quinta-feira, 18 de março de 2021

Louco melancólico

 

Louco melancólico

 

Entre o sonho e o devaneio, saio empurrando o carrinho de outra pessoa. Sem ter como negar a materialidade do meu descuido, faço o que me cabe, devolvo-o à mulher que o reclama rispidamente. Frutas e legumes já ensacados apontam-me culpado, portanto, sorrio.

Na atual conjuntura, com uma súcia de negacionistas colaborando para a alarmante disseminação geométrica do coronavírus, responder sorrindo às inconveniências nem alivia pressão intracraniana alguma.

Arrisco dizer que talvez a maioria compartilhe da sensação, como se a expansão da consciência estivesse em evidente embate com as estruturas óssea e encefálica da cabeça.

Sabe aquele troço que não para de ficar latejando? Sinto isso.

Acresço que minha mente, turbinada normalmente pelo mundaréu de contraditórias ideias desconexas, vem provando do veneno que a falta danada de prudência tem produzido diuturnamente.

Virei um operário de decepções. Sério, até dormindo.

Também pudera, os recorrentes mal-entendidos parecem presos a um carrossel, cuja fonte elétrica está num sítio de dificílimo acesso.

Lamentável, o lugar radicalmente oposto a tal fonte de angústias, o éden tranquilizante, não está imune à realidade, portanto sofro.

Sem pensar em abdução, conjecturo ir para lá.

Existir, existe. Mas, fora de tempo e espaço. Utopia é seu nome.

Como banana prata, poderia estar à venda.

Tão nutritiva... Tão barata...

Vejo a fila do açougue. Adeus, meio quilo de patinho moído.

Temendo que um ato fortuito possa potencializar o pandemoníaco da pandemia, considero adequada a distribuição dos fregueses pelo mercado, porquanto me preocupa bastante a dispersão de gotículas suspensas no ar.

É óbvio! Fio-me nos conhecimentos especializados de cientistas, infectologistas e epidemiologistas, por isso, acho-a adequada.

Como estou suando frio, e suponho que outros indivíduos também estejam sob o estresse de estar à beira do pânico, o que mais quero neste momento é desviar os meus pensamentos do lockdown.

A ansiedade generalizada apodera-se de meus nervos, passando a impressão de alguém a ponto de perpetrar alguma aberração.

Todo desajeitado atrás da máscara periodicamente ajustada sobre o nariz, confiro besta a lista enquanto a funcionária, perguntando-me se desejo mais algum produto, agita no ar os pacotinhos de muçarela e peito de peru já pesados.

Louco para higienizar as mãos com álcool gel sem nem mesmo ter tocado o que quer que seja, vou pegar a berinjela que ficou por último na lista porque só fui lembrar-me dela à saída de casa.

Cá entre nós, aprisionado vergonhosamente à bolha de um radical ensimesmamento, por talvez estar traduzindo a tristeza feito um boçal zanzando num ambiente fechado, vou apelar para a ignorância: este louco melancólico nem sabe diferenciar salsinha de hortelã.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de março de 2021.

terça-feira, 16 de março de 2021

Desaprendiz

 

Desaprendiz

 

Como tsunami, a fúria de notícias tenebrosas passa varrendo com uma ferocidade desconcertante. Em meio a tal furor, como tábua para evitar imediato afogamento, o que me resta de lucidez cobra de mim dar maiores atenção e tempo às ações que, antes do maremoto viral mortalmente descontrolado, por epicentros móveis e gerenciamentos de variáveis magnitudes, considerava pedestremente cotidianas.

Como se vê, viver é pegar um touro à unha.

No entanto, a luta pela vida sempre esteve estreitamente ligada à sanidade individual, que não se separa do embate pelo bem-estar do núcleo familiar, que não se isola do conflito pela felicidade social.

Falo de gente que aquece ou esfria bancos de praças, parapeitos de viadutos, vagas de garagens e a minha cadeira.

No fundo, meço a qualidade de vida pelas variações de calor.

Há vezes que ponho lenha na fogueira quando quero entender os vaga-lumes do que leio. Querendo-os dragões, não basta que brilhem às piscadelas. Sem medo e com alegria, palavras, soltem fogo, façam arder. Pois, não temo o calor humano.

Até passei a manhã às voltas com uma febre.

Primeiro, bom mesmo foi ficar debaixo do lençol por causa de um pernilongo. Não que tivesse pensado em dengue, o zunido é que me irrita um bocado. Em seguida, e aí a coisa muda de figura, mudei eu, pois fiquei apagando da mente a sensação da água fria do chuveiro martelando na minha cabeça. E isso foi me deixando esquentadinho, a ponto de tossir e suar mais que febril, uma brasa.

Penso logo em repelente. É fundamental vencer os mosquitos.

Pensei em cortar filó e martelar uns caibros e montar um troço que me proteja desses insetos que se nutrem de sangue. Aliás, do meu.

Nada de martelo. Sequer serrote. Mais ainda, nem madeira.

Tenho papel, tesoura e cola. Noves fora, topo uma colagem.

Sei usar tesouras. Sem soberba, reafirmo que as sei usar, sim.

Mas, não me meto a podar cercas vivas nem cabelos, sei usá-las para o dia a dia caseiro. Picoto papel, e corto fios, linhas e cadarços.

Domino o utensilio doméstico com modéstia, de maneira objetiva, quase em harmônico convívio com o que mora dentro de casa.

