terça-feira, 15 de junho de 2021

Desejo caliente

 

Desejo caliente

 

Estava decidido: iria sair. Não porque fosse preciso, porque decidiu que precisava fazê-lo. Pondo, tirando, emparelhando, relacionando os argumentos como se permitissem estabelecer um ponto médio: o lugar razoável do equilíbrio momentâneo.

Já que era ser humano a mover-se entre emoções, tinha chegado à conclusão de que tinha mesmo de sair de casa.

E precisava ir-se naquele instante, antes que a posição favorável à saída se visse convertida no oposto, quando condenações à decisão resultassem em um sentimento vergonhoso, a projetá-lo uma pessoa irracional, dada a rompantes, mesquinha, que só pensa em atender os próprios desejos. Verdadeiramente irrefreáveis, esses desejos, porque orientados pela pacificação mental.

Brasileiro, sempre foi de dar de si o seu melhor. E no presente caso, o melhor a fazer era ir comprar uma proteção para a sua careca ou os seus humores ficariam ácidos, deixando-o intragável.

Ainda era outono, mas o frio incomodava um bocado. Como pensar com calma, sem azedumes irreprimíveis quando a temperatura média andava pela casa dos dez graus?

Não foi à toa que Dante fez do núcleo do inferno um antro glacial, inospitamente feito somente de gelo, um buraco terrível destinado aos condenados irremissíveis, eternamente incorrigíveis, sem perdão.

Portanto, cobrir a careca era uma questão de preservação da mente como fonte de pensamentos ordenados, fundamentados e socialmente aprovados, porque, bem aquecida a cabeça, a consciência não sofreria oscilações bruscas, mantendo-se a racionalidade intacta.

O homem razoável, que pondera sem se ver constrangido a vencer abismos a cada passo, é aquele que se decide pelo bem comum, uma vez que sabe pôr-se no lugar do próximo. Alguém calmo e solidário.

A solidariedade fortalece a individualidade, não a envenena como expressão egocêntrica da subjetividade absoluta. Quem está disposto a conviver produz bem-estar coletivo, e isso, ao fim e ao cabo, resulta em postura saudável para si. Pois o solidário é de fato alguém gregário.

Como cidadão de saúde mental energizada pela felicidade pública, ele estava certo de que precisava de uma boina. Não queria um boné nem um chapéu, queria mesmo era uma boina.

Contra o boné pesava a imagem daqueles jovens que andam em turma, todos com a viseira virada para trás, porém, que diacho!, a nuca não tem olhos, logo não fica ofuscada pela exuberância do Sol.

O horror ao chapéu... Tinha idade para lembrar-se dos faroestes em que John Wayne matava peles-vermelhas como se não fossem gente como a gente, mortos feito búfalos.

A favor da boina?

Da memória, o rosto ꟷ Décio Pignatari. Trigêmeo concretista, com hambre do explicitamente sutil, o hombre do Panteros.

Pois bem, um brasileiro não faz o melhor pelo Brasil?

Pra uma nascente alegria em mim, uma boina existe.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de junho de 2021.

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