Contraponto
Uma das bonitezas da vida, dizia o meu
avô, está em tirar relação proveitosa com o mundo.
Não tem graça ficar horas à beira d’água
sem levar para casa uma fieira boa de tilápias, lambaris e carás.
O meu avô sabia disso. E tinha estratégias.
Uma semana antes da pescaria, todos os
dias, por sete noites, lá ia ele jogar quireras e a lavagem das refeições do
dia. Agindo assim, dava o sinal de que aquela área cheia de comida era lugar
bom para comer sem gastar energia sondando a água ao acaso. Agia pelos peixes.
Passando essa mensagem de modo
recorrente, os peixes ficavam menos ariscos e aceitavam que encontraram um
recanto maravilhoso, e vinham comer. Os peixes aos poucos acabavam por acreditar
que a comida estava garantida. Os peixes, assim, acabavam convencidos de que
podiam negar a desconfiança de que a comida garantida tinha uma origem
esquisita. Convencidos de que a comida oferecida de modo tão milagroso merecia
ser devorada, os peixes aceitavam a maravilha de ter encontrado o melhor lugar
para passar o dia. Comendo sem pressa, nadando sem medo, dormindo ali apenas
para garantir a conquista.
Então, o avô chegava de manhãzinha, bem
na hora que os peixes, cativados pela oferta boa de comida, estavam refestelando-se,
e lerdos pela opulência de tantas joias, magnetizados pelo tanto de alimento.
Ele vinha, aprumava o seu banquinho,
ajeitava uma meia dúzia de varas, arrumava as latas com as iscas, bebia um gole
de café, e, então, pedia graças com o chapéu e passava a pôr minhoca nos anzóis.
Já cevados para a morte, os peixes
vinham que vinham para morder aquela comida viva, que se debatia bem diante dos
olhos gulosos.
Devidamente orientados pela ilusão de
não deixar nada sobrando na água, tais peixes amestrados morriam pelo
insaciável na boca.
Todavia, o meu avô sabia que isso do
predador gabar-se ao ter nos dentes a presa pode muito bem malbaratá-lo.
No porão da casa deste meu mestre
contumaz apareciam troféus de quando em quando. Surpreendentes e desconcertantes,
aliás.
O seu método consistia em me levar a
crer que o rabo de tatu atrás da porta nada tinha que ver com o ensopado por
ele preparado, e não pela minha avó, que sempre apurava as rações cotidianas.
Ledo engano de minha parte, porque, diante
da jaguatirica à mostra na lavanderia, interditada pela presença da fera
indomável, li a cena como demonstração da astúcia do homem sobre a besta.
Franco e rude pela franqueza, vovô
mostrou as canelas arranhadas e disse que perdera horas, de sol a sol, que aquele
animal fugia da luz e zanzava, cruzando rios, tramando um rastro sobre outro.
Numa lógica só dele, talvez pela lua
cheia que raiou no céu da sexta noite, outra sexta-feira qualquer, o bicho
ficou à mercê, e até fingiu que queria fora de cima do corpo pintado a rede
atirada.
Não me contive:
ꟷ Jaguatirica de seis vidas?
O vô grunhiu.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de junho de 2021.
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