Certa feita, anos atrás, quando nem perdia meu sono com aqueles errinhos bobos de quem não admite estar errado, passei a cortar aqui e ali como se estivesse vislumbrando um pessegueiro carregado, de pôr água na boca, maravilhosamente desenhado por minha ambição.

Ledo engano. De tudo aquilo restou um nada muito amargoso.

Masquei-o. Infeliz de mim, cuspi-o afoito.

Como nem houve pêssego nem prosperou o bonsai, desaprendi a lição que poderia ter tirado daquele malogro:

ꟷ Fé cega afia melhor tesoura metafísica.

Mas, ter alívio no desconforto?

Na mata do Instituto Butantan, vejo e ouço na TV a passarinhada gorjeando festiva pela presença de José Hamilton Ribeiro, raríssimo exemplar de sabiá-jornalista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de março de 2021.

domingo, 14 de março de 2021

Flor da dor

 

Flor da dor

 

Já passa das cinco, e você está tomando um arzinho na frente da casa; vê pardais, andorinhas, tico-ticos, bem-te-vis, maritacas, aves e passarinhos que nem sabe que razões têm de voarem tresloucados quando próximo o crepúsculo, distingue grupos de bandos; e por isso não arreda pé, namorando o último gole da latinha quente.

Bem lá no alto, boiando na incomunicabilidade das esferas, aquele girassol só corola que a tudo finge ver, ele, de você, conhece o rosto triste, afeto à estupidez de quem implora solução ao absurdo de estar vivo, em angústia desesperada, de todo vã a corações anestesiados por imbecilidades, que dão um brilho senil aos melancólicos.

Faz sentido. Você abre melhor os olhos. A fachada pede o tapa da renovação, para que não passe feio, pondo-se imóvel, pessoa presa à mensagem de ser um ser relapso, descuidado, mais a fim de beber sem parar, como gente vil a suplicar que a achaquem.

Será que venderiam fiado aquele franguinho do almoço?

De repente, a pessoa amada poderia ter feito um chá de camomila ou fumado um fino ou bebido aquela garrafa de vodca do freezer, ela, contudo, inebriou-se pela acetona de uma farmácia distante.

Sábado, quase seis da tarde, sente que a lorota machuca, ofende, magoa, perfura escândalos na jugular.

Você não tem fé, nem a dos expostos à chuva, mas tem fome. E sabe que tem, porque a barriga ronca. Ela está roncando porque não comeu nada. Desde que saiu da cama, sequer buliu nos restos.

Talvez pelo azedume de imaginar-se a ingerir cebolas cruas, você toma coragem de ir pegar a vassoura de piaçava pendurada ao lado do tanque e, cantarolando uns versos fora de ordem de Negro Amor, como se fosse a Gal cantando, joga no meio-fio os cacos do espelho.

Um pé de tamanco não pode amenizar uma amargura?

Airosamente evaporado, até um vinho vagabundo faz assoviar. E você não se lamenta, impreca ou escarnece à toa. Prefere assobiar.

Embora as suas vespertinas canções de amor desviem o fluxo do mal-estar do coração para uma felicidade irremediavelmente efêmera, você se faz autêntica como vítima desafortunada que sabe beber.

Transtornada, não suporta a cara de bajulador não correspondido dos hipócritas que fazem sol ao remorso.

Vai daí e vira a sorrir, tentando com a careta admitir a hipótese de voltar à sobriedade. Mas a gastura vem à boca.

Com o calor da náusea, precisa do ventilador funcionando e, justo quando está ligando o aparelho na tomada, seu cotovelo escoiceia a antiga peça do santo.

É preciso colar os cacos. Você até se esforça, mas milagre algum floresce do dia para a noite.

É preciso repor a imagem. Mesmo cambaleante, vai atrás de uma nova. E dá sorte, pois a lojinha paroquial não mudou de hábito, ainda está aberta.

De volta ao posto sobre a TV, altaneiro, ao lado do Velho Barreiro, que o ídolo respeite o trato, que ele continue olhando por você.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de março de 2021.

quinta-feira, 11 de março de 2021

Cão à solta

 

Cão à solta

 

Imerso nos acontecimentos, sinto-me eco latejante do caos.

Embebido na estupidez insana de uma indignação febril, descalço as sandálias da civilidade para pisotear o quintal de terra.

Besta, revolvo com os pés, esburaco e amasso; vou mesclando os grãos do solo. Não choro nem sangro, urino. Minha urina escorre por minhas pernas em frenesi. Colérico, escarro o chão que não mastigo.

Marco passo, mijo-me todo, dobro-me à fúria ꟷ a que destino?

Quero o monstro.

Quero que seja revelada a face hedionda, e assim encará-la.

Das mil faces que não domino, vislumbro umas poucas, essas que me permitem força à convicção, porquanto enlouquecido.

Quero-me transtornado, ignominioso, potente.

Quero-me atroz, demoníaco, tomado pelo indubitável.

Quero o monstro vivo, muito invulnerável. Muito, portanto sujeito a conjunturas e suas reverberações.

Todavia, abro os olhos, e a pitonisa apocalíptica abre sua caixinha de maquiagem e, sem fagulhas que atordoam, oferece pó de arroz.

Sem ganas de bicho-papão, não será urinando que vou extravasar as mágoas; só borrarei a minha máscara de cavaleiro valente.

Valho. Posso o que valho? Dou-me por válido quando cotidiano.

E vou, pois o dia tornou a vir. Como sempre, e simples, ele raiou.

Então, abro a janela, passo o café, pratico a realidade.

Para ter o cafezinho de cada dia, sem bobear, fervo a água.

