quinta-feira, 17 de junho de 2021

Requebrado

 

Requebrado

 

Acredito que lá fora faça um dia lindo, com pássaros cantando nos floridos ipês amarelos. Acredito, a escuridão está delimitada por quatro paredes, feita de tijolos, erguida por mãos experientes, firmes. Assim, ainda que meus olhos vermelhos ardam para caramba, nada de pensar que a bolha vai estourar de uma hora para outra, como nas fantasias de um desajustado, alguém fora do prumo, como se a solidez do chão estivesse à prova. Pois não está nem nunca esteve. Essa escuridão, o cubo escuro em que estou nem é luva que me sirva, doendo estão os miolos cansados.

Então, serve para quê? Para circunscrever-me.

No que a minha percepção dá como um nó, a carcaça sem cachaça perde a graça. Do cósmico nada absoluto ao relativo vazio existencial, esqueço que a cabeça não tem paredes, mas o diálogo da consciência comigo sugere um desarranjo, como se as forças não estivessem coisa nenhuma por um fio, como se bastasse mais um passo para despenhar ribanceira abaixo, na apoplexia de um instante, a indicar-me que estou abismado, de olhos abertos.

Desconfio que minha sensatez supõe ter alguma imparcialidade, já que não tenho remorso. A ponto de dizer adeus? O meu siso tem que parar de dizer que sou eu essa pessoa que confronta quem acho que poderia ser, caso estivesse dormindo.

E dormir para quê? Para ter algum alívio.

Quando a tensão vai aumentando, aumentando, numa progressão que faz os pintassilgos nos ipês amarelos virarem urubus nos postes de eucalipto, então, o corpo acaba subjugado.

Apaga. Desaba. Sem escolha, acaba adormecido.

O repouso leva a quê? Põe recomposto o corpo.

Recompor-me para prosseguir? Para retomar de onde estou.

Desde onde parei. Não parei, o meu corpo apagou. Desabei. Vi-me obrigado a dormir. Por esgotamento. O corpo não conseguiu mais se sustentar, foi apagado por dentro. A mente não pôde mais se controlar, viu-se desabada. Meu esqueleto precisa de uma boa reconfiguração. Refazer-me outro, livre de sentir-me esgotado.

Mas corpo e mente não têm unidade? Unidos em eclipse.

Como o corpo não se separa da mente e a mente não se separa do corpo, eu, assim como todo ser humano que tem consciência de si no mundo em que vive, aceito como natural me sujeitar à restauração das funcionalidades através do sono.

Do sono, sim. Da inércia, não.

Porque uma pessoa apagada por exaustão não se sente no limite, e o ultrapassa. Distraída, com tanta coisa para cuidar, ocupada com as trampas do mundo, a pessoa sorri quando aprovam o que faz. Todavia, nem se vê vivendo a realizar tarefas, a cumprir os prazos, a pedir pela próxima tarefa, pelo próximo prazo, até que...

Até que a vida fique um troço chatíssimo.

Então? Sem conseguir manter-me em pé, eu danço, e sucumbo. De tão cansado, nem percebo que nem penso direito, tanto que...

Fazendo um dia maravilhoso lá fora, ronco, e ronco que nem porco.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de junho de 2021.

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