terça-feira, 27 de abril de 2021

De boa-fé

 

De boa-fé

 

Tem coisa errada comigo. O meu dever é encontrar o que está me deixando incomodado, ou o que está funcionando mal poderá piorar. Estou desconfortável. Prefiro saber a ficar com alguma doença sem nome médico reconhecido.

Afinal, a medicina é uma ciência. O que não é brincadeira. Assim, tenho que achar onde está o problema e qual pode ser a solução, ou soluções. O meu corpo tem segredos que minha ignorância nem me permite elencá-los.

Não sendo médico, parto para o autoexame subindo e descendo os degraus que dão acesso ao porão. Não tenho medo do escuro, só acendo a lâmpada para não tropeçar na escada.

Fico cansado, mas o coração não dói. Não ter pontadas é um bom sinal. Tudo certo, menos o cheiro azedo do suor velho na camiseta outra vez empapada.

Com o coração em ordem, desconfio do fígado. Sem hesitar, bebo cerveja no gargalo. Tomo a dúzia de garrafas da geladeira, e nada. O bicho nem liga para tanto álcool.

Com o volume bebido, vou aliviar a carga. E isto quer dizer que os rins estão funcionando como esperado. Até a urina está clarinha.

Já disse, medicina é arte que não domino, por isso sigo em ação. E dar ao corpo vivências novas é uma maneira de estar pronto para quando for necessária a reação, porque a vida é desafio constante.

Superar barreiras, uma depois de outra: tenho esta predisposição de continuar a desafiar-me, mesmo não sabendo dos riscos.

Dito de outro modo, o autoconhecimento é menos daninho ao meu juízo que a indisposição espontânea. Pois, não me convenço de que doenças sejam naturais.

Natural é laranjeira dar laranjas.

E são tantas. Conheço algumas: a lima, a pera, laranja-de-umbigo. Se é doce ou azeda, pouco importa, sempre coloco açúcar, pois meu paladar é apurado para comida.

Como sou de limpar o prato, não suporto discussões na hora que estou comendo. Isso irrita e irritação atrapalha a minha barriga a fazer a digestão, e digestão malfeita é um desastre. Não fico parado nem consigo prestar atenção em nada. Só penso que irei passar mal.

Quem nasceu para águas rasas não deve mergulhar achando que vai saber sair do mar antes que o tubarão do afogamento mostre sua mandíbula cheia de dentes.

Já que estou arriscando a aprender na marra como me virar diante dos enroscos da vida, encho o tanque e enfio a cabeça toda. Abro os olhos e vejo que o troço é feio do mesmo jeito como se estivesse sem água. Entretanto, o que está mudado em mim é ter certeza de que consigo prender o ar por três minutos. O que me dá outra certeza: os meus pulmões estão perfeitos.

Tudo é coisa boa de saber?

Sem faniquito, entendo que não alimentar um monstro gera outro; portanto, para que o parto do novo homem se complete, e ele tenha, com a plenitude do seu intelecto, condições de dar a sua contribuição para a sociedade do futuro, é preciso beber da cicuta a dose precisa, que o potencialize e não o abata no nascedouro.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de abril de 2021.

domingo, 25 de abril de 2021

Uma paradinha

 

Uma paradinha

 

Posso parar? Preciso, e paro.

Não vou pro mundo; se ele quiser, que venha. Só não garanto que vou recebê-lo com entusiasmo, mas terei o mínimo de civilidade.

Será recebido com sorriso, ainda que apático, indiferente, de idiota que se percebe anestesiado pela presença massacrante de notícias nem um pouco alegres. A realidade que o mundo apresenta não tem sido fácil de testemunhar.

Meus olhos não enxergam nenhuma natureza morta no arranjo de TV, micro e telefone desligados. Não há beleza, há banalidade.

Então, cortês, puxarei uma cadeira ao meu lado e, como remanso, oferecerei alguma prosa recheada de amenidades.

Ando precisando de um descanso das aflições que só me apertam o nó no peito, e o fio da tesoura está cego. Garanto que esteja, pois o meu farol está fraco e não vejo o caminho. Este nevoeiro angustiante penetra-me a pele e rói-me os ossos. O aperto vem de mim, e preciso respirar com naturalidade.

Hoje, só por hoje, que este mundo cheio de becos sem saída leve em consideração o meu pedido: que me venha amigável.

Confesso, tantas carências estão pedindo atenção; e não as quero ignoradas ou mal atendidas. Todavia, para que eu consiga manter-me digno enquanto me recupero pra seguir atento, recorro a expedientes cotidianos: um café passado na hora, com uma torrada acariciada por um patê de alho e a calma para o prazer de ter a tarde para desfrutar de alguma serenidade.

Venha, mundo, mas venha preparado para meus ouvidos moucos. A minha surdez é temporária, de quem não lamenta a falsa proteção do precário, que o caos da vida dilacera a fissura, a alma sobe à pele tal qual estalagmite. Esta emersão fere, surdamente pulsa, o cérebro tenta equilibrar-se em desconforto, aliviar-se. Sofro, porque caverna rugosa não é casca, é mais que casa, é casulo das tensões em flor.

Embora possa pouco, não desejo que me assaltem abstinências torpes a violentar-me e a quem esteja por perto. A minha sede mudou de tom. Sei quão distante estou das biritas. Bebo água aos tiquinhos, fazendo bico de pintassilgo. Gorjeio.

Na mansidão que penso estar nutrindo, espero que os males da vida não me enxotem com seus fatos zombando de mim.

Quero folga.

Que o mundo faça a gentileza de entrar em minha casa sem fazer alarde de seus abismos e suas carnificinas. Iludo-me, eu sei.

O mundo não cabe nesta esperança de paz que julgo ter direito a acalentar, é ilusão de parvo, bem sei.

Pó pará?

Antes de pôr os fones, corro os nomes que o algoritmo selecionou por mim. Entre as sugestões, desponta o Prefeitinho.

Topo a parada.

Tão necessária, esta alegria repousa as minhas pálpebras, adoça o balanço dos meus nervos e estimula a bonança do meu recesso, é que Pedro Miranda convida e, Da Gávea para o mundo, eu vou.

Ouvido o disco, finda a festa?

Não rejuvenesço, mas assobio e batuco; ouço de novo.

