De
boa-fé
Tem coisa errada comigo. O meu dever é encontrar
o que está me deixando incomodado, ou o que está funcionando mal poderá piorar.
Estou desconfortável. Prefiro saber a ficar com alguma doença sem nome médico
reconhecido.
Afinal, a medicina é uma ciência. O que
não é brincadeira. Assim, tenho que achar onde está o problema e qual pode ser
a solução, ou soluções. O meu corpo tem segredos que minha ignorância nem me permite
elencá-los.
Não sendo médico, parto para o autoexame
subindo e descendo os degraus que dão acesso ao porão. Não tenho medo do
escuro, só acendo a lâmpada para não tropeçar na escada.
Fico cansado, mas o coração não dói. Não
ter pontadas é um bom sinal. Tudo certo, menos o cheiro azedo do suor velho na
camiseta outra vez empapada.
Com o coração em ordem, desconfio do
fígado. Sem hesitar, bebo cerveja no gargalo. Tomo a dúzia de garrafas da
geladeira, e nada. O bicho nem liga para tanto álcool.
Com o volume bebido, vou aliviar a
carga. E isto quer dizer que os rins estão funcionando como esperado. Até a
urina está clarinha.
Já disse, medicina é arte que não
domino, por isso sigo em ação. E dar ao corpo vivências novas é uma maneira de
estar pronto para quando for necessária a reação, porque a vida é desafio
constante.
Superar barreiras, uma depois de outra: tenho
esta predisposição de continuar a desafiar-me, mesmo não sabendo dos riscos.
Dito de outro modo, o autoconhecimento é
menos daninho ao meu juízo que a indisposição espontânea. Pois, não me convenço
de que doenças sejam naturais.
Natural é laranjeira dar laranjas.
E são tantas. Conheço algumas: a lima, a
pera, laranja-de-umbigo. Se é doce ou azeda, pouco importa, sempre coloco
açúcar, pois meu paladar é apurado para comida.
Como sou de limpar o prato, não suporto
discussões na hora que estou comendo. Isso irrita e irritação atrapalha a minha
barriga a fazer a digestão, e digestão malfeita é um desastre. Não fico parado
nem consigo prestar atenção em nada. Só penso que irei passar mal.
Quem nasceu para águas rasas não deve
mergulhar achando que vai saber sair do mar antes que o tubarão do afogamento
mostre sua mandíbula cheia de dentes.
Já que estou arriscando a aprender na
marra como me virar diante dos enroscos da vida, encho o tanque e enfio a
cabeça toda. Abro os olhos e vejo que o troço é feio do mesmo jeito como se
estivesse sem água. Entretanto, o que está mudado em mim é ter certeza de que
consigo prender o ar por três minutos. O que me dá outra certeza: os meus
pulmões estão perfeitos.
Tudo é coisa boa de saber?
Sem faniquito, entendo que não alimentar
um monstro gera outro; portanto, para que o parto do novo homem se complete, e
ele tenha, com a plenitude do seu intelecto, condições de dar a sua contribuição
para a sociedade do futuro, é preciso beber da cicuta a dose precisa, que o
potencialize e não o abata no nascedouro.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de abril de 2021.