domingo, 20 de junho de 2021

Contraponto

 

Contraponto

 

Uma das bonitezas da vida, dizia o meu avô, está em tirar relação proveitosa com o mundo.

Não tem graça ficar horas à beira d’água sem levar para casa uma fieira boa de tilápias, lambaris e carás.

O meu avô sabia disso. E tinha estratégias.

Uma semana antes da pescaria, todos os dias, por sete noites, lá ia ele jogar quireras e a lavagem das refeições do dia. Agindo assim, dava o sinal de que aquela área cheia de comida era lugar bom para comer sem gastar energia sondando a água ao acaso. Agia pelos peixes.

Passando essa mensagem de modo recorrente, os peixes ficavam menos ariscos e aceitavam que encontraram um recanto maravilhoso, e vinham comer. Os peixes aos poucos acabavam por acreditar que a comida estava garantida. Os peixes, assim, acabavam convencidos de que podiam negar a desconfiança de que a comida garantida tinha uma origem esquisita. Convencidos de que a comida oferecida de modo tão milagroso merecia ser devorada, os peixes aceitavam a maravilha de ter encontrado o melhor lugar para passar o dia. Comendo sem pressa, nadando sem medo, dormindo ali apenas para garantir a conquista.

Então, o avô chegava de manhãzinha, bem na hora que os peixes, cativados pela oferta boa de comida, estavam refestelando-se, e lerdos pela opulência de tantas joias, magnetizados pelo tanto de alimento.

Ele vinha, aprumava o seu banquinho, ajeitava uma meia dúzia de varas, arrumava as latas com as iscas, bebia um gole de café, e, então, pedia graças com o chapéu e passava a pôr minhoca nos anzóis.

Já cevados para a morte, os peixes vinham que vinham para morder aquela comida viva, que se debatia bem diante dos olhos gulosos.

Devidamente orientados pela ilusão de não deixar nada sobrando na água, tais peixes amestrados morriam pelo insaciável na boca.

Todavia, o meu avô sabia que isso do predador gabar-se ao ter nos dentes a presa pode muito bem malbaratá-lo.

No porão da casa deste meu mestre contumaz apareciam troféus de quando em quando. Surpreendentes e desconcertantes, aliás.

O seu método consistia em me levar a crer que o rabo de tatu atrás da porta nada tinha que ver com o ensopado por ele preparado, e não pela minha avó, que sempre apurava as rações cotidianas.

Ledo engano de minha parte, porque, diante da jaguatirica à mostra na lavanderia, interditada pela presença da fera indomável, li a cena como demonstração da astúcia do homem sobre a besta.

Franco e rude pela franqueza, vovô mostrou as canelas arranhadas e disse que perdera horas, de sol a sol, que aquele animal fugia da luz e zanzava, cruzando rios, tramando um rastro sobre outro.

Numa lógica só dele, talvez pela lua cheia que raiou no céu da sexta noite, outra sexta-feira qualquer, o bicho ficou à mercê, e até fingiu que queria fora de cima do corpo pintado a rede atirada.

Não me contive:

ꟷ Jaguatirica de seis vidas?

O vô grunhiu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de junho de 2021.

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