domingo, 30 de maio de 2021

Espetacular

Espetacular

 

Aplaudindo, mas apenas depois de reaberta a cortina, uma vez que a trupe saiu de cena assim que a história acabara de ser contada. Sim, do começo ao fim, o fio da meada não foi cortado nem enrolado. Afinal, era história conhecida, por isso querer dar voltas ou pular algum trecho seria errar o tom. Não, da cortina aberta até a cortina fechada, o rumo bem ensaiado foi seguido à risca pelo pessoal: bravo!

Conforme todo mundo sabe, uma das regras não escritas da nossa sociedade fala que uma criança, qualquer criança que esteja cativada em sua inocência, é esperta o suficiente para chiar no exato momento em que cortes ou mudanças interfiram no andamento do aguardado.

A criançada não deixa por menos e cobra fidelidade ao já trilhado, portanto não convém querer inventar. Sim, insistir em enfiar novidades em algo mais do que testado pode muito bem magoar a audiência.

Decepcionada, mais e mais entristecida ao testemunhar surpresas que soam como ruído frustrante, a meninada olha, pede que seu olhar seja compreendido, comunica a perda do entusiasmo e suplica que o seu aborrecimento tenha o valor de uma bruta vaia.

Não alimente falsas esperanças, pois meninas e meninos educados pelo respeito à estupidez de terceiros não são de ficar resmungando, apupando, atirando tomates, botando para correr estrelas que julgam caídas em desgraça. Sem dar bobeira, elas e eles abrem o berreiro.

Viva! Que os astros condenados sumam no abismo.

A questão não é pedir reembolso; o ponto é simples: voltem e façam direito o que tinha de ser feito direito. Ora essa, se a coisa está errada, é muito simples: basta começar de novo, mas recomeçar sabendo que o certo de uma história bem contada é mantê-la igual a si mesma.

Entretanto, os benditos foram salvos e punidos os malditos:

ꟷ Bravíssimo!

Aplaudindo protocolarmente o elenco de apoio.

Aplaudindo, assoviando e batendo os pés nas tábuas da plateia, quando um a um dos personagens que tinham nome inclinavam-se em respeito ao afago do público.

Aplaudindo, soltando pequenos gritos, saltitando na arquibancada, isso porque, magnética, sol magistral a capturar com os mil tentáculos da sua visão, avançou a Chapeuzinho.

Que maravilha!

Feliz da vida com o espetáculo que não enganou ninguém, montou na bicicleta sem rodinhas e, quando ia tomando a direção de casa, uma bicicleta com cestinha junto ao guidão barrou-lhe o caminho.

Sem aquele macacão de pelos ensebados, sem aquele focinho de dentes assustadores, só que ainda exibindo a maquiagem escura ao redor dos olhos, era o Lobo.

A voz... A voz era mesmo a do monstro.

E viera falar com ele. Logo com quem nem tinha reparado que a fera da apresentação tão bacana o tinha visto no meio de toda gente.

Caraca, o rapazinho dos seus onze para doze anos nem se lembrou de que tinha língua ao ser presenteado com um belíssimo beijo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de maio de 2021.


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