domingo, 4 de julho de 2021

Logística

 

Logística

 

Quando a manhã está destinada à glória de não mais desaparecer no esquecimento das eras, cada ação conta para contrariar o banal de estar vivendo só mais outro dos dias sempre rotineiros.

A começar pelo grito vindo do terraço do prédio em frente de casa, comigo na varanda a ultimar a ilustríssima leitura das notícias.

Achando que era um cumprimento urbano, retribuí com um aceno, como ao bom-dia protocolar retribuísse com igualmente, vizinho.

O morador do lado ensolarado da rua estava ouriçado, tagarelando, e eu o consegui compreender apenas supostamente.

Como almoçaríamos quibe de forno, deixei-o fixando na mureta do seu apê aquela bandeira com o inconfundível tucano azul e amarelo.

Pra colher hortelã, foi com essa intenção que fui pros fundos.

A gatinha veio ver o que estava ocorrendo, cheirou tudo, caçou no ar um inseto ou outro. Satisfeita de ter feito o que tinha pra fazer, voltou dormir no sofá, o seu cantinho predileto da casa.

Sem saber o que mais teríamos no almoço, não tinha me esquecido de que o arroz pedia cubos de bacon e provolone. Bastava ir comprar, e, porque responsável pela minha parte, fui de uma vez.

Um sujeito interpelou-me, como não traduzi aquele grunhido, fiz um positivo com o dedão. E segui em meu caminho.

Entre a fila de frios no fundo do mercado, cujo ar gelado não negava que estava condicionado pela plenitude do inverno, e o fundo do prato fundo do qual encheria sem moderação a colher de sopa com o fubá com a couve cortada finíssima, houve esse trânsito ao qual não fugi.

Macambúzio pelo desejo imaginário da sopa, cruzei com o mesmo sujeito, que, assim que me viu, passou a gesticular mais enfático, mais enfurecido, provavelmente ralhando comigo por algo que não teria feito nem na ida nem na volta.

Com o dito cujo controlando a esquina?

A ele não fiz nenhum sinal, sequer levantei a cabeça. Tratei de ir no meu passo, sem transmitir o desconforto daquele incômodo.

Com tamanha agressividade, queria que tirasse a máscara.

Nem sob vara iria tirar do rosto a proteção, ainda mais com aqueles perdigotos possuídos pela demência. Não ficaria exposto àquela baba contaminada pelo vírus do que há de pior à solta. Jamais me sujeitaria àquela saliva infecta, de pessoa que prefere vituperar contra a saúde coletiva, o bem-estar comunitário e a consciência individual. Nem a pau que iria me permitir fraquejar, ainda mais com toda aquela pantomima de gente autoritária desmascarada no passeio público.

Mesmo com as lentes embaçadas, não tropiquei. Fui em paz.

E fui logo cortando tomate, pimentão e cebola, pondo sal à vontade e algumas gotas de azeite. Todavia, pra ir misturando-os com o patinho moído, teria de ter espremido o alho e amassado a hortelã. Então, por meia hora, desde que tivesse ligado o forno a 300 graus...

Lógico!

E a gata? A sumida estaria no guarda-roupa?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de julho de 2021.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário