Louco
melancólico
Entre o sonho e o devaneio, saio
empurrando o carrinho de outra pessoa. Sem ter como negar a materialidade do
meu descuido, faço o que me cabe, devolvo-o à mulher que o reclama rispidamente.
Frutas e legumes já ensacados apontam-me culpado, portanto, sorrio.
Na atual conjuntura, com uma súcia de
negacionistas colaborando para a alarmante disseminação geométrica do
coronavírus, responder sorrindo às inconveniências nem alivia pressão intracraniana
alguma.
Arrisco dizer que talvez a maioria
compartilhe da sensação, como se a expansão da consciência estivesse em
evidente embate com as estruturas óssea e encefálica da cabeça.
Sabe aquele troço que não para de ficar
latejando? Sinto isso.
Acresço que minha mente, turbinada
normalmente pelo mundaréu de contraditórias ideias desconexas, vem provando do
veneno que a falta danada de prudência tem produzido diuturnamente.
Virei um operário de decepções. Sério, até
dormindo.
Também pudera, os recorrentes mal-entendidos
parecem presos a um carrossel, cuja fonte elétrica está num sítio de dificílimo
acesso.
Lamentável, o lugar radicalmente oposto
a tal fonte de angústias, o éden tranquilizante, não está imune à realidade,
portanto sofro.
Sem pensar em abdução, conjecturo ir
para lá.
Existir, existe. Mas, fora de tempo e
espaço. Utopia é seu nome.
Como banana prata, poderia estar à
venda.
Tão nutritiva... Tão barata...
Vejo a fila do açougue. Adeus, meio
quilo de patinho moído.
Temendo que um ato fortuito possa
potencializar o pandemoníaco da pandemia, considero adequada a distribuição dos
fregueses pelo mercado, porquanto me preocupa bastante a dispersão de gotículas
suspensas no ar.
É óbvio! Fio-me nos conhecimentos
especializados de cientistas, infectologistas e epidemiologistas, por isso,
acho-a adequada.
Como estou suando frio, e suponho que
outros indivíduos também estejam sob o estresse de estar à beira do pânico, o
que mais quero neste momento é desviar os meus pensamentos do lockdown.
A ansiedade generalizada apodera-se de
meus nervos, passando a impressão de alguém a ponto de perpetrar alguma
aberração.
Todo desajeitado atrás da máscara periodicamente
ajustada sobre o nariz, confiro besta a lista enquanto a funcionária,
perguntando-me se desejo mais algum produto, agita no ar os pacotinhos de
muçarela e peito de peru já pesados.
Louco para higienizar as mãos com álcool
gel sem nem mesmo ter tocado o que quer que seja, vou pegar a berinjela que ficou
por último na lista porque só fui lembrar-me dela à saída de casa.
Cá entre nós, aprisionado vergonhosamente
à bolha de um radical ensimesmamento, por talvez estar traduzindo a tristeza feito
um boçal zanzando num ambiente fechado, vou apelar para a ignorância: este
louco melancólico nem sabe diferenciar salsinha de hortelã.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de março de 2021.