quinta-feira, 10 de junho de 2021

Visão impoluta

 

Visão impoluta

 

Na varanda do nono andar daquele edifício, o homem a fumar o seu cachimbo estava a ponto de encontrar alguma resposta à pergunta que o engasgava desde cedo. Parecia que estava realmente se acercando de alguma coisa que o pusera na condição de pessoa a questionar-se. Afinal, em meio à calma do sofá, alguém parecia ter reavivado aquilo; da televisão parecia ter vindo novamente à baila algum detalhe fulcral; algo do que se ia comentando na TV acabou por imiscuir-se aos seus pensamentos. Sim, ele era dessa espécie de gente que conjectura que cabe ao ser humano esperto conduzir a própria vida sem vacilação.

Blang!

Pelo som de elevadíssimos decibéis, sem a necessidade de que um técnico empunhasse alguma geringonça captadora de espanto sonoro, tinha ocorrido um incidente.

A mulher que falava ao telefone virou-se tão logo ouviu o estrondo. O homem que se abaixara para pegar do meio-fio a bagana levantou a cabeça sem indício de comoção. Apavorada, a menina que já estava choramingando passou a berrar alucinada. Tomada de irritação, a mãe tratou de sacudi-la, insistindo que parasse, como se agitá-la com tanta firmeza cortasse aquela palhaçada, uma chatice, coisa de bobocona.

Na varanda lá no alto do prédio da esquina, o homem fumou o seu cachimbo convicto de que aquele acontecimento era passível de outra abordagem, menos passional. O universo passava-lhe outro dos seus recados: a vida tem fundamentos que escapam ao contato direto. Não iria lamber o sangue para sabê-lo sangue, pois bastava vê-lo e isso, o exercício de observar à distância, pouco interferia no prazer de fumar. Além disso, não pensava com a boca nem com os pulmões.

A mulher que falava ao celular cortou a falação porque lembrou que o aparelho teria melhor utilidade se filmasse a situação todinha.

O homem atrás de bitucas estava certo de que não iria tirar proveito algum da distração, pois fumar era uma prioridade. E comer, também precisava comer. Ele cheirou os restos de um marmitex. A feijoada era gorda. Antes que surgisse algum vira-lata, devorou tudo.

A menina que esgoelava aumentou o estardalhaço ao ver o sangue se espalhando das mãos para as roupas de quem foi acudir o rapaz da bicicleta estrebuchando no asfalto.

A mãe da menina passou a suplicar pela vida daquele entregador de água, cujo sangue jorrava da barriga rasgada.

O homem que procurava as palavras para auxiliá-lo a entender-se com suas ideias, uma vez que a linguagem permitia-lhe pensar-se no mundo sem que sua realidade acabasse abstraída, como se a pedrada na vidraça prescindisse da pedra para estilhaçar a fachada, perplexo, sem ter outra opção, ele decidiu que iria descer à rua.

Apto a revestir o acontecimento de modo irretocável, convencido da relevância do seu relato, ele contou que teve despertada a curiosidade pelo fato quando:

Bleng!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de junho de 2021.

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