terça-feira, 22 de junho de 2021

Carne de pescoço

 

Carne de pescoço

 

(Desde já, a crônica está passada. Desde o título, passada. Porque o fogo que vai prometido, cabotino a perder de vista, queima o filé do narrador a querer-se comedido em autoficção. Poderia firmar-se como um sarcástico pastiche cínico, como se estivesse possuída pelo mais que manjado Jonathan Swift, porquanto um fantasma, o velho trágico fantasma da fome, campeia por estas terras brasílicas, grassando por estes dias de tão daninha crueldade requentada. Todavia, a carne cara de engolir está na mesa, posta pelos fatos. Sem piedade: a postos!)

O gás acabou. Peguei o telefone, pois era o caso de providenciar a reposição sem pestanejar. Por nada, passava do meio-dia. Porque era domingo, e pelo adiantado da hora, a venda de botijões tinha fechado.

Ainda bem que não havia ninguém que me atendesse, uma vez que ao meu dispor nem tinha dinheiro suficiente para um marmitex, sequer para o pastel na feira. Com os míseros quatro reais na carteira, o acaso encarregou-se de me poupar da vergonha de passar um carão. Que a minha ladainha lamurienta, na certa, passaria por trote.

Aliviado, e sem rubores automáticos, abri a geladeira. Era domingo, e as noites de sábado sempre proporcionam sobras de pizza, apanhei tudo o que me restava da marguerita. Tinha uma fatia e meia.

Com o fornecimento de eletricidade sem corte, pus no forninho uma assadeira com a gororoba que me cairia bem como almoço. Desde que o rango me viesse quente, teria uma refeição supimpa.

Será exagero de esfomeado, supimpa? Comeria algo palatável, até agradável. Por conta de que nem precisaria ir ao banco retirar dinheiro, algo mais que agradável, uma coisa cômoda. Mais do que cômoda, já que fatalmente gastaria com petiscos gordurosos que me destruiriam o estômago, seria solução bem-venturosa.

Ter a saúde salva pela falta de fundos, ô glória.

Assim, certo de estar contribuindo de maneira consciente, e correta, para despiorar o atendimento caótico de clínicas, postinhos e hospitais, afinal, a ida de menos um cidadão acometido de uma gastrite evitável, sendo eu a dita cuja pessoa de boca politicamente conscienciosa, isso muito me convinha, porque desanuviava meu coração aflito.

Sim, punha-me alegre saber-me um indivíduo capaz de administrar os impulsos, mesmo os que vinham de baixo, das entranhas cheias de entusiasmos nada módicos, desses que não se dão por satisfeitos nem quando estão empanturrados, nem quando um grãozinho de arroz já é a evidência de um crime, do pecado da gula.

Se a sorte resolveu sorrir com o jeitão de uma desgraça, osso duro de roer, tasquei pimenta sem clemência: das três colheres de sopa de arroz sem sal, duas conchas de feijão-fradinho temperado por cominho e uma pornográfica colherada de purê (ou maçaroca) de mandioquinha puxada no bacon?

Sobrou o prato, que nem precisei lavar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de junho de 2021.

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