Por água clorada, encho o filtro.

Banal e calado, leio jornais. Em dor e riso, faço a leitura.

E o mundo me entorpece, mas vivo neste rio de cujas águas não escapo. E faço-as mortíferas quando nelas me afogo e benfazejas se irrigam brotos de bambu. São águas, que lavam e banham.

Para o café no copo, o néctar das manhãs cai recolhido na leiteira depois que a água quente lambe as colheradas do pó no papel.

Para matar a sede, só encho o meu copo depois que as velas do filtro diminuem as incertezas quanto à água da rua.

Como lidar com aberrações que querem banalizado o inominável?

Como estancar a saliva do babão covarde?

Há monstros que assustam e amedrontam, mas temem a noite.

Há escuridão no quarto, corpo na cama, um travesseiro à nuca.

O alento diz ao cérebro que funcione sem parada. Não paro.

Dormindo, a mente coa os eventos. Prossigo...

Recordando, me animo com os acasos da memória. Acho.

A memória me mantém razoavelmente prático e lúcido.

Mantenho o fluxo pelas coronárias, consumo pouco sal.

Conservo a plasticidade dos neurônios, pelo riso espontâneo.

Para dar maior salubridade ao mel, que as abelhinhas da cozinha sigam a zunir em busca do que lhes seja pitorescamente imperativo.

Solto às ruas dos poetas, solto o tintim por tintim dos cartesianos, e prescrevo o filtro de barro como ampulheta.

Instante a instante, vejo a noite escoando; gota a gota, passo o dia pela torneirinha; gole a gole, saúdo a vida.

Não me envenene à monstruosidade o esquecimento.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de março de 2021.

terça-feira, 9 de março de 2021

Jeitinho

 

Jeitinho

 

A vida é isso, e isso passa. Se não passa, tem coisa errada. Fica perigoso, sugere desatenção, e isso não se faz. Não convém desafiar o destino. Sim, a pessoa distraída meio que se descuida. E ver a vida passar é destino e, com isso, dá-se o caso por encerrado. Mas, neste caso, o que há é a ilusão de estar adiando o inevitável, até que venha o próximo enrosco. De enrascada em enrascada, vai-se vivendo, algo simples assim. Se isso for assim, que seja. Se assim é a vida, então a explicação fica justificada. E a vida, ora, a vida demanda isso.

Com isso boiando na sombra da cabeça na calçada, Catarina não atravessa a rua sobre a faixa de pedestres.

Para chegar na hora marcada, precisa urgente tomar um atalho. E atalha que faz certo ao cortar caminho em linha reta, direta no alvo.

E o centro do mundo, agora, é o salão, pois tem mesmo que dar um jeito naquele cabelo mais grisalho de tanta morte, tanta, que vem sem aviso nem nada, e vem a qualquer hora, via TV, via zap.

E pelo que vê e ouve sobre o que há e houve, puxa vida, sente a vida passando por demais agitada e numa pressa alucinada que tira a lentidão que precisa ter para conseguir dar conta do que faz.

Sabe que precisa mostrar que se empenha, por isso não se nega a compartilhar o seu dia a dia, sem ter vergonha da vida que leva.

Fica horrorizada só de pensar que possam achar que ela faz tudo nas coxas, afobada, leviana, vivendo como se nem ligasse de prestar conta do que esperam dela.

Mas, se estão cobrando, a querem muito bem. Se a querem bem, é porque a amam de verdade. Que beleza! Ser amada é ser querida e ser querida é ser desejada. E para manter isso, que a queiram linda e formosa, faz bem em correr dar um trato no visual.

É bom, mesmo, tirar da frente do espelho a desleixada.

Portanto chegasse pontualmente, ou adeus à vez agendada.

E nova oportunidade? Só dali a meses, talvez a um ano.

Porque o salão tem muita fama, tem muito bem consideradas suas profissionais; até a própria dona, aliás, é famigerada cabeleireira, pela merecida aposentadoria atrás do nome, deste seu renome construído com a dedicação de gente porreta, decidida, de pessoa que não abre mão da qualidade feita por experiência própria, passando exemplo.

Ali é lugar afamado pelo atendimento às clientes. Sim, somente e tão somente, são atendidas mulheres. Afinal, preserva-se o prestígio evitando-se obscenidades.

Uma dessas obscenidades é deixar buraco, pois lugar vago gera ociosidade. No código da proprietária, perder a hora é deixar de fazer dinheiro; e isso provoca prejuízo, porque funcionária desocupada não tem serventia.

Clientela tagarelando e socializando seus problemas, tudo bem; já tesouras ociosas, isso não. A empreendedora tem horror àquele papo furado gostoso que faz passar o tempo.

Gente!

Enfática, apontando os dígitos no celular, fala a chinesa:

ꟷ Catalina, paciência.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de março de 2021.

 

domingo, 7 de março de 2021

O sabiá

 

O sabiá

 

Em certa alvorada de nuvens carregadas, estirado enviesado na cama, contorcido pela espinha espicaçada pelo tanto dos seus ossos estranhos ao sono pleno noturno, o suposto pescador viu-se fisgado pela tentação de ir à forra.

De caniço e samburá, foi.

Foi-se pela estrada no robusto jipe comedor de poeira, parceiro de décadas, sem molejo para o confortável dos luxos acessórios. É carro próprio ao chão batido para a sua travessia até a serpente que dança pela mata adentro.

E foi convicto de que poderia esquecer os trabalhos diários, pois a sua alma cansada de cultivar-se urbana entre urbanos irritadiços não estava só abatida, vibrava escuridão, entrevada numa energia imbecil que fazia a água virar a mesma, feito gelo desfeito.

Pela paz, foi à luta.

No barco, recolhidos os remos, aliviou-se, estava respirando como se nas veias o oxigênio do cosmos o sintonizasse com a correnteza.

Observou o rio. Estava influenciado pela quietude que amansa.

A fluidez silenciosa fazia tranquilizante o ar a quem pedia livrar-se do neurótico que grunhia, grunhia, vivia grunhindo, sem nem mesmo notar que assustava os carás, punha sobressaltadas as preás.

Sem cavalos de batalha, calou-se.

Sob chuva, concentrou no braço a força pensada para jogar longe a linha. Tanto pensou em alcançar um cardume de suculentos peixes graúdos que o fio foi acabar enroscado no galho de uma árvore alta, cuja copa densa de amarelo tão vivo punha-se contrastante ao ocre barrento da cobra de morosidade enervante.

Deu um puxão. A linha arrebentou. E o barco girou.

Só com um braço, remou. E o barco girou torto.

De que lado aquela coisa estava? Pelo jeito, do avesso.

Não era de esmorecer dócil, portanto esmoreceria rezingando.

De fibra comprovada por bravias bravatas, soltou a rede sobre as águas. Viu-a sumir. E deixou que sumisse. Molemente, afundando.

Todavia, logo veio outra puxada. Tratou de subi-la. Foi a trazendo à tona. E como queria que a rede voltasse sem auê.

O peso, porém, obrigou-o a dar um tranco.

Por tamanha brutalidade, o barco girou. Novamente, girou.

Chega! Basta! Fora!

E subiu à estrada. Foi amassando o barro. Indo com o sentimento doloroso, muito humano, que é a frustração.

De mãos abanando, compraria tilápias na primeira peixaria.

Já no alto, com vista ampla da várzea, nem ligou para o lodo todo.

Teria poderes fora do normal o mais comum dos homens?

Pois ele tinha mais de um, tinha dois.

Como burro de carga, vinha carregado de tralhas. Já como burro d’água, virara e revirara a canoa desnorteada.

Que domingo insolente!

Avaliando vã a sua filosofia, pensou que um super-herói bacana não encana porque não passa de um banana.

Com o Cruzeiro do Sul muito além do céu fechado, ao sabiá que não canta o encantado por curió suplicou uma realidade mais solar.

Foi quando, facilmente lunático, caiu de cara na lama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de março de 2021.

quinta-feira, 4 de março de 2021

Uma senhora lição

 

Uma senhora lição

 

O homem provou o feijão antes do resto.

Ele queria o paladar afetado por temperos, tanto azedinhos quanto adocicados; queria se deliciar com a pitadinha do sal, o defumado do bacon; e da chicória, teve na língua aquela textura ótima.

Era feijãozinho caseiro o que degustava devagar.

Era muito bom desfrutar de uma comida tão gostosa. Certamente feita por gente que sabe o que faz, e que gosta muito do que faz.

Havia esse toque, podia perceber, daí a sua alegria infantil.

O olhar brilhava, e aquela vivacidade vinha da confirmação de que há no mundo quem ama trabalhar a serviço do feito com capricho.

E a chicória era um capricho a ser louvado, e louvou.

Porém, a mulher refreou-se. Apesar de contrariada, não franziu a testa. Acabou perdendo a leveza de mastigar com serenidade.

Certa de que aquele sujeito estava se achando superior ao marido que disse chicória em vez de escarola.

Ela não recuou, continuou demonstrando a sua contrariedade.

Olhava firme. Quanto mais a raiva fervia, mais sustentava o olhar.

Ambos tinham o direito de falar do jeito que quisessem.

O que a irritava sobremodo era a empáfia daquele senhor que não escondia a condescendência. Como se autorizasse a fala estragada da escumalha que vive maltratando a língua.

Não era nenhuma bobagem enfezar com tamanha afronta.

Ela era diferente do esposo, e como era.

Se tomasse pé da situação, ele ficaria triste e daria de ombros. Ela não engoliria aquele desdém babaca, daí o seu despeito explícito.

Se ele é dos que separam a goiaba bichada, ela a aproveita para fazer uma goiabada bem gostosa.

Enquanto ela gargalha, ele apenas sorri.

Não iria apressar a refeição. E mastigava deixando ver que sentia prazer ao mostrar-se consciente deste prazer, porque podia escolher o modo como comia. Até mostrar-se satisfeita.

E tinha isso desde criança. Tinha essa quedinha por uma cena.

Punha gosto em desacelerar quando a queriam rápida.

Mantinha a perna cruzada se lhe pediam joelhos emparelhados.

Na hora da rasteirinha, salto alto.

Na vez do pranto, o riso.

Se podia pagar, pedia desconto.

Mesmo sendo da paz, não a provocassem. Pois encarava os seus medos, pegava coragem se a queriam acabrunhada. Topava o tapa.

Desde miudinha, era mesmo este caso sério.

Ela não precisava ser lembrada da humilhação por causa de uma redação. A professora pedira uma história já contada. Ainda que não fosse exigida originalidade, ela teria de ser bem contada.

Então, achando-se inteligente o bastante para enfiar palavras que a maioria de sua turma nem sabia que existiam, ela quis impressionar e O homem nu do Fernando Sabino virou O prelado pelado.

Querendo espanto, resolveu explicar o título.

