Burro
n’água
Sucede que estou atrás de um documento,
mas não lembro qual. A informação sobre alguma coisa tem importância para
alguém que não sei mais quem seja. É pessoa que me enviou e-mail, cujo rastro
está apagado na caixa postal. Devo ter deletado por descuido, ou num dos meus
acessos de faxina geral. Depois da limpeza repentina, não tenho como encontrar uma
vírgula sequer do que poderia estar buscando nos interstícios siderais dessa
realidade paralela, a virtual.
Sucede, então, que desisto.
Dane-se a procura da materialidade da
pesquisa. Em vão querê-la concreta. Inútil lamentá-la perdida. O dia, afinal,
tem outros pedidos, e cabe a mim atendê-los.
Ô diabo! Como posso prestar conta do que
faço se nem sei bem o que ando fazendo?
Já faz um tempo que estou jogando palavras
na memória, mas as recordações mais desencontradas é que vêm comer os farelos
dessa minha ceva ingênua. Algo desesperado, já implicante, frustro-me.
Cão sem dono, a realidade toca viola
para se livrar das pulgas mais irritantes, as que não se contentam com
picadinhas intermitentes, mas não caça o próprio rabo por si só, que isso
funcionaria como uma dica.
Não vou dizer que o mundo costuma pôr os
distraídos para uivar à lua ou que talvez os melancólicos acabem minguantes sem
saber que estão definhando a cada uivo.
Boa! Encontrado o cardume, mergulho o
anzol.
Todavia, Rachel de Queiroz corta o fio
da minha empolgação ao me sugerir que a minguante que morre na madrugada não é
louvada nas cantigas nem preside as serenatas.
Tiro da água o meu anzol lavado em
fracasso, amoldo a isca com os dedos que digitam NUDEZ em vez de LUA.
Todavia, Rubem Braga desfaz a emenda,
que o lacinho singelo não dá liga aos meus pensamentos soltos que os forço
lógicos e plausíveis, como a sustentar que a minha visão do mundo precisa de
mim para dar a ela, a essa perspectiva de filósofo iluminado, o viés circunspecto
de persona racional, e coerente.
Oxe, o Sabiá da Crônica canta que estou
nu em minha vulgaridade barata a querer Marilyn Monroe como sereia nessas
minhas águas de umbigo, balão inflado pelas fumaças desse meu ego, que acha
espelho o que nem tem reflexo. Oxe, vampirizo o Velho Braga.
Terá cura esta cepa da minha estupidez?
Todavia, Ivan Lessa refaz o retrato que
venho compondo.
Sim, disse o jornalista que a cada
quinze anos o brasileiro esquece o que fez nos últimos quinze anos.
Sim, de quinze em quinze segundos rompe-se
o fio do que penso.
Caramba! Dá-se o estalo como crônica: Não
ande nu por aí.
Cercado de gravidade por todos os lados,
já que sou um homem no cosmos, encontra-me súbito o que procuro.
Veja só como a minha cabecinha desnorteada
age sem atinar nada com nada, pois vim erguendo em labirinto esta falta de
semancol.
Quem sou eu para criticar Jeff Bezos que
pode torrar o seu dinheiro para levar o maninho ver a Terra lá da estratosfera?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de junho de 2021.
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