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O homem tomou lugar na fila, falava ao
celular. O reconhecimento da voz fez com que outro homem, o que estava mais à
frente, na boca do caixa, se virasse para cumprimentá-lo. Eram conhecidos.
Tá frio. Tá gostoso esse frio. Só que
não é como antigamente. Isso não é, porque na década de setenta geava desde
final de abril. Agora a geada malemá cai em julho. E olhe lá. E tem gente que
não gosta do tempinho bom pra tomar vinho quente. E comer pinhão. Isso, pinhão
é bão de todo jeito. Bem bão. Isso, muito bão. Inté, amigo. Inté, prezado.
Lembrança lá em casa. Digo o mesmo, abração. Abração.
Gentes de fino trato. Mesmo que uma
esteja sempre apoiando os críticos de governos que capinam os matos que
circundam o chafariz sem água da velha praça dos domingos namoradeiros e outra
viva para pedir mudanças profundas de postura a quem nunca teve o nome dito em
quaisquer das reuniões oficiadas pelos eleitos do público.
Gente bem-educada, que nem se apressa
ocupar o lugar que julga ter por direito de nascença, que nem precisa pensar
que tem direito a ter este direito, uma vez nascida no local em que os seus antepassados
nasceram.
Só não se comenta que pinhão se come no
inverno.
O inverno...
A natureza segue o seu curso, pensa o calvo
que palitará os dentes após comer a feijoada. Nem precisa de cestinha, veio
pegar um vinho para logo mais à noite. E pensa na feijoada. Às quartas, tem
feijoada, como faz há vinte anos. Enfim, uma verdade não deve ser questionada,
porque isso é como a natureza. O homem sabe que não inventa a roda, dispensa
pensar de outro modo, como se houvesse resposta diferente para dois mais dois. De
fato, é natural que o bom da vida faça bem.
Que fique claro: o inverno realmente
começou.
Segundo fontes informadas, a estação
mais fria do ano teve início oficialmente na data prevista. Sem que o
calendário fosse contestado, uma vez que nada houve que desabonasse a sua
chegada como sói fazer todo ano.
Hoje em dia tem aparecido quem pratique
esse esporte curioso que é o de pôr em dúvida a lógica das coisas óbvias, como
se inquietações momentâneas tivessem prioridade em relação aos planos cósmicos.
Que escândalo!
A desordem que se vê, e é preciso falar
nas enchentes e nas secas que pululam por todas as latitudes e todas as longitudes,
onde crescem parreiras carregadas de uvas tenras, onde nadam trutas em
riachinhos mansos, onde o leite não demanda adulterações genéticas, pois bem, a
mim me parece que esse caos mundo afora pode ser porque mãos sem conhecimento
das precisões da terra têm violado a ordem natural do universo.
Escandaloso?
Pessoa que acende vela mesmo quando não acaba
a força, pego meio quilo de pinhão, e, só de imaginar um pinguinzinho zanzando
nas areias de Cananeia, sorrio.
Vou sorrindo pelas ruas. Mesmo com gente
que passa por mim com aquela cara de que o louco sou eu, sigo sorrindo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de junho de 2021.
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