quinta-feira, 1 de julho de 2021

A flor viva

 

A flor viva

 

Alguma coisa poderia estar acontecendo. Bem que poderia, só que não está. Parece que tudo está numa paralisia. Estranhíssimo, parece que o tempo está congelado. Nada tem acontecido de modo natural, a vida de sempre está outra. Prevalece essa sensação.

Como se o congelamento na ponta dos dedos fosse por causa do sangue. Como se o íntimo do corpo estivesse mais frio do que fora.

Poderia estar ocorrendo algo menos angustiante. Neste momento, porém, permanece o esquisito de que o ar em volta está preso, como se alguma coisa pudesse pará-lo. Como se o fotograma de um filme seguisse travado. Está faltando que a realidade volte a rodar a vinte e quatro quadros por segundo. Alguma coisa parecida.

Um passo à frente, talvez. Que seja. Para achegar-se à porta, pôr o ouvido na folha fechada. Que fosse para escutar algum ruído de vida que venha lá de dentro. A vida está silenciada, presa a um silêncio que atordoa, como se houvesse uma promessa sendo adiada.

Um abraço forte no amigo que vem, talvez. Ainda que traga notícias tristes, que chegue abrir a porta e receba o abraço urgente que o corpo tem retesado. Aquela porta empenada pelo frio que a neblina da aurora teima em tornar emperrada.

Poderia estar chegando o momento de abrir a porta. Urge ter quem a venha abrir. Ainda que haja desconfiança, haja quem esteja a pensar que talvez haja quem não a queira aberta. Então, para que o cerco seja rompido, que surja alguém pra forçá-la, que não desista de tê-la aberta. Torta e difícil de ser aberta, que haja quem a queira escancarada.

É preciso trazer à porta quem está fechado há bem mais tempo que o razoável. Talvez tresloucado, tendo ultrapassado o limite suportável. Pela recusa de escutar o alarme quando o dia e a noite ainda brotavam separados, não mais passível desta (óbvia) identificação.

Há de haver quem saiba atender a porta, e venha.

Bem poderia ter chegado o instante de relembrar o riso, recordar o rosto que sabe soltar-se às gargalhadas, sem vexar.

Por fugaz que seja a sua lembrança, avalie-se o ato.

Sem temor, vai sorrir; depois, rir; e voltará a gargalhar, sem hesitar.

Naturalmente, a pessoa encerrada em si, ensimesmada há tempos, ainda que lhe falte o espontâneo, a cara mais simpática, faça-se justiça a essa pessoa à porta. Uma vez que esteja disposta.

Sendo gente encerrada por mais tempo que o tolerável, haverá de perceber-se renascendo. Uma vez renascendo, haverá de perceber-se morta. Ainda que respire, morta. Reconhecendo o quanto amordaça a morbidez das janelas encalacradas, desencarcerando-se dessa noite que não quer passar.

Noite tenebrosa que mofa o ar dos cômodos, as lâmpadas de teto, a TV sem luz e os jornais enfiados pelo vão da porta.

Pois.

Com rara energia, a singela orquídea florescida resiste, se mantém viva, e florescida. Em flor: pela loucura, se não for pela utopia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de julho de 2021.

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