Foi dizendo que burro precisava ir consultar um dicionário, já que sacristão ou sacripanta não tinham cabimento, porque prelado era um ilustre coroinha nu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de março de 2021.

terça-feira, 2 de março de 2021

Fim de festa

 

Fim de festa

 

Que as duas meninas eram gêmeas, as suas roupas idênticas não deixavam dúvidas.

Tinham um vistoso laço de fita amarela no coque lateral no campo direito da cabeça. Calçavam lustroso sapatinho preto de boneca cujo cadarço era de cetim aveludado da mesma cor.

Que elas eram diferentes, o modo como cada uma entrou na festa permitiu a suposição.

Com cara de quem está querendo sair correndo, Mariana chegou de mão dada com a mãe; pedindo-lhe que o esperasse, o pai sorriu à porta, no encalço da saltitante Marina.

Que ambas eram cativantes, em minutos os convidados estavam simpáticos ou antipáticos.

Logo, a jovem senhora pôs-se a comer coxinha, entretida a relatar os feitos da sua prole exemplar. Logo, o jovem marido bebia cerveja, pois a sua garganta secava pelo excesso de opiniões.

Mas nenhum vestido era impermeável à visão.

A mais exuberante na peraltice correu abraçar as amiguinhas que retribuíram, amarrotando-se em congraçamento festivo de alegria.

A menos atrevida tratou de fingir direitinho que dava importância a que a elogiassem o arranjo impecável de sua elegante figura.

Mas tecido algum era intocável.

Choramingando, frustrada com a própria incompetência, Mariana pediu à mãe que limpasse a manchinha de queijo cremoso que caiu do bolinho assim que ela o mordeu.

Gritando, endiabrada como as coleguinhas sapecas, Marina não ia ficar tomando refrigerante e usando guardanapo de papel para limpar a boca cheia de energia.

Todavia, nenhuma roupagem era modelar.

A dupla univitelina largou tudo que fazia para querer tomar para si o presente de aniversário que o menino de quatro anos, tão inocente, achou que poderia exibir impunemente.

Brincalhão, sequer adestrado pela coleira de um nome, era um ser fofinho, solto por natureza.

Num átimo, Marina e Mariana esqueceram suas particularidades e viraram uma fera diante do cachorrinho que não era para elas.

Impossível que ele não fosse destinado a elas!

Nem pai nem mãe abalariam aquela certeza: o cão era vítima.

Estava errado. Precisava ser consertado, devia. Aquele erro teria de ser corrigido ou o mundo ficaria injusto. Nenhuma injustiça haveria de ser tolerada. Nenhuma vítima poderia ser ignorada.

Ignorar o caso seria feio, muito feio, e elas não eram feias.

O coitado daquele cãozinho maravilhoso estava em mãos erradas. Aquele menininho bobão era muito criança que nem iria saber cuidar como deveria do bichinho indefeso.

Unidas, tinham de impedir o absurdo de tamanha crueldade.

Portanto, como verdadeira combatente das mazelas da realidade, Marina quis tomar à força o filhote.

Portanto, como autêntica heroína contra vilões malvados, Mariana quis apoderar-se do pobre animalzinho.

Sem controle, a festa virou gritaria, tapa, unhada, choro, um caos.

Com o pandemônio instalado, nem as velas do bolo foram acesas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de março de 2021.

 

domingo, 28 de fevereiro de 2021

A denúncia

 

A denúncia

 

Iria acontecer novamente. Já estava acontecendo, pois desejava pular aquela etapa. E como ardia. Se não bufava de raiva, agitava-se. De quando em quando, ia fumar seu cigarro à janela. Baforava, com a aflição de quem visivelmente confinado, uma jaguatirica na gaiola.

Portanto, vê-lo à janela passava seus encantos ꟷ por mostrar-se natural, cômicos; por vigiar-se tão zeloso, risíveis.

Como exemplo disso ou daquilo, ocorreu-lhe a convicção de que a sua cabeça, ou melhor, o cérebro era caixa para armazenar ideias.

Não, não era o cérebro. A mente era recipiente aos pensamentos. Mas não como um fichário com ideias devidamente anotadas nem um arquivo-morto com pastas do A ao Z organizando-as.

Se assim fosse, na verdade, isso tudo seria coisa de bibliotecário usando um método de catalogação, e não era o seu caso.

Aconteciam atritos, fricções e faíscas. Uma combustão doida, pois a cachola fervia de realidade.

Para efeitos de justiça, e para não se envergonhar da maneira que pensava, a imagem que a ele ocorreu mais próxima da autenticidade do seu jeito de pensar era a de uma latinha.

Uma latinha para manter aquecidos seus pensamentos pelo maior tempo possível. Então, pensava nas leis da termodinâmica favoráveis a uma lenta dissipação do calor consumido na preparação dos juízos, nutridos como alimento.

Queria dominar a energia que o amor e o ódio geravam, como se a sopa mental fervilhasse por afetos. Queria aumentar ou diminuir o fogo para obter mudanças químicas, físicas ou físico-químicas.

Mas, diante das imprevisibilidades do fogo, fugia das inovações.

Isto é, a sua mente opera como marmitex, pondo lado a lado o ovo que ficou frito em óleo de girassol, o feijão carioquinha cozinhado na pressão com alho, sal e uma pitadinha generosa de cominho, o arroz branco cozido em água levemente salgada.

Cresce o olho, saliva a boca, de barriga rangada: pensa o ávido.

Hediondo, segundo ele, era ter de ficar em banho-maria.

