domingo, 27 de junho de 2021

Tudo normal

 

Tudo normal

 

Melhor não sair. Espiou pela fresta que a rua estava exibida, como convite irrecusável à pessoa pega de surpresa com o alarido vivo das cores em volumes variados, de pessoas e cães. Melhor ficar em casa, ou passaria todo o tempo a entrar em fria, seja nas filas com gente tão precisada de abrir-se ao próximo porque tomada pela dor incontrolável de viver o cotidiano como um abismo voraz, seja levado a comprar uns cacarecos que inevitavelmente quedariam ignorados depois do fervor de ver rejuvenescida com novidades a casa sempre cômoda. Melhor é botar os fones, largar as pernas na cama e curtir um disco gostoso de se ouvir de cabo a rabo, como o Meu Recôncavo do Paulo Costta que escutara tão logo levantou. Será melhor mesmo.

E o melhor para si nem sempre tem explicação, como se houvesse razão explícita ꟷ lógica ou inteligível ꟷque permita o entendimento de que alguma coisa ou alguma sensação tenham base compreensível, a sobrepor-se a emoções, que distraem ou divertem com as suas névoas que não se dissipam porque têm regras tornadas evidentes.

Ora, gosta de música porque ela lhe faz bem. Desconfia que traçar um circuito que o faça visualizar como a música leva os seus neurônios a produzirem bem-estar e paz, desconfia que isso o deixará borocoxô, meio triste por materializar o que o afeta sem nem mesmo saber como nomear ou direcionar fluxos. Para longe do desespero, óbvio.

“Temendo aqueles que atiram facas”, ouve Circo até o fim. Mesmo se sentindo uma lona carcomida por cupins, compreende, pode acabar sendo envolvido. Não deseja desmontar a canção para refletir como a melodia cativa os seus tímpanos com tônicas e sétimas. Sabe que não há mágica, que bemóis e sustenidos encantam. Ora, o que sobremodo o toca é desfrutar da melancolia que a audição da música proporciona.

Haja vista que é inexplicável o que o põe no clima.

O clima é de serenidade, sem traço algum de angústia ou pesadelo. Com cada bugiganga no seu devido lugar, sem sinal de desassossego inenarrável, incomunicável, de transcendental revelação apocalíptica.

Nada de ter o computador emitindo ruídos esquisitos, de entranhas prestes a siricuticos eletrônicos, à beira de uma implosão misteriosa.

Nada de ficar imaginando que a impressora de repente vai começar a cuspir folhas, páginas cheias de gráficos vistosamente coloridos, mas obscuros, sobre algo que nem se sabe o que seja.

Nada de ir aos Provérbios para dizer com verdadeiro entusiasmo as palavras essenciais que expulsem do ventilador o ente que o faz girar as suas pás, sem nem mesmo estar ligado na força elétrica.

Nada de batucar nas teclas da máquina de escrever um texto vindo de dentro, sem controle, como se o inconsciente estivesse trazendo ao papel a chave-mestra do universo.

Assim, flutuando afinado à harmonia da estérea bonança, a barriga dispara roncar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de junho de 2021.

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