quinta-feira, 12 de março de 2020

A hora da estreia


A hora da estreia

Ô dia bom, bom dia.
Tento manter a lucidez, mesmo com a cachorrada da vizinhança latindo pras moscas. Tento resistir com dignidade, porque as piscinas seguirão abandonadas. Tento neutralizar minhas neuras, até porque nem sei pra que serve o espinafre. No entanto, falho redondamente e sucumbo ao comezinho que se revela trágico.
De tentação em tentação, o sofá acaba me tentando. Cansado de buscar uma explicação universal autoimune, babo na camiseta.
Não falo de mim quando pedem notícias sobre o que sinto. Como se fosse fácil falar que as brumas não impedem a visão clara do que tenho sentido. Diante do espetáculo do mundo, relato os feitos como sentimentos reveladores.
Porém, não engano nem quem espera ouvir opiniões a respeito da vida. Que sei das perplexidades? A que estado me deixei levar? O do cinismo com vergonha de assumir verdades? Ou seja? Pouco, e bem pouco, tenho a dizer nesta como em outra hora qualquer.
Então, facilito catando no ar as ironias que faço manchar o papel. Marchem narrativas a me ajudar a vencer o dia, rompam o cordão de quarentena que me querem tolher o prazer e gritem aos céus que as gorduras intoxicam meu humor. Tomarei água do filtro quando a sede vier, tagarelarei bobagens à musa de fartos amanhãs e vou vencer o miojo das sete.
Sem mágoa, hei de curtir a solidão com café e refri.
Sei, fujo de mim que nem minha boca foge do quiabo. Digo, venha a noite com o sono que faz por mim a limpeza do que não adiantaria nada reter. Pra que alimentar o gesto gasto que ofende, mascarando o importante do recado, que é o renovar-se.
De memorável mesmo, apenas o que a solidez da matéria não diz o quanto machuca no calcanhar. Que falta faz o bandeide pra deixar evidente a dor que calo quando deveria expressá-la além do corte.
Disperso os cacos, noite após noite, até que venha algum estalo e me faça lembrar, mexendo meus braços, coordenando meus dedos e a crônica vire o que mais ou menos espero que vire.
Preciso tomar as rédeas deste pangaré metido a xucro. Escoicear não é trotar. Relinchar não é cantar. Preciso aprender a saltar minhas barreiras, preciso enxergar nos obstáculos o estímulo, preciso parar de repetir as palavras.
Que haja invenção, um norte a indicar a direção, a orientar qual o sentido. Que haja o que houver a me levar ao ponto planejado. Hein? O que tenho eu de planejado?
Ir de crônica em crônica. Assim, até que brote da lama a resposta ao desejo. Desejo e não um sonho. Qual? Uma vida feita de cada dia. Como um depoimento sincero dos meus feitos, prenhes de valores, sentimentos e emoções.
Faço votos que a próxima não ignore os problemas cambiais, que a futura traga alegria a quem anda triste, que se torne um porto aos leitores mareados.
Talvez isso, ou posso querer pular na água esverdeada. E se não quebrar o pescoço pulando do quarto andar, aprenderei a nadar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de março de 2020.

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