Preocupado com a encomenda que seria entregue na sua casa, o pipoqueiro da esquina não tinha aberto seu ganha-pão. Fazia já dois dias que enviaram o negócio, e nada de o entregarem.

O prejuízo nem era assim assustador, pois o dono do carrinho não precisava do telefone para atender pedidos.

Precisava urgente do carregador para poder publicar as imagens que conseguiu gravar no celular antes de esgotar a bateria.

Ele tinha certeza de que o perigo estava à solta, porque as coisas mais estarrecedoras sempre acontecem quando ninguém vê.

No fundo, o perverso revela tarde sua maldade porque não chama atenção sobre a crueldade do mundo que traz em si.

Ele, todavia, só registrou o que viu.

Em vez de sair gritando por socorro, a criança não apenas aceitou aquilo, abocanhou-o e fez cara de que estava delicioso chupá-lo.

Que vergonha um desconhecido dar balinha de graça!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de fevereiro de 2021.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

A beleza do fogo

 

A beleza do fogo

 

Preciso tirar uma folga para pensar no que ando fazendo comigo. O alarme soou domingo passado, logo à entrada do supermercado.

Eu estava torto, carregado daquelas sacolas todas.

A cabeça concentrada no almoço que teria de preparar, posto que conservo o costume de comer, regularmente e sem frescura; menos quando tem beringela, que só o cheiro já me deixa mareado.

Talvez a cabeça não esteja mesmo funcionando muito bem, pois, ao ouvir o homem pedir fogo, gelei de cabo a rabo.

Fiquei no ar um instante, que nem sei quanto tempo durou, porque peguei viajar pela primeira nuvem que veio a calhar.

Boiando o susto, comecei com uma fogueira de São João, só que tinha alguma coisa esquisita com a figura, já que imediatamente intuí que era outra era, no céu o cometa Halley negava fosse junho; tinha a luneta caçando a cauda daquele ser ꟷ ser ou coisa ou objeto, a indefinição me levou a dilatar o universo além do embaraço; e nada disso, por sinal, deveria estar perfilando a sua sombra nesta história, ainda mais às onze e pouco deste carnaval suspenso, a muitos anos daquela cósmica passagem.

Apesar da pinta de brucutu, quis manter a simpatia. Contrariando certo pragmatismo urbano, ostensivamente insensível, optei o recato de agir como cidadão cordato que transmite ao corpo um tom menos hostil. Cara de pau, mas sorridente.

Com o piloto automático fazendo água, reagi como quem recusa o papel de vilão e, para não morder a própria boca, surfei o sorriso.

Convém a desculpa de que ninguém que surja abrupto de algum silenciamento miserável deixe de passar a impressão de um iminente choque obsceno.

Quando vi que empaquei, pelejei pela calma.

Focaria no almoço de logo mais. Poderia a franqueza das pessoas que fogem do cinismo. Destacaria que a sua necessidade de fogo era mesmo fundamental.

E dizer que fumar faz mal? Que é bom deixar o vício? Que gente boa não gasta dinheiro com o veneno que vicia, empobrece e tutela o fumante pelo medo da abstinência?

Que bacana. Mas quem tem saúde que a estrague.

Sim, a bílis tóxica, confesso pedindo perdão, reinava em mim, nas minhas inações de perplexo em displicência.

Era óbvio que precisava repousar, não ficar imóvel.

Como sou quem precisa escapulir das distrações ou as tentações vencem, descansaria se fosse pescar.

Mas, com o sol rachando a cachola, o melhor seria ficar enchendo a cara, ficar chumbado de cerveja, correndo urinar para dar conforto à bexiga e espaço aos processos orgânicos a regular o humor.

Transbordando intimidades com a justiça: não dá pé cair na rua.

Então é assim?

Então, meio ensandecido, meio sedutor de sereias engraçadinhas, feito poeta a pisar o espelho líquido com o qual a maré replica o azul do céu sobre a areia de uma realidade profilaticamente verídica, mas nem isso ateia fogo ao meu olhar de humanista mesmerizado.

Que beleza!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de fevereiro de 2021.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Só um café

 

Só um café

 

Como farpa, o sono permanece cutucando, íntimo, feito dente que dói quando em contato com água gelada, arrepia, e provoca tamanho incômodo.

Assim incomodado, sentindo-me boneco que derrete pela vibração da cera, percebo a bobagem do sentimento. Ou melhor, noto a tolice de imaginar-me coisa fabricada, reproduzida em série nos intestinos de uma fábrica, e salgo a boca.

Quero crer que me fabrico por meu engenho e empenho, não para correr mundo dando lucro porque descartável. Irrita-me pensar a mim mesmo como um brinquedo efêmero.

Ranzinza, não me contenta o fútil.

É bom tirar os braços de cima da mesa. É bom mesmo dar conta do café posto. Não adianta ficar retraído, a dar a manhã por perdida.

Se o pacote está no fim, vou comprar a bolacha de água, só água mesmo; nada de água e sal, que a deste tipo enerva-me de tão seca.

Explico-me.

Posso argumentar que vejo a mulher da minha vida deitada numa esteira na Praia do Futuro, sob o sol majestoso, que bronzeia rápido, sem precisar ficar questionando sua força, a sua potência, no abril de seu esplendor às três da tarde.

Bem, se aí pusesse os meus olhos a perfumar as suas coxas com ambição, salivaria indiscreto, a resgatar os perfumes da sua boca.

Tocado pela ternura, quero o café sem frustração, e bebo só.

Engasgo.

