quarta-feira, 18 de março de 2020

A quarentena


A quarentena

Sempre é bom começar deixando as coisas bem claras, pra que o vento não venha a soprar o lume, que útil é manter a luz, ainda mais quando faz a vez de iluminar pro combate às trevas.
Dito isso, não será preciso referir-se a menina ou menino, trata-se de uma criança. Pois é, também não será necessário recapitular cada palavrão que a personagem rugiu, enquanto fazia questão de bater a porta em câmera lenta, pra dar tempo de gritar o repertório do calão.
A criança zanzava. Como toda pessoa que medita, ia pesando os gestos, avaliando o que ouvira, querendo esquecer as circunstâncias que eram bastante desagradáveis, pois tinham passado do limite.
Que limite? Isso é coisa que seu pai vivia repetindo, como se ficar insistindo em dizer isso tornasse compreensível. Pra ela era evidente a relação entre proibição e implicância, por ser criança.
A criança, enfim, resolveu que estava cansada de sua caminhada e sentou-se sob uma árvore. E de que tipo? Ela não sabia distinguir a laranjeira da goiabeira.
Isso é coisa de gente grande, oxe.
Então, a criança ouviu barulhos; eram vários ao mesmo tempo. De onde vinha aquela barulhada todinha?
Olhou para cima. Havia um ninho de passarinho. Por favor, nada de querer que a criança saiba se era ninho de pintassilgo ou canário.
Quando a criança já ia se posicionando para subir pelo tronco da árvore, passou rasante aquele passarinho que, pelo jeito, era a mãe dos filhotinhos.
Será possível que aquela bagunça toda era por causa da mãe?
A criança deu alguns passos até o ponto de onde poderia ter uma visão do que se passava entre a mamãe e a sua ninhada. E ela pôde ver que a adulta estava dando de comer aos bichinhos. Parecia, pois ela levantava o bico, fazia uns tremeliques engraçados e enfiava um treco qualquer na boca de cada filhote.
Que esquisito.
Será que os animais sempre fazem assim pra alimentar os filhos?
Aquela era uma boa pergunta. Era mesmo, tanto que a fez andar sem ver aonde pisava. A curiosidade meio que a cegava.
Foi quando, nem bem deu cinco passos, ela topou com uma gata.
Nem vou contar... Pois é, ela também tinha a sua ninhada. Era a hora do almoço, pelo jeito. Sem cerimônia, os bichaninhos estavam mamando nas tetas da mãe. Mesmo espremida entre um pneu velho e o muro, a gata mantinha a elegância de miar macio, como se fosse um sorriso de boas-vindas, se bem que, para não atrapalhar nada, a criança ficou a distância.
Oia! Oia!
A criança subiu num pé a escada. Passou voando pela cozinha. E como não queria que bicassem o que tinha para dizer, foi digitando a descoberta com seus dedinhos de cientista depois dum gol.
Sem ligar que aquilo talvez não fosse alegria coisa nenhuma, mas euforia, a criança nem viu em que grupo disparou:
Gente, é muito legal ficar em casa, porque acabei de saber que a minha mãe dá uns gritinhos sem sair do lugar porque ela me ama.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de março de 2020.

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