Tudo
normal
Melhor não sair. Espiou pela fresta que
a rua estava exibida, como convite irrecusável à pessoa pega de surpresa com o
alarido vivo das cores em volumes variados, de pessoas e cães. Melhor ficar em
casa, ou passaria todo o tempo a entrar em fria, seja nas filas com gente tão
precisada de abrir-se ao próximo porque tomada pela dor incontrolável de viver
o cotidiano como um abismo voraz, seja levado a comprar uns cacarecos que
inevitavelmente quedariam ignorados depois do fervor de ver rejuvenescida com
novidades a casa sempre cômoda. Melhor é botar os fones, largar as pernas na
cama e curtir um disco gostoso de se ouvir de cabo a rabo, como o Meu
Recôncavo do Paulo Costta que escutara tão logo levantou. Será melhor
mesmo.
E o melhor para si nem sempre tem
explicação, como se houvesse razão explícita ꟷ lógica ou inteligível ꟷque
permita o entendimento de que alguma coisa ou alguma sensação tenham base
compreensível, a sobrepor-se a emoções, que distraem ou divertem com as suas névoas
que não se dissipam porque têm regras tornadas evidentes.
Ora, gosta de música porque ela lhe faz
bem. Desconfia que traçar um circuito que o faça visualizar como a música leva
os seus neurônios a produzirem bem-estar e paz, desconfia que isso o deixará
borocoxô, meio triste por materializar o que o afeta sem nem mesmo saber como
nomear ou direcionar fluxos. Para longe do desespero, óbvio.
“Temendo aqueles que atiram facas”, ouve
Circo até o fim. Mesmo se sentindo uma lona carcomida por cupins, compreende,
pode acabar sendo envolvido. Não deseja desmontar a canção para refletir como a
melodia cativa os seus tímpanos com tônicas e sétimas. Sabe que não há mágica,
que bemóis e sustenidos encantam. Ora, o que sobremodo o toca é desfrutar da
melancolia que a audição da música proporciona.
Haja vista que é inexplicável o que o põe
no clima.
O clima é de serenidade, sem traço algum
de angústia ou pesadelo. Com cada bugiganga no seu devido lugar, sem sinal de
desassossego inenarrável, incomunicável, de transcendental revelação
apocalíptica.
Nada de ter o computador emitindo ruídos
esquisitos, de entranhas prestes a siricuticos eletrônicos, à beira de uma
implosão misteriosa.
Nada de ficar imaginando que a
impressora de repente vai começar a cuspir folhas, páginas cheias de gráficos vistosamente
coloridos, mas obscuros, sobre algo que nem se sabe o que seja.
Nada de ir aos Provérbios para dizer com
verdadeiro entusiasmo as palavras essenciais que expulsem do ventilador o ente
que o faz girar as suas pás, sem nem mesmo estar ligado na força elétrica.
Nada de batucar nas teclas da máquina de
escrever um texto vindo de dentro, sem controle, como se o inconsciente estivesse
trazendo ao papel a chave-mestra do universo.
Assim, flutuando afinado à harmonia da estérea
bonança, a barriga dispara roncar.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de junho de 2021.
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