Viro outro tanto do café, o que destranca a garganta. Nem sei por que fico repetindo “riscar seu nome na areia com o pé”; sei, Miçanga é música boa de ouvir, porém veio feito pedra no bocado da reflexão.

Abro o jornal.

Leio porque preciso, porque muito me instrui, bem me alerta, faz o bastante para que eu pense melhor, com a calma dos ponderados e com aquela raiva que remove entulhos. Leio, porque é lendo que não mascaro as minhas ignorâncias quanto à variação do euro e ao valor nutritivo da fatia de pão integral mastigada por mim. Leio, embora a porta trepide quando os carros passam sobre buracos.

Fico amargo, azedo, e largo tudo. Tudo? Só o celular.

Não vou negar o privilégio de viver ajustado, mas trabalho para ter direito a salário que me permite pagar a comida que quero na mesa, ter chuveiro quente no frio de lascar de julho e garantir a ida rápida ao serviço no assento de minha preferência.

Distraído, o meu olhar traça planos.

De tesoura em punho, cortaria imagens coloridas, juntaria, colaria de novo. As minhas colagens de homem cinza tirariam do esboço o canto adormecido.

Bebo com gosto.

E olho a mesa posta, que pus, que a grana da semana me deixou ter à disposição de minhas angústias, infelicidades, tantos malogros.

Sem açúcar, já faz anos, não encaro a vida de outro jeito.

Sim, gosto de café.

Tenho pão de muitos grãos e tenho o pó extraforte das Gerais.

Tenho a melancolia dos sozinhos, uma vez que a borra desenha a amada a sorrir da parte ensolarada da praça, onde jorra café.

E peço mais o quê?

Quente ou frio, possa o sabor dos meus afetos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de fevereiro de 2021.

 

 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Copo a copo

 

Copo a copo

 

Entre apressadas e lentas, assim se dividem as pessoas.

Sem demonstrar o entusiasmo que sentia provocado por ideia tão rotunda, levemente tocado pela certeza de que o poço desceria esse trago a mais, porque o sábio era explorador de pensamentos ácidos, corrosivamente tóxicos, salivares, então bebi outro gole.

Quem corre atrás do prejuízo está certo de que não deve assumir o peso da consciência, ainda que a lassidão faça demorar mais um segundo até unir o lastro da sombra improdutiva ao corpo ocioso.

Fui enchendo os copos, seguimos bebendo. Pensei ter ouvido que o mundo, pela baba deixada pelo sugador de gargalo, estaria dividido entre empregados e desempregados, mas eu também já estava bem bonzinho para ter compreensões econômicas.

Econômicas: de economia, não é por economia; antes a pecha de lento que a de leviano, caso os estressados peçam clareza.

Poderia ter acrescentado que a segregação passa pelo patrimônio gordo disfarçado em finérrima digital abonada pelo código binário, de zero e um, que satisfaz mercados que financiam seus mercadores.

Poderia, mas continuei passivo na jogada. Sem blefar nem dar de barato que os dados estavam na mesa, descartados como simpáticos a vigaristas que veneram santos mortos de sede, segurei o zap.

Não tenho pressa de chegar ao poço como se pote fosse, de barro ou de pau, fosse o que fosse, até um cântaro de água doce, tão doce que penso em barril ou tonel, jamais em odre ou cantil.

Minha cantilena sabe o que é preciso ser feito para que a garganta seja saciada. Não me basta querer água, tenho que ir atrás do copo, abrir a torneira ꟷ da pia, se potável; do filtro, por precaução; do galão, se o bolso tem fundo. Há prazer molhar o bico assim?

Com cerveja, calei a boca, dobrei a língua e amansei a mente.

Nem bêbado vou impedir quem faz questão de ocupar o centro da roda, embora pareça de uma pobreza espiritual achar que a luta entre nababescos e famélicos precise de árbitros imparciais, centrados pelo razoável da esperança.

Diante de indivíduo tão autêntico, sequei num gole o que me cabia da garrafa servida entre usuais degustadores de conversa mole.

Já alegrinho pelo simpósio ao balcão do pé-sujo, deixei de rodeio quando vi na TV a sonda da NASA soltando um drone em Marte.

Ora, era hora de jogar limpo, sem cartas na manga. Aquilo não era conquista da humanidade. Os bastardos abastados que parassem de dar-se posse do planeta todinho.

Como era de trucar, ele trucou.

Elogiou a minha boa vontade em ajustar a realidade ao meu juízo; realçou que nunca me achou um retardado, só um tanto retardatário quanto aos assuntos mais quentes. Brindou, como se fosse minha a ideia de que as moças iriam mesmo segurar os telespectadores com uns coloridos boletins meteorológicos de Lua, Terra e Marte.

Com o GPS apontando um deserto pela frente, quis nova rodada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de fevereiro de 2021.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

A voz da vez

 

A voz da vez

 

Tolo o bastante para me acreditar imune aos desencantos de um mundo sem mistérios, busco estabelecer conexões lógicas ainda que a mente siga distraída.

Fácil, fácil, me distraio.

São ímãs potentes as pepitas que reluzem nos veios da memória sem que me caiba o esforço de prospectá-las além do brilho.

Inevitável, como o primeiro sutiã nas minhas retinas preservadas, acho bom dizer que negócio ter alma é propaganda.

Se entro de gaiato?

Preciso lembrar que nunca usei sutiã. Sim, desconfio de mim sem a convicção dos incrédulos profissionais. Não que isso de ter dúvidas me proteja das instabilidades da vida. Todavia, posso ao menos me concentrar.