De boa, que paradinha maneira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de abril de 2021.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Pé de inhaca

 

Pé de inhaca

 

Com os jornais lidos, parto para uma pera. Comer um pouquinho de três em três horas sossega as labaredas do meu estômago.

Poderia jogar a culpa do meu desarranjo na leitura, porém a minha barriga já estava alvoroçada antes do almoço.

Acordei com esta âncora, o asco, a me pesar um bocado. E o mar tão revolto abre úlceras abrasivas que até o bafo fede a brejo.

Nojento, eu sei. E não aceito que me desculpem a transformação da realidade em hálito repugnante. Falta-me filtro, ou alma mais leve.

Mesmo os meus sonhos andam cavando poços sem água. E sem água, a minha saliva azeda borboletas e pirilampos. O recomendável é que eu permaneça quieto, ou dê exemplo de pesadelo ácido.

Incomodado comigo pela falta de equilíbrio, saí da cama como se tivesse realmente comido a noite inteira.

Havia uma comida bastante vistosa, saborosa e... gordurosa.

Uma senhora bem idosa e muito simpática empanturrava-me com pedaços e mais pedaços de cuscuz. Coma, meu rapaz, pois você não vai poder deixar restos deste trem no prato, que este é o verdadeiro cuscuz do Tiradentes. Sem ovo, sem peixe, sem farinha de milho, ele é feito com manteiga de garrafa, farinha de mandioca, torresmo, paio. Continue, rapaz, continue comendo sem medo.

Sem nenhuma razão, fixei que a abençoada de mãos criativas era a mãe da mãe da minha mãe, só porque ela nascera em Minas.

Estou febril, pois não a conheci nem nunca vi uma foto ou pintura retratando esta minha antepassada. Entretanto, mantenho a conexão fantasiosa entre a alcunha do quitute com este vinte e um de abril.

Por suposto, haja calafrios e ferroadas no pescoço!

Puxo o banquinho para ir mordiscando a fruta; passo os olhos pela rua; pouco me interesso.

Não há refresco, a panela de pressão segue no fogo brando do outono. Devagar, com suas presas pacientes, a boca do tempo segue beliscando o viço de toda gente.

Súbito, muitos do cortejo apontam para o céu.

A comichão faz-me subir à laje do último piso.

Fascinado, eu observo a passagem do balão. Meus olhos buscam referências para que me seja possível calcular a velocidade daquela maravilha.

Minha infância rediviva dispensa a física dos materiais. Afinal, ter visto alguma vez a Barcarola do Padre Voador em nada diminui meu deslumbramento com o voo daquele fruto do engenho humano.

Nem preciso divisar quem está na cesta, seja curtindo a amplidão do horizonte ou operando as chamas que mantêm o balão flutuando acima da minha euforia.

Horroriza-me a comparação com formigas.

Pois formigas têm rainha, e suas operárias ralam sem parar pela imobilidade do reino. Carbonário e formicida, o meu sangue ferve ao pensar em submissão natural.

Que ideia revoltante.

Desço. Encontro a gatinha abocanhando as folhas recém-brotadas do milho de pipoca plantado no vaso da citronela.

Desconfio que a minha baba adubaria o broto como pé de inhaca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de abril de 2021.

terça-feira, 20 de abril de 2021

Lembrancinha

 

Lembrancinha

 

Parado na esquina, fumava aquele cachimbo que parecia um sax. O seu olhar cruzava em diagonal o cruzamento das ruas, baforava-o. Mas os olhos não tinham fumaças de Round Midnight, eles não viam do outro lado a casa que, abatida por máquinas e mãos tão afinadas, não se dissipou no ar.

Não se enganava. As substâncias tóxicas do fumo eram boas para acalmá-lo. Para ter a cabeça em paz, era justo que seguisse no vício. Seu corpo tranquilizado, talvez pelo consumo recorrente de nicotina, contribuía para estar no mundo sem pretensões de encontrar o que não buscava. Havia quem explicasse a vida com ideias modernas, ele não, ele fumava. Ainda que soubesse que aquilo que tragava corroía os seus pulmões, aquela fonte de sensações apaziguantes, aquilo o matava tão satisfatoriamente. O pigarro e a tosse eram autênticos.

Os seus pigarros e as suas tosses causavam irritação. Ainda mais em concertos de música de câmara, com viola e violino duelando por acordes pianíssimos. Então, mesmo ele apoiava os olhares ríspidos e cismava consigo que fosse tossir para outra freguesia. Pigarreando, a resignação acentuava a franqueza de retirar-se de ambientes em que sua presença implicava transtornos.

O fundamental era manter-se sereno. Pois a tranquilidade permitia que pensasse sem atropelos. Quando estabanado, errava mais que o tolerado em uma pessoa dada à discrição. Pedia pela ordem, que um passo levasse a outro, sem que expectativas fossem frustradas.

Portanto, tomou o rumo. Tinha compromisso certo. Queria cumprir o seu dever como quem não o toma por dever, porém como um gesto de amor. Tratou de ir num ritmo ajustado ao fôlego, sem que se visse obrigado a um esforço maior. O que iria comprometer a noção de que estava a caminho porque era o certo a ser feito.

Avesso a improvisos, era homem de avaliar. Pesava os detalhes, refutava desvarios, e como detestava sonhos ruins.

Não era uma ideia encarnada, tinha ideais a norteá-lo.

A moderação dizia que antes das imagens nos celulares houve o daguerreótipo. Sim, antes dessas mensagens de voz enviadas pelos zaps da vida, Graham Bell esteve na Filadélfia. Era preciso conservar o que sabia.

Os ventos que agora geram a energia limpa para carros elétricos também moem habitualmente trigo, e não o joio.

Por apreço aos fatos, nunca foi de questionar o seu dever de falar a verdade de modo honesto, sincero, ponderado e comedido. Diante daquelas miosótis tão viçosas sobre a campa, todavia, a sua bengala foi mais rápida ao espatifar o vasinho contra a lateral do sepulcro à esquerda, sem que houvesse como se perguntar quem teria o arrojo de desonrar a memória da sua amada esposa.

