz a
quem vive que há mortos sem sepultura.
Nesse contexto de tão fundo prosaísmo, eis
um homem que briga consigo para desenlouquecer-se sem dar na vista de ninguém. Se
bem que, justamente porque ocupado com o que possa estar aparentando, ele não se
permite escapar como um desapontamento a outrem, e isso, por sua vez, orienta-lhe
a transparecer-se como um cara tranquilo.
O que não quer dizer que essa
tranquilidade de rosto e gestos faça dele um bom papo, afável, gente que bebe o
seu pingado enquanto vai palpitando sobre fatos mundanos.
Além da porta, o caminho veste-se de via
pública animada, com as pessoas indo em uma única direção.
Mais calado do que o normal, está
consciente de que essa maneira discreta chama a atenção de quem o conhece de
outras tantas manhãs ensolaradas.
Tem um desejo incontrolável de um raio
de paz, mas o astro rei de sua majestosa manhã pouco tem de luminoso ou pacífico.
A querer-se em paz, inquieta-se. Ao ansiar-se longe do turbilhão que o
assombra, percebe pontas sem nexo, um emaranhado de histórias mal-acabadas,
descontinuadas, que o angustiam por obrigá-lo a ter um pouco mais de desfaçatez,
de ostentar-se uma pessoa sensata, de juízo calmo.
Ele quer manter a sobriedade dos empáticos,
pois tem que seguir convivendo com quem anda participando da sua jornada.
Urbana, a rua não se lamenta do aumento
do movimento.
Pudera, lá do alto, um sol tremendo nem
liga diferenciar os corpitos, que bem se assemelham a animais ─ os orgânicos se
embebedam de caninha, os mecânicos explodem com carbono sem açúcar.
Em outras palavras, o pai de família não
bebe um dedo de cachaça porque não está livre das aporrinhações da função a que
está sujeito. Desde o momento da gravidez aparecida daquela noite inigualável,
é camarada responsável, sem direito a uma vida de estripulias.
Nada de inventar ter um tempinho para
uma cerveja, um truco, uma olhada maliciosa para a mulher do cartaz ao lado da
porta do banheiro, uma vez que a rua não para de lembrá-lo que tem de conferir se
a mãe dos seus meninos já se encontra no lugar combinado.
O ronco do batalhão de motocicletas não impede
o pensamento de conjuminar a boca carrancuda com onde está. Não haja desculpa, pois
um bar, todo bar, é antro de perdição.
Ainda que as suas costas doam, o marido levanta
o isopor, que está bem pesado.
Do lado de cá do rio, cestas despejam
mortadelas, salames, lombos e caixinhas de leite, suco e chá.
Mesmo barrentas, as águas fazem que não
vêm das cordilheiras.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de junho de 2021.
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