Visão
impoluta
Na varanda do nono andar daquele
edifício, o homem a fumar o seu cachimbo estava a ponto de encontrar alguma
resposta à pergunta que o engasgava desde cedo. Parecia que estava realmente se
acercando de alguma coisa que o pusera na condição de pessoa a questionar-se. Afinal,
em meio à calma do sofá, alguém parecia ter reavivado aquilo; da televisão parecia
ter vindo novamente à baila algum detalhe fulcral; algo do que se ia comentando
na TV acabou por imiscuir-se aos seus pensamentos. Sim, ele era dessa espécie
de gente que conjectura que cabe ao ser humano esperto conduzir a própria vida
sem vacilação.
Blang!
Pelo som de elevadíssimos decibéis, sem
a necessidade de que um técnico empunhasse alguma geringonça captadora de
espanto sonoro, tinha ocorrido um incidente.
A mulher que falava ao telefone virou-se
tão logo ouviu o estrondo. O homem que se abaixara para pegar do meio-fio a
bagana levantou a cabeça sem indício de comoção. Apavorada, a menina que já
estava choramingando passou a berrar alucinada. Tomada de irritação, a mãe
tratou de sacudi-la, insistindo que parasse, como se agitá-la com tanta firmeza
cortasse aquela palhaçada, uma chatice, coisa de bobocona.
Na varanda lá no alto do prédio da
esquina, o homem fumou o seu cachimbo convicto de que aquele acontecimento era
passível de outra abordagem, menos passional. O universo passava-lhe outro dos
seus recados: a vida tem fundamentos que escapam ao contato direto. Não iria
lamber o sangue para sabê-lo sangue, pois bastava vê-lo e isso, o exercício de
observar à distância, pouco interferia no prazer de fumar. Além disso, não
pensava com a boca nem com os pulmões.
A mulher que falava ao celular cortou a
falação porque lembrou que o aparelho teria melhor utilidade se filmasse a situação
todinha.
O homem atrás de bitucas estava certo de
que não iria tirar proveito algum da distração, pois fumar era uma prioridade.
E comer, também precisava comer. Ele cheirou os restos de um marmitex. A
feijoada era gorda. Antes que surgisse algum vira-lata, devorou tudo.
A menina que esgoelava aumentou o
estardalhaço ao ver o sangue se espalhando das mãos para as roupas de quem foi acudir
o rapaz da bicicleta estrebuchando no asfalto.
A mãe da menina passou a suplicar pela
vida daquele entregador de água, cujo sangue jorrava da barriga rasgada.
O homem que procurava as palavras para
auxiliá-lo a entender-se com suas ideias, uma vez que a linguagem permitia-lhe pensar-se
no mundo sem que sua realidade acabasse abstraída, como se a pedrada na vidraça
prescindisse da pedra para estilhaçar a fachada, perplexo, sem ter outra opção,
ele decidiu que iria descer à rua.
Apto a revestir o acontecimento de modo
irretocável, convencido da relevância do seu relato, ele contou que teve
despertada a curiosidade pelo fato quando:
Bleng!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de junho de 2021.
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