Se o incêndio do Museu Nacional não o tivesse distraído, naquela fatídica noite, traria ainda na carteira a foto em que se revela o buquê de hortênsias a autorizá-lo tão legítimo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de abril de 2021.

domingo, 18 de abril de 2021

Gazeta mirim

 

Gazeta mirim

 

Na estrada batida feito palco, ia saracoteando.

Calçando os chinelos nas mãos, a sola do pé gostando de pisar a terra, o menino estava que nem ligava de onde viera ou para onde ia. Pelo jeito que andava, seguia sem destino ou não tinha pressa.

O caminho, na verdade, tinha trechos em que era difícil de vencer por causa das pedrinhas. Na maior parte da caminhada, contudo, ele nem reparava no que ia pisando. Só desviava de bosta de vaca.

Como estrada de pouco movimento, de gente e de carro, então, o menino podia ir ziguezagueando. Ora afundando os pés na terra fofa, ora andando no chão mais firme.

Não passou pela cabeça do menino que foram as águas de chuva que marcaram o terreno. Ele sequer imaginou que lama poderia virar atoleiro. Pensar em trator ajudando desatolar, seria exagero.

Vendo aquelas árvores carregadas, ele hesitava: comer goiaba no pé ou levar tiro de sal nas costas? Fora a fúria dos cachorros.

De repente, um bem-te-vi cantou. Ou melhor, de repente o menino achou de ficar interessado no bichinho que vinha cantando fazia já algum tempo. Aliás, havia muitos bem-te-vis cantando.

O menino remediava os cantores. Gritava em resposta, assobiava, certo de que tinha o dom da imitação correndo nas veias.

Encasquetou: queria ver um de perto.

Quando um deles assentou no mourão da cerca, o menino fez que não era com ele. Caninana desnaturada, deu o bote.

Mesmo sem ter sido atirada com força, a pedra derrubou o animal. Derrubou-o, contudo, definitivamente. Assim parado: que bicho tosco, inerte, coisa mais sem graça.

Sim, o inocente não calculou os danos do seu ato.

Sim, inocente. Não se veja maldade no coração do garoto.

Simples: o menino não escolheu a pedra nem por tamanho nem por formato; pegou a primeira que sua mão alcançou; todavia, a má sorte sorriu-lhe pela precisão que o acaso calhou de dar ao disparo.

Contudo, o menino tinha atitude de toda sorte, uma vez que, meia centena de passos mais adiante, quem disparou foi ele.

Fazendo um alvoroço danado, levantando o poeirão da estrada e assustando os bois do pasto e a passarinhada do mato, uma picape vinha desembestada.

Nisso, uma galinha com seus pintinhos ia cruzando o caminho da 4X4 endiabrada. Sem um segundo de bobeira e agitando os braços feito um doido, o menino foi colocar-se entre a família galinácea que passava e a besta-fera a diesel, cujo motorista foi parando o monstro sem maiores sustos.

Alguém o poderia ver como nobre guardião da natureza. Mas não era isso. É que a galinha não merecia morrer atropelada; ela cairia bem numa panela.

Sim, o maroto inocente gostava do guisado de galinha com batata, cenoura e louro macerado por mãos sabedoras do preparo.

Vá lá que seja.

É direito seu querer saber: o nome do menino; se ele morava com a mãe ou a avó; se a casa tinha geladeira e água encanada ꟷ isso, porém, fica por conta do Censo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de abril de 2021.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Forrobodó

 

Forrobodó

 

Antes que o cachorro vadio seja corrido dali pela mulher brava na voz e nos gestos, diga-se que aquela patota, de mulheres e homens acima dos setenta anos, estava vivamente vacinada: pela expectativa da segunda dose do imunizante contra o corona da Covid-19 e pela alegria de ser pessoa que ama outra sem a cobrança da recíproca.

Então, o carro parou. Dele desceram uma menininha meio tímida e uma mulher dos seus trinta e poucos. O motorista veio em seguida, e saiu acenando e sorrindo.

Fosse dado a comparações, você diria que a figura do homem era similar à do Moisés desentranhada do mármore pelas mãos exímias de Michelangelo. Era visível, havia a tensão dos músculos de quem está inclinado a levantar, porém refreia as carnes, súbito; mais ainda, dava para perceber que havia uma crispação no olhar, de quando o sujeito chispa uma raiva que fulmina os incautos que dão com o furor daqueles olhos.

Foi assim que um daqueles senhores da roda que jogava porrinha reagiu ao reconhecer quem fez a baliza sem passar vergonha.

Cometesse o erro de dizer de pronto as impressões da vida, teria de desculpar-se pela leitura facial equivocada.

O tal rosto, em vez de ira, estava mais pra estupefato.

Saber quem era enfezou o camarada de tamancos rudimentares. Foi um estralo atrás de outro, marcando a contrariedade com aquela presença. Numa tarde linda daquelas, de sol quentinho e uns bandos de maritacas em trânsito frenético, benfazejos ambos, a birra tinha lá os seus motivos.

Pulemos as razões, fiquemos com o congraçamento de abraços e beijinhos a distância, era a mímica de alguma felicidade. Alguma, pois improvável evitar a satisfação do reencontro como felicidade.

Como já ia soando fácil a sanfona que o recém-chegado trouxera consigo, vibravam com a música. E aquilo era bom.

O rancor sumiu na marcação da madeira do tamanco no concreto da calçada. Tinha ritmo o mastigador de fumo de corda. Que cuspia e soltava onomatopeias de incentivo. Fora as palmas irregulares, ainda que no tempo forte do que se estava tocando. Muito eufórico.

Vê-lo motivado animava. Era a deixa aos demais.

Se estava demorando, não mais. Bastou a mulher de chapelão de pescador tirar a esposa para dançar que a poeira do caminho subiu que foi uma beleza.

Tanta alegria, empolgação e riso solto?

Cervejas surgiram. Brotaram porções de mortadela e torresmo.

Oxe!

O sol tinindo. O som bombando. Bailavam à beça.

Curiosa, a vizinhança ocupou janelas.

Quem aprovava, com palmas e assobios, passou a acompanhar o rol de clássicos do Gonzagão. Os do contra, no entanto, apupavam e acusavam que era aglomeração.

Sem quebrar a magia do forró lascado, as parcerias de dança iam se renovando, sem estresse. Todos se divertindo.

