A
hora da estreia
Ô dia bom, bom dia.
Tento manter a lucidez, mesmo com a
cachorrada da vizinhança latindo pras moscas. Tento resistir com dignidade,
porque as piscinas seguirão abandonadas. Tento neutralizar minhas neuras, até
porque nem sei pra que serve o espinafre. No entanto, falho redondamente e sucumbo
ao comezinho que se revela trágico.
De tentação em tentação, o sofá acaba me
tentando. Cansado de buscar uma explicação universal autoimune, babo na
camiseta.
Não falo de mim quando pedem notícias
sobre o que sinto. Como se fosse fácil falar que as brumas não impedem a visão
clara do que tenho sentido. Diante do espetáculo do mundo, relato os feitos
como sentimentos reveladores.
Porém, não engano nem quem espera
ouvir opiniões a respeito da vida. Que sei das perplexidades? A que estado me
deixei levar? O do cinismo com vergonha de assumir verdades? Ou seja? Pouco, e bem
pouco, tenho a dizer nesta como em outra hora qualquer.
Então, facilito catando no ar as
ironias que faço manchar o papel. Marchem narrativas a me ajudar a vencer o
dia, rompam o cordão de quarentena que me querem tolher o prazer e gritem aos
céus que as gorduras intoxicam meu humor. Tomarei água do filtro quando a sede
vier, tagarelarei bobagens à musa de fartos amanhãs e vou vencer o miojo das sete.
Sem mágoa, hei de curtir a solidão com
café e refri.
Sei, fujo de mim que nem minha boca
foge do quiabo. Digo, venha a noite com o sono que faz por mim a limpeza do que
não adiantaria nada reter. Pra que alimentar o gesto gasto que ofende,
mascarando o importante do recado, que é o renovar-se.
De memorável mesmo, apenas o que a
solidez da matéria não diz o quanto machuca no calcanhar. Que falta faz o bandeide
pra deixar evidente a dor que calo quando deveria expressá-la além do corte.
Disperso os cacos, noite após noite,
até que venha algum estalo e me faça lembrar, mexendo meus braços, coordenando
meus dedos e a crônica vire o que mais ou menos espero que vire.
Preciso tomar as rédeas deste pangaré
metido a xucro. Escoicear não é trotar. Relinchar não é cantar. Preciso
aprender a saltar minhas barreiras, preciso enxergar nos obstáculos o estímulo,
preciso parar de repetir as palavras.
Que haja invenção, um norte a indicar
a direção, a orientar qual o sentido. Que haja o que houver a me levar ao ponto
planejado. Hein? O que tenho eu de planejado?
Ir de crônica em crônica. Assim, até
que brote da lama a resposta ao desejo. Desejo e não um sonho. Qual? Uma vida
feita de cada dia. Como um depoimento sincero dos meus feitos, prenhes de valores,
sentimentos e emoções.
Faço votos que a próxima não ignore os
problemas cambiais, que a futura traga alegria a quem anda triste, que se torne
um porto aos leitores mareados.
Talvez isso, ou posso querer pular na água
esverdeada. E se não quebrar o pescoço pulando do quarto andar, aprenderei a
nadar.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 10 de março de 2020.
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