Por exemplo, vendo na TV um filminho bom, com roteiro coerente e atores convincentes, procuro manter os olhos na história contada e, concomitantemente, trato de não morder com força um piruá.

Poxa, se não quero ter um dente quebrado por displicência minha, também não vou gostar muito de perder algum detalhe importante.

Se desejo, pago pelo que desejo. Ora essa.

Sei bem que não faz parte do pacote. Afinal, viver não tem roteiro, embora existam momentos que mereçam visitas monitoradas, porque recomendadas ou obrigatórias.

Zás! Transbordam os rios Tarauacá, Enviara, Iaco e Acre.

Zás! Pela fronteira, haitianos irrompem Peru adentro.

Puxa vida. Quando poderia estar ligado na corrente que me toma, já sinto brotar uma lágrima num dos olhos, enquanto sigo espiando a Fernanda Montenegro, de costas pra mim que a observo, dar rosto ao tom laranja daquele texto, “a esperança não existe sem você”.

Pois é, minha credibilidade de aço inoxidável como cidadão crítico vai por água abaixo assim que a areia que me constitui esse humano inflexível é lambida pela maré da renovação fraternalmente cósmica.

Minha cabeça faz confundir agora com quase ontem, esse passo atrás. Então, o quê? Poderia ter dado, mesmo, maior atenção ao ato? Com ou sem explicação, nada justifica uma besteira feita? E o cálculo torto tem jeito? Nem de bobeira a foice me escapa.

Zás! A mão não larga a Marielle da placa.

Zás! Por vacina, fazem fila em Serrana.

Na correria do mundo, não prendo a respiração, por isso mergulho de cabeça. E respiro, ainda respiro, pois ponho dormir o cérebro que filtra os seios, os sutiãs, as ideias de proteção, de amamentação.

Ladeira acima, ladeira abaixo.

E a primeira vez num ônibus sem cobrador? Já foi.

A primeira vez num ônibus sem motorista? Está chegando.

Não adianta nada, trem imperfeito, tirar atraso na banguela.

Oxe.

Sem nenhuma ironia, agora que estão tentando amordaçá-lo com a prisão, digo que esta não será a última vez que penso e digo umas palavrinhas sobre o direito de uma pessoa poder pensar e dizer o que queira, e da forma que queira, por isso aproveito esta vez única para dizer que nunca antes tinha ouvido o seu nome, Pablo Hasél.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de fevereiro de 2021.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Vacinada

 

Vacinada

 

Para muita gente, a realidade arisca gosta de fugir de quem a leva por demais a sério, esse pessoal que fica achando que joga caça ao rato, feito gato, é claro. Mas, por falta de uma perspectiva mais lúdica, nem percebe que está mesmo é num cerca-galinha endiabrado, com o bicho sempre frustrando por último.

Galináceos não comem apenas minhoca, e ideias não são assim tão sedutoras que sosseguem quem vive bicando onde pisa, atrás de informações que virem notícia, como se isso fosse milho na pança.

Ora, raposa tomando conta de galinheiro é chover no molhado, faz bocejar. Agora, galinha comandando raposeiro, isso faz pensar quem nem se dá conta da encrenca, fora o calafrio em quem vê lura e covil na velha raposeira que dicionário atesta existir.

Sim, imagine a coisa toda: a galinha faz a raposa ir comprar prego e madeira, exigindo nota fiscal e troco; a raposa pede à galinha que a faça ir dormir quando a coruja piar; a coruja fica de olhos arregalados vendo a cena do alto, empoleirada no cata-vento que gira anunciando tempestade à vista. Nem é preciso lembrar que galinha tem um medo danado de água, até de chuvisqueiro manso como galeto no espeto.

Metáforas?

O João Cabral pôs um poema a dizer: não há guarda-chuva contra o mundo, cada dia devorado nos jornais, sob as espécies de papel e tinta.

À parte a imaginação...

Sim, o mundo está lá fora, fluindo, tocando suas águas, indiferente à fogueirinha ardendo na cabeça. Longe do fumaceiro que vai indo, e vai subindo, até acabar disperso em algum lugar ali mesmo, dentro.

Este mundo não para, flui, entre uma ideia ainda não assimilada, como as escolas de portas reabertas, e uma certeza jamais posta à prova, de que estudantes têm mais o que fazer do que ficar evitando contato no pega-pega do recreio.

À vera, com quanto fubá se faz uma bela polenta?

Por uma vida cotidiana, outra vez ordinária, sem maiores atrativos que não sejam os goles da prosa fácil nem sempre dócil nos botecos e as paradas banais quase mesmo singelas nas esquinas, à porta do posto de saúde, naquela fila, estou com mamãe; e porque a conheço, percebo que ela apressa respirar o ar das ruas que a renova.

Esperançosa, falando mais do que o costumeiro, sua voz abafada pelo pano da máscara, sua mão assegurando-se da minha, a patente emoção apoderando-se do olho que lê o mundo com a leveza vivaz de suas pupilas positivamente nervosas.

Preenchida a ficha; comprovados os dados; escolhido o braço; é a sua vez, mamãe: de tremer um pouco com o tamanho da agulha, de sentir suportável a picada, de perguntar qual laboratório fez o bendito remédio, de questionar a data da segunda dose, de recuperar a velha verve que fervilha novamente, de ir-se embora pisando o chão tantas vezes interditado.

Na bandeja, a vacina visivelmente próxima...

Evoé!

Mamãe sorrindo vacinada, além de icônica, é bonita.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de fevereiro de 2021.