Como coisa humana espontânea e entusiasmante, logo chegaram triângulo e zabumba. O pé de serra ficou mais arretado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de abril de 2021.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Urucubaca

 

Urucubaca

 

De copo em punho, quis ver a vida além das vidraças do jardim de inverno. Nesta quadra do outono, com o sol noutro canto, sorvendo o meu cafezinho frio, fiquei passado com tanta gente batendo perna. A peste matando quatro mil por dia e dei de cara com aquela multidão apostando contra a própria vida.

Olhei as horas no celular. Passava das cinco. Das cinco!

Curioso o que ocorre com esta minha mente, deveras humana.

Depois do almoço, deitei no sofá para tirar minha soneca habitual, só que ronquei pesado até acordar, já quase na hora da janta.

Achei que conseguiria recuperar a tarde perdida, mas o tapetinho do banheiro cortou a minha afobação. O batente, fortaleza inconteste, proibiu-me outra queda. Para não produzir maiores estragos, tomei os remédios mesmo fora do horário. Pedindo que a inhaca sumisse ralo adentro, lavei o rosto, mas o espelho sequer me devolveu o sorriso.

Barquinho ao léu das águas calmas, de passada em passada, vim abalroando de leve as paredes. Com os remos fora d’água, isto é, as mãos garantindo-me uma trajetória menos bêbada, os olhos tomaram pé da situação. Comigo andando sem abusar, procurando conter meu impulso de acreditar nos meus ouvidos afogados de sono, deixei que o corredor aprumasse-me o juízo até que a espinha ficasse ereta sem a ficção dos alongamentos bem aplicados.

Minha estupidez impede-me de compreender claramente o que se institui na minha frente. Sem pata de coelho nem raminho de arruda, o mundo tem outras prerrogativas.

Para embaralhar de vez as cartas na mesa, já que não vejo a rua que desejo pulsante na rua que vejo às cinco da tarde, acabo indo na onda do meu corpo. Tocado pelo amor ao próximo, o meu organismo traduz as sensações em ideias sensatas, embora dissonantes.

Nem surdo nem cego, observo. Vou aturando.

No cotidiano, dois espelhos colaboram comigo na tarefa de querer enxergar com alguma lucidez as circunstâncias de estar vivo em meio às tramas do tempo e do espaço, e consulto-os.

No banheiro, no primeiro deles, evidenciam-se as rugas que a lida com a fome e o medo tem-me vincado sem trégua desde que nasci.

No segundo, dado à mercê de sua leitura, fabrico alguma face que não lhe seja por demais indigesta, textualmente opaca.

Muito do que faço, muito disso, falha e magoa, mas, pobre-diabo, o trabalho me seduz, e sorvo este encantamento. Como pensamento mágico tem capacidades, sinto que, revolvendo o lodo obscuro onde o ofício conta comigo para fazê-lo, posso registrar névoas.

Mas, que fotografam minhas janelas?

Com o horror convertendo-se em terror, o abismo avança sobre o chão da casa. Assim, tardança alimenta-se de esperança.

Para extrapolar as cabalas da urucubaca, de viva voz, pedindo por saúde, alegria e sensibilidade, esta crônica reproduz a transcrição fiel da gravação que fiz de mim por livre e espontânea vaidade.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de abril de 2021.

domingo, 11 de abril de 2021

O espectro

 

O espectro

 

Diante da cena, faço o possível para me aquietar na cama. Com o indicador direito, marco O amor acaba. Sem êxito, ronrono à gatinha. Protegido da claridade do sol, o meu olhar não a convence que valha a pena enfrentar a cegueira momentânea. Os raios brincam com as partículas em suspensão; a poeira do mundo retribui com sua canção de arco-íris fugaz. Risonha, a felina desdenha dos flocos iridescentes. Deslumbrado, avento um diálogo entre sombra e sol; por sua vez, a gata mordisca a franja do tapete. Não ignoro o que me perturba.

Fascinado, nem sei em que termos proporia o papo. As sensações reagem à imagem do instante memorizado. Mas a natureza não para, e a vida segue. Há este domingo, ainda há.

Como fotografia, o domingo não se espraia em mim, uma vez que este dia está represado. Uma coluna de minério líquido. Entre a areia que corre nas veias e o desejo de expelir a desdita, rins e bexiga não exalam anis, emanam o chorume de enxofre.

O que posso fazer quando o domingo machuca por dentro? Nada, pois não conheço a dor se não a experimento. E padeço saber-me.

Muitos odeiam as segundas-feiras. Eu odeio ter de suportar o que não passa. Nada contra a segunda que virá. Por que ainda não veio? Porque não jogo às costas do amanhã a minha fraqueza para desviar o pensamento da ideia fixa, centro gravitacional a exercer influência.

E sigo a maçã desenhando uma espiral rumo ao ralo.

Portanto, mesmo sem pia, água e maçã, mordo a isca de ilustrar o meu desassossego como uma questão física. Sem alívio da pressão.

Eu, pecador por omissão, confesso minha imobilidade diante das atrocidades. Sequer lastimo o sentimento que me condena. Devasso, cuja carne baila uma bile asquerosa, e dolorida, sonho que bailo.

Maior a raiva se erro as palavras para tanto nojo.

E a segunda-feira nem desconfia que estou longe de querer uma vida ascética, menos caótica.

Nem pisco. Ressecados, os meus olhos pedem colírio.

Ver dói. Com olhos lúcidos, é dor que corrói.

Fraco, não enfrento os meus fantasmas. Eles não me desnudam o vazio do coração, traçam-me em espectro.

Ele anda, vê e sofre.

Subo a rua. Ali ficava a albina cega que vendia gardênias. Acolá, o falastrão dos hambúrgueres caseiros. Quatro palmos além, com um arbusto de permeio, passa a professora do segundo ano primário.

O pé do arbusto fede a mijo de cachorro.

Debalde, Baudelaire, procurá-lo na multidão. Suas asas imensas de albatroz sombrio nos ares rubis tornam ridículos meus passos de fogachos fátuos. Desisto, como covarde que sou, desisto. Mal diviso o caminho de casa. Hipócrita, lamento os insubmissos sem máscara. Soubesse como, legaria ao mundo um devaneio menos cretino.

É a mesma a que me desorienta, a razão pela qual me oriento?

