Tempo
de amar
Ó bela luz da manhã, sol que ilumina. Faz
abrir meus olhos, abrir melhor o olhar. Acaso insistisse permanecer no escuro, iria
sem ver que tateara o ar que fugia, morcego que se encolhe emudecido? Se fosse ficar
buscando reflexo em espelho opacificado pela visão ignara não sentiria o chão
que toco, com pés nus a errar o caminho? O que não quero é dar-me como sobras;
luto pra apoiar toque menos míope. Ó ânsia que confronta o vil, a vergonha, o abjeto,
meu desejo é não ir de rastos sobre restos.
Sem me ferir com os cacos? Evito.
Não me quero mudo diante da realidade
que me assombra. Quero sentir o espanto, me permitir à perplexidade, não à
impotência. Quero murchar em mim o que for baderna, bagunça, balbúrdia.
Por que busco o inteiro? Reflito.
As palavras fogem? Convido-as a
voltar.
Olho pros livros. Houve apartamento,
em Santos, em que os livros brincavam pelo chão, tomavam conta do tapete, e corriam
ir deitar-se ao lado da cama, subiam as torres comunicantes de letras, ideias,
de sabedorias. Traçavam caminhos que se bifurcavam, se coleavam, se amavam,
animais da liberdade bem à vista da minha indolência.
Na clausura das entrelinhas? A vida
manda notícias.
Leio no El País que Penderecki morreu.
Penso nestas suas aspas: “O destino de um artista é um labirinto. Acredita
conhecer o caminho, mas deve buscá-lo sem trégua. Amiúde avança, porém, de
repente, deve retroceder e reabrir uma porta que havia fechado. É o diálogo
constante com o passado”.
Outro dia, quinta-feira última, a minha
imperícia com a tecnologia frustrou minhas ansiedades. Não acessei a
videoconferência em que amigas e amigos comentaram suas leituras recentes.
Havia me preparado. Tinha separado
livros pro bate-papo online. Inventei discurso, amarrei trechos, estudei o
fluxo. Reli as passagens, que poderiam reforçar as poucas ideias que tive.
Maravilha? Depois de carregar a
bateria do telefone, pude enviar a mensagem dando os detalhes de mais este fracasso.
Terei falhado? Se textos só retratarem
o explícito.
Como a pandemia massacra, mudo o foco.
A vida de um país é sua economia? A
vida do país é a saúde das pessoas. Sem pessoas, não há empresas nem consumo.
Além disso, pessoas dão consciência ao mundo.
Busco ajuda ao Rubem Braga. “Afinal de
contas os escritores dão apenas o reflexo da realidade, ou de um de seus
aspectos ― e não é vedando a sua imagem num espelho que você remove um objeto”.
Atualmente, poucos livros estão na minha
mesa de trabalho. Pego um, manuseio-o com carinho.
Que bela capa, o desenho feito à mão.
Há uma árvore e, soltas no ar, há folhas flutuando. E a imagem ganha outros
significados com as leituras. Toca-me o verso: o tempo não dá escolhas.
Já foi dito que no universo, nada se
perde, tudo se transforma.
Eis a beleza que a obra semeia em mim:
a flor não seca enquanto houver amor a cultivá-la.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 29 de março de 2020.