Encruzilhada
Presente em Companhia e outros textos, O
caminho, de Samuel Beckett, apresenta um labirinto a céu aberto, constituído
por caminho de mão única a impor que se vá adiante. Do sopé ao topo e do topo
ao sopé, sem poder inverter de cima pra baixo ou de baixo pra cima, só sendo
possível ir adiante, o que implica em passar por onde tenha passado. Como se
nunca antes tivesse estado ali, pois não há marca que permita qualquer reconhecimento.
Mas, chegando ao topo ou ao sopé, lá ou cá, há a liberdade pra dar uma pausa.
Para mim, a vida é caminho de mão
única, indo adiante, indo sem saber pra onde, tentando estabelecer referências
que me auxiliem na jornada que, ao que parece, serpenteia, faz cruzamentos. Ora
vou ao topo, ora ao sopé; tenho êxito, fracasso; sigo em frente.
Estou numa pausa?
Estou fritando um ovo. Ele pode grudar
na frigideira ou ficar daora. Depende. Pra variar, marco a bobeira do pouco
óleo, daí vira troço de bolotas cruas e outras queimadas. No fundo, vivo
aprontando.
Mas por que é que estou dormindo mal?
Será por que não posso andar no calçadão? Será por que a TV tem abusado de coronavírus?
Uma hora tem gente que diz pra ficar em casa, depois vem outro que diz que o
bicho não é tudo isso que andam falando; e agora?
Palpite ou ciência.
Sujeito às orientações pra contenção
sanitária, o mundo todo quer mais é tocar a vida. Com altos e baixos; com
alegrias e tristezas. Só que, nas atuais circunstâncias, estamos à mercê de uma
certeza.
Hein?
A certeza de que, durante a quarentena,
familiares e amigos estão onde deveriam estar. Cada qual ocupando um lugar
previsto.
Mas a vida é surpreendente porque
imprevisível.
Então, me esforço, me fecho dentro de
casa. Passo a compartilhar os metros quadrados com os demais da família. E pra
quê? Pra evitar que algo dê errado, pra não tornar indigesto o convívio. Como adulto,
sonho, boto na cabeça que vai passar, faço planos. Mesmo temendo que alguma coisa
possa sair pela culatra, faço a minha parte. Oriento. Sim. É preciso cuidar de
si, em primeiro lugar. Mas este cuidar de si é necessário pra tornar possível
cuidar do outro. Não vou me infectar, porque não quero infectar as pessoas. Pessoas
com as quais convivo em casa, no prédio, no serviço em que não posso faltar; porque
sou médica, sou balconista na farmácia, sou o policial que vigia pra que a
praia fique sem aglomeração.
Não se trata de distanciamento social. É distanciamento físico.
Com as redes à disposição, mantenho-me
conectado, interessado nas pessoas, preocupado, e afetando quem me afeta. Posso
acolher o mundo por meio de Face, Zap, Messenger, Skype, telefone.
Sem ofensa, digo o que penso. Sem
abrir mão do que penso, vou me livrando do medo. Assim, acho legítimo agir em
nome da saúde, da segurança, da responsabilidade de ir e vir ― em casa e na
rua.
Vou nessa. Tenho um ovo cozido pra
comer.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 26 de março de 2020.
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