Carne
de pescoço
(Desde já, a crônica está passada. Desde
o título, passada. Porque o fogo que vai prometido, cabotino a perder de vista,
queima o filé do narrador a querer-se comedido em autoficção. Poderia firmar-se
como um sarcástico pastiche cínico, como se estivesse possuída pelo mais que
manjado Jonathan Swift, porquanto um fantasma, o velho trágico fantasma da fome,
campeia por estas terras brasílicas, grassando por estes dias de tão daninha crueldade
requentada. Todavia, a carne cara de engolir está na mesa, posta pelos fatos. Sem
piedade: a postos!)
O gás acabou. Peguei o telefone, pois
era o caso de providenciar a reposição sem pestanejar. Por nada, passava do
meio-dia. Porque era domingo, e pelo adiantado da hora, a venda de botijões tinha
fechado.
Ainda bem que não havia ninguém que me
atendesse, uma vez que ao meu dispor nem tinha dinheiro suficiente para um
marmitex, sequer para o pastel na feira. Com os míseros quatro reais na
carteira, o acaso encarregou-se de me poupar da vergonha de passar um carão. Que
a minha ladainha lamurienta, na certa, passaria por trote.
Aliviado, e sem rubores automáticos,
abri a geladeira. Era domingo, e as noites de sábado sempre proporcionam sobras
de pizza, apanhei tudo o que me restava da marguerita. Tinha uma fatia e meia.
Com o fornecimento de eletricidade sem
corte, pus no forninho uma assadeira com a gororoba que me cairia bem como
almoço. Desde que o rango me viesse quente, teria uma refeição supimpa.
Será exagero de esfomeado, supimpa? Comeria
algo palatável, até agradável. Por conta de que nem precisaria ir ao banco retirar
dinheiro, algo mais que agradável, uma coisa cômoda. Mais do que cômoda, já que
fatalmente gastaria com petiscos gordurosos que me destruiriam o estômago, seria
solução bem-venturosa.
Ter a saúde salva pela falta de fundos,
ô glória.
Assim, certo de estar contribuindo de
maneira consciente, e correta, para despiorar o atendimento caótico de
clínicas, postinhos e hospitais, afinal, a ida de menos um cidadão acometido de
uma gastrite evitável, sendo eu a dita cuja pessoa de boca politicamente
conscienciosa, isso muito me convinha, porque desanuviava meu coração aflito.
Sim, punha-me alegre saber-me um
indivíduo capaz de administrar os impulsos, mesmo os que vinham de baixo, das
entranhas cheias de entusiasmos nada módicos, desses que não se dão por
satisfeitos nem quando estão empanturrados, nem quando um grãozinho de arroz já
é a evidência de um crime, do pecado da gula.
Se a sorte resolveu sorrir com o jeitão
de uma desgraça, osso duro de roer, tasquei pimenta sem clemência: das três
colheres de sopa de arroz sem sal, duas conchas de feijão-fradinho temperado
por cominho e uma pornográfica colherada de purê (ou maçaroca) de mandioquinha puxada
no bacon?
Sobrou o prato, que nem precisei lavar.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de junho de 2021.
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