Senhora de suas carências, a gatinha bate na bolinha de papel e vai batendo. A serelepe sabe que não perde a razão quem tem ração.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de abril de 2021.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

A joaninha

 

A joaninha

 

Alma confusa, sem saber ao certo se a lente do bom senso estava suja ou arranhada, era-lhe recomendável pisar de manso no freio até alcançar uma área de descanso, ainda que a caravana não pare.

O fluxo do amor-próprio conhece a acidez das mágoas, entretanto, não iria bastar uma vista aberta, ampla, da gloriosa enseada ao pé da serra. Não se duvide, o estado deplorável da percepção de si carecia da luminosidade única de um céu sobre o litoral, mas a autoimagem talvez melhorasse com a identificação do que embaçava a visão.

Exagerada, a autoestima aumenta a gravidade das feridas, assim as dores ganham cores berrantes, sufocantemente cruas, pincelando com vitalidade excruciante o pútrido, o nocivo, o doentio. Belo retrato, porém, bastante sofrido.

Quiçá o processo de superação dos desequilíbrios passe por uma visão menos impiedosa, mais racional, com salutares copos de água e banhos de sol. Quem sabe uma garoa prazenteira ajude a cabeça a sintonizar-se com os pingos das madrugadas relaxantes.

É a vida que sopra?

Sim, o vento leva milhares de anos para fazer-se notar na pele de uma pedra; já a brisa de um desejo nomeado de repente faz arisco o móbile de flutuações incontroláveis. Embora algum matemático possa calculá-las, prevê-las, a beleza está no diálogo do invisível que passa com os objetos que manifestam a intensidade dessa passagem.

Enfim, a mente escolhe respirar.

Mas, ter um respiro não é agir como respiro. Daí a necessidade da desaceleração, porque é preciso ganhar fôlego, sem retroalimentar o ciclo da autocombustão.

Pelo espetáculo do fogo, fogueiras extasiam. Selvagens, calcinam o que haja para esgotar; domadas, convidam a folguedos sob o céu.

Então, sem queimar a largada, minha dignidade chamuscada por lambidas de labaredas tão atuais, muito reais, exasperantíssimas, ela me pegou pela mão e fez-me tirar um momento com quase nenhum estresse, algumas felicidades enevoadas pelas fumaças da vida e um tronco no qual ainda se pode ler, apesar da pátina da memória em brasa adormecida, o entalhado de uma história.

De visita emocionalmente monitorada, para evitar contaminações com o que tenho de desastrado. Pois costumo esquecer a máscara no rosto e, já aflito de tê-la deixado em lugar que me escapa, busco o alento de não me reconhecer um estrupício sem espelho algum.

Como ia dizendo...

A minha dignidade propôs um passeio pelos campos da nostalgia, lá não crescem girassóis potentes, não crocitam corvos impertinentes nem germinam chávenas de láudano.

Comigo a imaginar o meu passado mais familiar, surgiu um gato.

O gato serpenteia o rabo. Estará bravo?

Como esfinge, olha para a frente. Na direção, só vejo a parede.

Ele se vira para mim, e mia. Ele se vira para a parede, e mia.

Olho. Olho e vejo. E sorrio.

Se uma joaninha vive em meio ao caos do mundo, há esperança.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de abril de 2021.

terça-feira, 6 de abril de 2021

O importante

 

O importante

 

Nem toda pessoa está preparada para escutar que fez uma coisa muito importante. Quando está preocupada com algo mais importante do que ter reconhecido o valor do que tenha feito, então, tal pessoa é pega no contrapé. Irritada, ela chega a pensar que aquilo só pode ser brincadeira. Uma graça que não agrada quem faz a sua parte.

A parte que estão sempre pagando para ver?

Entrou no caminhão carregado na fábrica. Dirigiu-o pela tarde toda e parou para uma ducha morna no posto. Cobrindo o torso com uma manta tecida por mãos tão íntimas dos humores da lã das coxilhas, o sereno da noite que vinha encantando o luar da cheia de abril não ia encontrar uma brecha mínima para surpreendê-lo desprotegido. Veio, primeiro, a porção do carreteiro estocado na boleia; depois, o mate. E a bomba cantou até que os ossos acalmassem a carne. Serenado, o esqueleto colou o rosto na musculatura, para o sono bailar seu tango. Mal o galo tinha sido acionado pelos piparotes da alvorada, o pé na estrada pediu a média melada e os quatro pãezinhos na chapa, pois o local prescrito no conhecimento tinha por lei fechar para o almoço. Saudoso dos seus, se apressou para ver descarregada a carga.

Para que a corrente avance, mas não se rompa, já pulamos para o instante em que a pessoa escolhida vem a ser aquele consumidor de meia idade flanando de posse de um carrinho quase cheio, uma vez que sua boca meio voraz, além de coberta pela máscara obrigatória, tem a cobiça castrada pela carteira quase vazia.

Mesmo com os vinte e sete graus da tarde, ele tem frio na careca, não vergonha, daí o boné. Também não aprova quando o acusam de estar acima do peso porque a sua barriguinha, de salgadinho sabor churrasco com a cervejinha no ponto, revela que o verdadeiro homem de família dá valor a festanças efetivamente festivas.

Coloquemos nosso homem na fila.

Satisfeito consigo pela oportunidade de ter a ideia de substituir o ouro de uma assanhada picanha na grelha por um escondidinho de coxão duro, mas isso só se tornou supimpa uma vez que o preço da mandioquinha estava mesmo uma loucura.

Querendo mostrar-se um cavalheiro das antigas, tão logo bateu os olhos na loira de uns trinta anos segurando um pacote de biscoito de limão e uma embalagem de absorvente, nosso cidadão cedeu a vez.

Sem pensar duas vezes, a mulher aceitou. Pagou e foi-se embora. Teria audiência virtual em menos de uma hora e queria estar segura de sua fala sobre os aspectos legais favoráveis a quem a contratara.

Agora, educadamente, modifiquemos a situação.

O nosso homem de bons modos, sem pestanejar, ao virar-se e vir um rapazote com fones devorando um pacotão de algo fedido como cebola, foi logo dando a vez.

Aqui, a civilidade fica estampada?

