A
guerra e a paz
Janeiro, reencontro no supermercado um grande
amigo que havia muito não abraçava. Por força das circunstâncias sanitárias, porém,
guardamos distância e tentamos balbuciar afabilidades. Meio insanos, como Crusoés
numa daquelas ilhas voadoras de Gulliver.
Curioso. Encontrá-lo fez-me recordar da
sua mãe, que costumava usar destrancar em vez de desatravancar. Explico.
Como as casas de nossas famílias ficavam uma diante da outra, nessa infância longe
da escola, volta e meia estávamos os dois a atravancar a passagem com
brinquedos e bugigangas ꟷ estas, geralmente pedras e paus para as barulhentas, mais
do que sangrentas, batalhas entre a rua de cima, a da nossa turma, e a de baixo,
que era o território dos adversários.
Interessante. A memória traz certos aperitivos
que põem a gente levemente bem, nostálgica. No labirinto de sabores, sensações,
fatos e histórias, o fio da lembrança enovela e confunde. Todavia, isso não
embaraça ou tensiona a ponto da ruptura. Mas há que se fazer algum esforço para
não sucumbir a melancolias lacrimejantes.
O tal do nó na garganta pede pigarro. Às
vezes, outro; e outro.
Quando vejo, estou na manhã do meu
aniversário de sete anos. A minha mãe vai colocando o recheio nos pastéis. Ora queijo,
ora carne moída, ora frango desfiado, ora linguiça esmigalhada.
Se era aniversário, só poderia ter
acontecido no domingo. Porque nessa época, nos anos setenta do século vinte, os
aniversariantes lá da nossa casa não contavam em querer quebrada a seguinte
regra: os adultos tinham direito a comer pizza e tomar umas três garrafas de
cerveja no sábado à noite, antes das dez; as crianças ganhavam bolo e os
parabéns no domingo à tarde, antes da missa das seis.
Como não havia quem ousasse pedir para
festejar o nascimento na data mesmo do dia em que nasceu, tudo era uma
tranquilidade.
Normal, o mundo não ostentava fossos nem
barricadas. Juro.
Com a minha mãe sempre disposta a dar o
melhor de si, ninguém iria fazer questão de comemorar no meio da semana. Afinal,
a alegria estava em reunir os parentes mais próximos. Dependendo do mês, os
amigos da vizinhança, menos os colegas de igreja, trabalho ou grupo escolar, também
eram convidados.
Quando fiz oito anos, porém, deu-se uma
confusão. Foi empurrão; veio xingamento. Tomou tapa; levou cusparada. Depois,
foi soco com soco. Rolaram no chão. Sem bolo cortado, a festa foi um fiasco.
Nunca mais comemorei aniversário com
vela que não apaga fácil. Nunca mais abri presente com bilhete cordial.
Hoje, em plena pandemia, ainda que mamãe
não estique mais sua massa caseira, peço pizza por telefone. Até na terça.
Pensando tristezas, sobrevivo.
Janeiro, aziago janeiro, mais um desses
meses infaustos, porque, três semanas após nos encontrarmos, aquele meu velho parceiro
das batalhas perdidas foi vencido pela covid.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 30 de março de 2021.