quinta-feira, 24 de junho de 2021

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O homem tomou lugar na fila, falava ao celular. O reconhecimento da voz fez com que outro homem, o que estava mais à frente, na boca do caixa, se virasse para cumprimentá-lo. Eram conhecidos.

Tá frio. Tá gostoso esse frio. Só que não é como antigamente. Isso não é, porque na década de setenta geava desde final de abril. Agora a geada malemá cai em julho. E olhe lá. E tem gente que não gosta do tempinho bom pra tomar vinho quente. E comer pinhão. Isso, pinhão é bão de todo jeito. Bem bão. Isso, muito bão. Inté, amigo. Inté, prezado. Lembrança lá em casa. Digo o mesmo, abração. Abração.

Gentes de fino trato. Mesmo que uma esteja sempre apoiando os críticos de governos que capinam os matos que circundam o chafariz sem água da velha praça dos domingos namoradeiros e outra viva para pedir mudanças profundas de postura a quem nunca teve o nome dito em quaisquer das reuniões oficiadas pelos eleitos do público.

Gente bem-educada, que nem se apressa ocupar o lugar que julga ter por direito de nascença, que nem precisa pensar que tem direito a ter este direito, uma vez nascida no local em que os seus antepassados nasceram.

Só não se comenta que pinhão se come no inverno.

O inverno...

A natureza segue o seu curso, pensa o calvo que palitará os dentes após comer a feijoada. Nem precisa de cestinha, veio pegar um vinho para logo mais à noite. E pensa na feijoada. Às quartas, tem feijoada, como faz há vinte anos. Enfim, uma verdade não deve ser questionada, porque isso é como a natureza. O homem sabe que não inventa a roda, dispensa pensar de outro modo, como se houvesse resposta diferente para dois mais dois. De fato, é natural que o bom da vida faça bem.

Que fique claro: o inverno realmente começou.

Segundo fontes informadas, a estação mais fria do ano teve início oficialmente na data prevista. Sem que o calendário fosse contestado, uma vez que nada houve que desabonasse a sua chegada como sói fazer todo ano.

Hoje em dia tem aparecido quem pratique esse esporte curioso que é o de pôr em dúvida a lógica das coisas óbvias, como se inquietações momentâneas tivessem prioridade em relação aos planos cósmicos.

Que escândalo!

A desordem que se vê, e é preciso falar nas enchentes e nas secas que pululam por todas as latitudes e todas as longitudes, onde crescem parreiras carregadas de uvas tenras, onde nadam trutas em riachinhos mansos, onde o leite não demanda adulterações genéticas, pois bem, a mim me parece que esse caos mundo afora pode ser porque mãos sem conhecimento das precisões da terra têm violado a ordem natural do universo.

Escandaloso?

Pessoa que acende vela mesmo quando não acaba a força, pego meio quilo de pinhão, e, só de imaginar um pinguinzinho zanzando nas areias de Cananeia, sorrio.

Vou sorrindo pelas ruas. Mesmo com gente que passa por mim com aquela cara de que o louco sou eu, sigo sorrindo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de junho de 2021.

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