quinta-feira, 26 de março de 2020

Encruzilhada


Encruzilhada

Presente em Companhia e outros textos, O caminho, de Samuel Beckett, apresenta um labirinto a céu aberto, constituído por caminho de mão única a impor que se vá adiante. Do sopé ao topo e do topo ao sopé, sem poder inverter de cima pra baixo ou de baixo pra cima, só sendo possível ir adiante, o que implica em passar por onde tenha passado. Como se nunca antes tivesse estado ali, pois não há marca que permita qualquer reconhecimento. Mas, chegando ao topo ou ao sopé, lá ou cá, há a liberdade pra dar uma pausa.
Para mim, a vida é caminho de mão única, indo adiante, indo sem saber pra onde, tentando estabelecer referências que me auxiliem na jornada que, ao que parece, serpenteia, faz cruzamentos. Ora vou ao topo, ora ao sopé; tenho êxito, fracasso; sigo em frente.
Estou numa pausa?
Estou fritando um ovo. Ele pode grudar na frigideira ou ficar daora. Depende. Pra variar, marco a bobeira do pouco óleo, daí vira troço de bolotas cruas e outras queimadas. No fundo, vivo aprontando.
Mas por que é que estou dormindo mal? Será por que não posso andar no calçadão? Será por que a TV tem abusado de coronavírus? Uma hora tem gente que diz pra ficar em casa, depois vem outro que diz que o bicho não é tudo isso que andam falando; e agora?
Palpite ou ciência.
Sujeito às orientações pra contenção sanitária, o mundo todo quer mais é tocar a vida. Com altos e baixos; com alegrias e tristezas. Só que, nas atuais circunstâncias, estamos à mercê de uma certeza.
Hein?
A certeza de que, durante a quarentena, familiares e amigos estão onde deveriam estar. Cada qual ocupando um lugar previsto.
Mas a vida é surpreendente porque imprevisível.
Então, me esforço, me fecho dentro de casa. Passo a compartilhar os metros quadrados com os demais da família. E pra quê? Pra evitar que algo dê errado, pra não tornar indigesto o convívio. Como adulto, sonho, boto na cabeça que vai passar, faço planos. Mesmo temendo que alguma coisa possa sair pela culatra, faço a minha parte. Oriento. Sim. É preciso cuidar de si, em primeiro lugar. Mas este cuidar de si é necessário pra tornar possível cuidar do outro. Não vou me infectar, porque não quero infectar as pessoas. Pessoas com as quais convivo em casa, no prédio, no serviço em que não posso faltar; porque sou médica, sou balconista na farmácia, sou o policial que vigia pra que a praia fique sem aglomeração.
Não se trata de distanciamento social. É distanciamento físico.
Com as redes à disposição, mantenho-me conectado, interessado nas pessoas, preocupado, e afetando quem me afeta. Posso acolher o mundo por meio de Face, Zap, Messenger, Skype, telefone.
Sem ofensa, digo o que penso. Sem abrir mão do que penso, vou me livrando do medo. Assim, acho legítimo agir em nome da saúde, da segurança, da responsabilidade de ir e vir ― em casa e na rua.
Vou nessa. Tenho um ovo cozido pra comer.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de março de 2020.

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