terça-feira, 1 de junho de 2021

Felicidade condicional

 

Felicidade condicional

 

Ele disse: “não”, “não sei” e “já falei que não sei”.

Com tantos nãos ditos em sequência, sua mente tinha mesmo que enveredar por algum caminho menos sombrio.

Sem ligar para a garoa na careca, desceu a rua em vez de subir.

Entrou no comércio da esquina. Todavia, só entrou ali para ganhar distância de um pitbull invocado que vinha protegido por um bombado brutamontes sem focinheira. Numa hora dessas, sobreviver é vacina.

Nem bem estando dentro, a ajuda que não carecia foi-lhe oferecida com a presteza de quem sufocado por dívidas a granel.

Aceitou que precisava urgentemente de sementes de girassol.

Que realmente eram necessários dois pacotes para atender a sua demanda, no entanto, já era um sinal evidente de uma impressionante habilidade humana, a telepatia.

Espantado com a interação mental, pagou no cartão. E o fez porque o dinheiro ainda não tinha asas para vir cantar bonito na sua carteira.

Que alívio ter carteira no bolso. Que alegria redobrada ter cartão de crédito no bolso. Que espetáculo poder sorrir satisfeito por ainda dispor de algum crédito. Ou o cartão seria só mais um objeto inútil, de plástico vagabundo, tão inimigo da natureza.

Tinha esquecido que a agência saíra do seu trajeto como algo bem natural, sem deixar sequelas, tiques ou inflexões imponderáveis.

Afinal, nem se lembrava de que economizar três reais numa compra de um quilo extra de comida para passarinho era sua imprescindível e incontornável prioridade.

Opalá! A memória piscou o alerta.

Parado à porta do estabelecimento de viva importância a sua atual condição de pessoa não portadora de bicho engaiolado, uma dúvida mostrou-se atroz: semente de girassol alimenta aves de que tipo?

Como lhe foi prontamente comunicado, muitos são os tipos de aves comedoras de sementes de girassol.

Tem ave: que canta de madrugada; que canta na hora do almoço; que canta sem que sol e chuva influenciem na cantoria.

Que diversidade surpreendente.

Tanto diversa quanto misteriosa é a natureza, emendou o vendedor com a tarimba visionária para morder feliz um bom dinheiro, já o senhor fique sabendo que o sabiá, sim, o nosso velho amigo sabiá que canta nas madrugadas, muita gente tem a facilidade de chamar o bichinho de sabiaúna, sabiatinga, da restinga, da praia, do campo, do sertão, da campina, capoeira, tropeiro, da mata-virgem, do mato-grosso, ferreiro, sabiapoca, cachorro, cara-de-gato, coleira, barranco, branco, cinzento, piri, laranja, laranjeira, barriga-vermelha, verdadeiro, ponga, gongá, e, o senhor nem me olhe torto porque sei disso tudo, tem quem chame o inocente de sabichão-do-papo-amarelo.

Caçamba!

E pensar que todo este conhecimento poderia permanecer ignorado se o cidadão não tivesse participado de modo tão positivo da pesquisa eleitoral. Apesar do número desconhecido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de junho de 2021.

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