No entanto, eivados de esperança, já que fizemos a nossa parte, pensamos: oxalá, com leveza no coração, você tire suas conclusões.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de abril de 2021.


domingo, 4 de abril de 2021

Partilha dos ovos

 

Partilha dos ovos

 

Passei uma semana infernal. Todos passamos. Não, a maioria de nós passou; portanto, nem todos. Vacinados ou ainda não vacinados, conseguimos. E havemos de seguir conseguindo.

Por compaixão e pudor, pouparei você de uma peculiaridade tão minha que é carregar nas tintas dramáticas, patéticas e escabrosas quando perco a noção da realidade.

Embora continue envolvido por situações ordinárias, pelas tarefas que fazem o cotidiano de pessoa de rotina modesta, que trabalha em casa, paga as obrigações fugindo das filas, ouve alguma música no telefone depois das refeições, saboreia os livros salvos da borrasca em que a catástrofe sanitária surpreendeu quem ia vivendo cada dia, e conversa face a face com os íntimos do núcleo familiar e a distância com meia dúzia de amigos, então, apesar dessa pacata normalidade, basta adoecer... e exagero.

O mundo está um caos. No Brasil reinam as trevas. Ninguém ama ninguém. Tudo está por um fio.

Amo o que faço, amo quem me ama e o amor estimula à chave. E, às portas do fim do mundo, trancando-as, deixa zumbis, vampiros e a matilha de mulas sem cabeça do lado de fora.

Fosse assim, seria apenas mais uma historinha cheia de teias. Só que não é outro conto de fadas narrado por um energúmeno.

O amor não é panaceia. Mas ele entra para dar estabilidade à liga dos ingredientes. Fazendo a massa crescer, dando textura ao manjar, tornando apetecível a realidade.

Haja tripas para aguentar o baque.

Tomava eu uma chuveirada para esfriar a cachola, quando vieram os arrepios. Senti a tempo, aquilo nada tinha que ver com as rajadas de outra tarde outonal. Fechei o vitrô. Que descuido.

As atualidades ajudam a embrulhar meu estômago. Desconfiado, recuso o requeijão. Raciocino que o pior vem aí, e corto a cocada.

Queria fugir. Precisava ir para um tempo em que nem sabia o que significava segurança.

Amparado às pernas de minha mãe no pátio da escola, ignorava a aparição inflamada da metralhadora de bigodinho anos quarenta que, com seus perdigotos gagos, fulminava o público (professores, alunos, funcionários e pais convocados) lá de cima, lá do alto, da mureta do primeiro andar do grupo estadual.

Entre lembrar algo daquele discurso sobre alguma coisa redentora e recordar os joelhos maternos? É óbvio que não vou mentir.

Além do mais, eu deveria mesmo era ter-me controlado e evitado o horror de associar os pingos do chuveiro a uma miríade de agulhas ávidas para anestesiar-me pelos miolos.

Hoje, recuperado com a dieta sem gordura, longe de frutas ácidas, comendo macarrãozinho ave-maria com batata sem sal, repasto que a memória sabe de cor, dou-me conta: preciso ir comprar ovos.

Hoje é Páscoa.

Entre a saudade da comida amorosamente dada a convalescentes e a esperança de que a peste passe de vez, separo meia dúzia para cozê-los e a outra metade decido chocá-los.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de abril de 2021.

terça-feira, 30 de março de 2021

A guerra e a paz

 

A guerra e a paz

 

Janeiro, reencontro no supermercado um grande amigo que havia muito não abraçava. Por força das circunstâncias sanitárias, porém, guardamos distância e tentamos balbuciar afabilidades. Meio insanos, como Crusoés numa daquelas ilhas voadoras de Gulliver.

Curioso. Encontrá-lo fez-me recordar da sua mãe, que costumava usar destrancar em vez de desatravancar. Explico. Como as casas de nossas famílias ficavam uma diante da outra, nessa infância longe da escola, volta e meia estávamos os dois a atravancar a passagem com brinquedos e bugigangas ꟷ estas, geralmente pedras e paus para as barulhentas, mais do que sangrentas, batalhas entre a rua de cima, a da nossa turma, e a de baixo, que era o território dos adversários.

Interessante. A memória traz certos aperitivos que põem a gente levemente bem, nostálgica. No labirinto de sabores, sensações, fatos e histórias, o fio da lembrança enovela e confunde. Todavia, isso não embaraça ou tensiona a ponto da ruptura. Mas há que se fazer algum esforço para não sucumbir a melancolias lacrimejantes.

O tal do nó na garganta pede pigarro. Às vezes, outro; e outro.

Quando vejo, estou na manhã do meu aniversário de sete anos. A minha mãe vai colocando o recheio nos pastéis. Ora queijo, ora carne moída, ora frango desfiado, ora linguiça esmigalhada.

Se era aniversário, só poderia ter acontecido no domingo. Porque nessa época, nos anos setenta do século vinte, os aniversariantes lá da nossa casa não contavam em querer quebrada a seguinte regra: os adultos tinham direito a comer pizza e tomar umas três garrafas de cerveja no sábado à noite, antes das dez; as crianças ganhavam bolo e os parabéns no domingo à tarde, antes da missa das seis.

Como não havia quem ousasse pedir para festejar o nascimento na data mesmo do dia em que nasceu, tudo era uma tranquilidade.

Normal, o mundo não ostentava fossos nem barricadas. Juro.

Com a minha mãe sempre disposta a dar o melhor de si, ninguém iria fazer questão de comemorar no meio da semana. Afinal, a alegria estava em reunir os parentes mais próximos. Dependendo do mês, os amigos da vizinhança, menos os colegas de igreja, trabalho ou grupo escolar, também eram convidados.

Quando fiz oito anos, porém, deu-se uma confusão. Foi empurrão; veio xingamento. Tomou tapa; levou cusparada. Depois, foi soco com soco. Rolaram no chão. Sem bolo cortado, a festa foi um fiasco.

Nunca mais comemorei aniversário com vela que não apaga fácil. Nunca mais abri presente com bilhete cordial.

Hoje, em plena pandemia, ainda que mamãe não estique mais sua massa caseira, peço pizza por telefone. Até na terça.

Pensando tristezas, sobrevivo.

Janeiro, aziago janeiro, mais um desses meses infaustos, porque, três semanas após nos encontrarmos, aquele meu velho parceiro das batalhas perdidas foi vencido pela covid.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de março de 2021.

domingo, 28 de março de 2021

Antes tarde do que nunca

 

Antes tarde do que nunca

 

Indignada, germinando em oportuna indulgência, a memória traz à tona algumas fotografias. Numa delas, com a imparcialidade do olhar realista, vê-se uma criança rechonchuda: o pijaminha assemelha-se a um quimono e o sorrisão nada budista risca dois olhinhos vivamente orientais nesse guri de uns dois aninhos de existência.

Sem saber-se gente, como toda pessoa humana nessa idade, cuja curiosidade talvez nem esteja em buscar explicações enquanto brinca com os gestos replicados pelo espelho, essa criança que fui era uma usina em potência transformadora.

Então, confirmando muitas daquelas expectativas mais negativas, o bebê transfigurado no beberrão universitário está precisando urinar. Pelo tanto de cerveja tomada à beira do lago do Ibirapuera, precisa.

Contudo, sem chance de chegar à ponte do jardim onde nadam as carpas mais belas que sua imaginação possa conceber, e sem poder contrastar a imagem já formada entre os bons cidadãos muito críticos diante dessa atuação pública em plena tarde de sol, eis que, certo de estar escondido atrás do tronco daquele ipê sem flores, alivio-me.

Assim como a Terra gira, circula outra lembrança.

Com uma bolota de massinha do que quer que seja, faz a isca, e o anzol logo boia no tanque das tilápias. Os companheiros de pescaria pegam uma fieira de peixes que voltam à mesa já em tirinhas cruas à disposição da raiz forte, parceira de um gole generoso de saquê.

Comendo sashimi, sei que não honro o pescador que meu avô foi.

Lamentável, jamais fui capaz do privilégio de exibir a carpa imensa numa banheira, conforme um dia fez o pai da minha mãe.

Algo tão memorável nem esta pandemia haveria de apagar. Afinal, todo caçador de monstros mais se agiganta quando desafiado.

Que pena. Em mim não pulsa oceano algum.

Confinado idiota, irei afogar-me num conta-gotas?

No fundo, a imaginação hiperbólica aponta que a história alimenta quando o remorso intoxica. Em outras palavras, não basta sobreviver, é preciso saber conviver.

Lamentar-se da cova rasa dos mortos é fraternidade; confrontar os que a multiplicam aos milhares é irmanar-se; punir os responsáveis é assegurar materializado o direito à vida. Porquanto, além de conforto, respeito e justiça, é preciso expressar civilidade.

Política bem pode pressupor a prática pelo bem-estar de gerações de pessoas que interagem em um determinado espaço, tanto urbano quanto rural, embora isso pouco magoe os idiotas insensíveis.

Nada energúmeno nem imbecil, este escriba faz-se passar por um intrépido pacóvio? 

Não, fui um dia informado como Jonas foi parar em Nínive.

Não, aprendi que Moby Dick não é peixe.

Não, sei bem que piracema vem do tupi.

Por sinal, sem rede nem arpão, sigo à margem.

Aliás?

De pouco adianta ter um abridor se a lata aberta é que fecha este retrato indignado de sardinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de março de 2021.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Coragem iconoclasta

 

Coragem iconoclasta

 

Disse alguém muito importante que a vida é uma doença incurável sexualmente transmitida; como filho sem filhos, prefiro nem pensar no assunto nestes termos. Pegando leve, digo que vivo a vida como uma história culturalmente transmissível.

Feitos e desfeitas podem ser compartilhados, mas sem o peso de uma jornada que force virar-se com preceitos filosóficos. Por pedirem definições semanticamente precisas, axiomas tão abstratos poderiam atrapalhar o bom andamento de uma crônica, gênero justo a quem de fôlego, digo, de memória de tiro curto.

Petulante, corrijo: é assim que me apetece entrar no ritmo.

Para gravar a dança da vez, já com a noite vindo devorar a tarde, fiz o balanço de modo prudente, ponderei o relevante do vivido com a perspectiva de gente entocada e afiancei que tudo foi por respeito.

Por medo e respeito, o dia passado em casa.

Veja só. Prontamente, admito a necessidade de sua aprovação. E emendo que aceite emprestado o meu olhar, porque certamente você lerá com um juízo menos estúpido o que vim passando até aqui.

Sim, esta minha estupidez condicionada pelo medo impede-me de vislumbrar com nitidez o presente desta pessoa reclusa em ambiente bem sujinho, carecendo de uma limpeza geral e ampla.

Tocou o telefone. Precisando fazer a tal faxina, desliguei-o.

Começaria pelo quarto, porém, aquelas teias de aranha infestando o corredor logo me desviaram a eliminá-las com vassoura.

Como aracnídeos não são o meu forte, tratei de livrar o teto com cuidado. Ágil e rápido, com a precaução dos ressabiados.

Achando que precisava de ânimo, selecionei o terceiro movimento da sétima do Beethoven.

Enlevado, pus no limite recomendado a altura do som.

Quando ajeitava a segunda cadeira sobre a mesa, lá se foram ao chão os fones e o celular. Uma vez que uma das quinas, nem sei se do tampo ou do assento, tratou de confrontar o meu pique.

Não desisti.

Repus os fones. Tocando do começo, perseverei.

No rodo, o pano seco, depois o úmido em lavanda rosa-choque.

Subi a escadinha, e arrumei as bugigangas sobre o guarda-roupa. Do topo daqueles quatro degraus, saltei; desafiei-me a fazê-lo.

Sei que está sorrindo. Aliás, soltaria uma gargalhada mefistofélica se acaso fosse dado a vilanias cínicas.

Modesto, aceito a consciência de que pode mais quem transforma a realidade do mundo, mesmo a partir do lar.

A névoa do espelho flagra este ser revigorado.

Ainda tenho cabeça para morder o osso. Pois viver não é nenhum troço danado de irônico. Se fosse, haveria sarna partindo do sangue até corromper a pele.

Sem a coragem iconoclasta de negar-me exemplo, eu mesmo vou à lixeira depositar o saco do dia. Para não embaçar os óculos, respiro aflito. Temendo o vexame de tropeço, firmo o passo.

Já preguiçoso, sinto a noite safada regurgitando meu tutano.

À pacífica aurora, direi: bem-vinda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de março de 2021.

terça-feira, 23 de março de 2021

Meio impedido

 

Meio impedido

 

Louco para ser feliz, a folha-seca foi de bate-pronto.

Para tirar o sono pela espinha afora, a planta do pé direito sentiu o quão gelado estava o carpete de madeira do quarto.

Que gelo danado. Não era de graça que os pelos ficavam eriçados a cada lambida do vento.

E a janela fechada não era barreira alguma. Nem ligando para as cortinas, o bicho rosnava pelas frestas da veneziana; dava arrepios.

Matreiro, por um instante, o assobiador dissimulava que tinha ido embora para, até mais gélido, soprar de novo o ramerrão do outono.

Uma coisa irritante, chata; ainda mais às seis e meia.

Que fossem seis e meia; elas, contudo, eram de um sábado.

Perderia a alegria de ter acordado mais cedo apenas para seguir à risca as ordens do dia. Pulara da cama certo de que poderia ser infiel aos aborrecimentos da rotina. Seria triste se fosse obrigado a simular algum fugaz rompimento do sistema nervoso.

De segunda a sexta? Que belíssimo filho ele era. Se a várzea tem suas regras? Ele contava com a dispensa da obediência óbvia.

Daí a entusiasmante sensação de felicidade, porque sábado, todo sábado, era especial; em sendo dia de jogo, o mais aguardado.

O único da semana em que podia jogar futebol com os amigos. E a semana inteira, todinha ela, demorava uma eternidade para passar.

Como era sofrido ter de esperar que voasse de vez o chupinzinho saído do ovo chocado pela noite de quinta para sexta. Da sexta para o sábado, melhor nem tocar nisso. Para não gorar.

Já para não fazer gol contra, mudaria o foco.

Então, um craque não se deixa abater; com um drible endiabrado ele rompe qualquer retranca: dormir na sexta, acordar no sábado.

Tinha lógica esse negócio chamado tempo.

Por isso, o moletom, que foi redondamente ignorado pelo radar da visão, ficou caído aos pés da cama.

A camisa do time esquentava que era uma beleza. E bastava.

Como a sua mãe não entendia nada daquele encantamento: fosse pôr um agasalho ou, nu daquele jeito, iria apanhar um resfriado.

Para ostentar seu nome acima do número três às costas, vestiu a blusa por baixo do manto sagrado.

Reparando nos seus gambitos de fora, a sua mãe mandou trocar o calção por calças compridas. De imediato.

Para não levar cartão vermelho mesmo tomando um carrinho por detrás, achando que se encontrava oficialmente num vestiário, virou narrar o que ia vestindo: meião, chuteira, calção, calça, camiseta, e o boné do time do coração.

Tudo certo? Nada feito.

Podia ir baixando a crista, pois não tinha nenhum cabimento sair de casa para jogar bola com tudo aquilo que estava acontecendo na família, na rua, no Brasil e no mundo.

Com o coronavírus matando gente adoidado, o assanhamento era um acinte, uma infantilidade. Sinal de que merecia ficar de castigo?

Ficasse feliz da vida, pois iria poder jogar videogame infinitamente das dez até o almoço, e sem precisar de intervalo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de março de 2021.

domingo, 21 de março de 2021

Dragãozinho dos bons

 

Dragãozinho dos bons

 

Por jeito e gosto, tentados a desencaminharem-se do espontâneo, na lida moderada pelos mundos de tantas outras convivências, cada qual cuidando de si, vai daí que voltaram a ver-se.

Todavia, depois de passadas já umas boas décadas, talvez umas três ou beirando isso, deram-se um defronte do outro. De imediato, foi pelo jeitão selvagem que se reconheceram.

Eram amigos. Muitíssimo, aliás. Seguiam achando que eram.

E era amizade que vinha desde... Como assim, desde o quê? Ora essa. Amigos de infância não têm nenhuma dúvida quanto ao tempo transcorrido ou ao grau da intimidade. Caramba. Eram amigos desde sempre, como diz o chavão de perene autoridade.

Conscientes dos protocolos, mandaram às favas os rigores, e logo estavam se abraçando. Dando aqueles sacolejos de velhos parceiros.

E era tal a euforia contagiante da identificação plena que eles nem ligaram para o que ocorria ao redor. Tamanha era a cumplicidade que o entusiasmo já os foi impelindo a sentar-se a uma discreta mesinha de canto. Mesmo com o dono sendo intimado pela gerente contrafeita a vir ao estabelecimento resolver aquele problema, a eles não parecia que havia caso algum a ser esclarecido.

A vida andava muito chata. As pessoas perdendo a liberdade de ir e vir. Uma gente sem noção se achando no dever de censurar ideias. Um pessoal autoritário querendo tirar das redes comentários, memes e gravações. São esses grupelhos sustentados sabe-se lá por quem que fazem o que fazem porque a lei os protege. Uma aberração.

E a situação era simples. Aliás, muito simples.

Pediam que fossem atendidos sem picuinhas. Sairiam contentes com a prosa de camaradas da longa estrada. Não sairiam satisfeitos com um pastel chocho. De fundo, estava o Elvis mandando bala.

Respeitavam-se pela fraternidade tão longeva, de irmãos.

Mais do que coleguinhas de carteira em escola tão ordeira, mais do que coroinhas entediados em celebração rezada a meia dúzia de carolas de bíblias surradas, mais do que uma duplazinha da fuzarca nos bailões embalados a hi-fi, os bons rapazes de escassas cãs bem prateadas rejubilaram-se pelo reencontro armado pelo destino.

E aproveitaram o tempo que tinham da melhor forma que sabiam: elogiaram-se com obscenidades; desdenharam das rugas; louvaram o vigor como um verdadeiro troféu; elencaram as vitórias dos filhos já muito bem remunerados; feito gatinho tocando piano, escancararam a peraltice dos netinhos espertíssimos.

Não deu outra!

Aquilo iria mesmo mexer com eles. Afinal, eram pessoas de carne e osso. E, sinceramente, nem precisaram falar nada, pois não tinham vergonha de uma amizade tão apropriada.

Ligeirinho foi logo sacando a nota de cinquenta. Escolhendo a de cem, Marcha Lenta desculpou-se por não ter mais trocado.

Com o dragão da lealdade desfraldado no ar, despediram-se.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de março de 2021.