A
flor viva
Alguma coisa poderia estar acontecendo. Bem
que poderia, só que não está. Parece que tudo está numa paralisia. Estranhíssimo,
parece que o tempo está congelado. Nada tem acontecido de modo natural, a vida de
sempre está outra. Prevalece essa sensação.
Como se o congelamento na ponta dos
dedos fosse por causa do sangue. Como se o íntimo do corpo estivesse mais frio do
que fora.
Poderia estar ocorrendo algo menos angustiante.
Neste momento, porém, permanece o esquisito de que o ar em volta está preso,
como se alguma coisa pudesse pará-lo. Como se o fotograma de um filme seguisse travado.
Está faltando que a realidade volte a rodar a vinte e quatro quadros por
segundo. Alguma coisa parecida.
Um passo à frente, talvez. Que seja.
Para achegar-se à porta, pôr o ouvido na folha fechada. Que fosse para escutar
algum ruído de vida que venha lá de dentro. A vida está silenciada, presa a um
silêncio que atordoa, como se houvesse uma promessa sendo adiada.
Um abraço forte no amigo que vem, talvez.
Ainda que traga notícias tristes, que chegue abrir a porta e receba o abraço
urgente que o corpo tem retesado. Aquela porta empenada pelo frio que a neblina
da aurora teima em tornar emperrada.
Poderia estar chegando o momento de
abrir a porta. Urge ter quem a venha abrir. Ainda que haja desconfiança, haja
quem esteja a pensar que talvez haja quem não a queira aberta. Então, para que o
cerco seja rompido, que surja alguém pra forçá-la, que não desista de tê-la
aberta. Torta e difícil de ser aberta, que haja quem a queira escancarada.
É preciso trazer à porta quem está
fechado há bem mais tempo que o razoável. Talvez tresloucado, tendo
ultrapassado o limite suportável. Pela recusa de escutar o alarme quando o dia
e a noite ainda brotavam separados, não mais passível desta (óbvia) identificação.
Há de haver quem saiba atender a porta,
e venha.
Bem poderia ter chegado o instante de relembrar
o riso, recordar o rosto que sabe soltar-se às gargalhadas, sem vexar.
Por fugaz que seja a sua lembrança, avalie-se
o ato.
Sem temor, vai sorrir; depois, rir; e voltará
a gargalhar, sem hesitar.
Naturalmente, a pessoa encerrada em si, ensimesmada
há tempos, ainda que lhe falte o espontâneo, a cara mais simpática, faça-se
justiça a essa pessoa à porta. Uma vez que esteja disposta.
Sendo gente encerrada por mais tempo que
o tolerável, haverá de perceber-se renascendo. Uma vez renascendo, haverá de
perceber-se morta. Ainda que respire, morta. Reconhecendo o quanto amordaça a
morbidez das janelas encalacradas, desencarcerando-se dessa noite que não quer passar.
Noite tenebrosa que mofa o ar dos cômodos,
as lâmpadas de teto, a TV sem luz e os jornais enfiados pelo vão da porta.
Pois.
Com rara energia, a singela orquídea florescida
resiste, se mantém viva, e florescida. Em flor: pela loucura, se não for pela utopia.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de julho de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário