Desejo
caliente
Estava decidido: iria sair. Não porque
fosse preciso, porque decidiu que precisava fazê-lo. Pondo, tirando, emparelhando,
relacionando os argumentos como se permitissem estabelecer um ponto médio: o
lugar razoável do equilíbrio momentâneo.
Já que era ser humano a mover-se entre
emoções, tinha chegado à conclusão de que tinha mesmo de sair de casa.
E precisava ir-se naquele instante,
antes que a posição favorável à saída se visse convertida no oposto, quando
condenações à decisão resultassem em um sentimento vergonhoso, a projetá-lo uma
pessoa irracional, dada a rompantes, mesquinha, que só pensa em atender os próprios
desejos. Verdadeiramente irrefreáveis, esses desejos, porque orientados pela
pacificação mental.
Brasileiro, sempre foi de dar de si o seu
melhor. E no presente caso, o melhor a fazer era ir comprar uma proteção para a
sua careca ou os seus humores ficariam ácidos, deixando-o intragável.
Ainda era outono, mas o frio incomodava
um bocado. Como pensar com calma, sem azedumes irreprimíveis quando a
temperatura média andava pela casa dos dez graus?
Não foi à toa que Dante fez do núcleo do
inferno um antro glacial, inospitamente feito somente de gelo, um buraco
terrível destinado aos condenados irremissíveis, eternamente incorrigíveis, sem
perdão.
Portanto, cobrir a careca era uma
questão de preservação da mente como fonte de pensamentos ordenados,
fundamentados e socialmente aprovados, porque, bem aquecida a cabeça, a
consciência não sofreria oscilações bruscas, mantendo-se a racionalidade
intacta.
O homem razoável, que pondera sem se ver
constrangido a vencer abismos a cada passo, é aquele que se decide pelo bem
comum, uma vez que sabe pôr-se no lugar do próximo. Alguém calmo e solidário.
A solidariedade fortalece a
individualidade, não a envenena como expressão egocêntrica da subjetividade
absoluta. Quem está disposto a conviver produz bem-estar coletivo, e isso, ao
fim e ao cabo, resulta em postura saudável para si. Pois o solidário é de fato
alguém gregário.
Como cidadão de saúde mental energizada
pela felicidade pública, ele estava certo de que precisava de uma boina. Não
queria um boné nem um chapéu, queria mesmo era uma boina.
Contra o boné pesava a imagem daqueles
jovens que andam em turma, todos com a viseira virada para trás, porém, que
diacho!, a nuca não tem olhos, logo não fica ofuscada pela exuberância do Sol.
O horror ao chapéu... Tinha idade para
lembrar-se dos faroestes em que John Wayne matava peles-vermelhas como se não fossem
gente como a gente, mortos feito búfalos.
A favor da boina?
Da memória, o rosto ꟷ Décio Pignatari. Trigêmeo
concretista, com hambre do explicitamente sutil, o hombre do Panteros.
Pois bem, um brasileiro não faz o melhor
pelo Brasil?
Pra uma nascente alegria em mim, uma
boina existe.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de junho de 2021.
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