domingo, 15 de março de 2020

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Conforme registram os remotos papiros chineses, na província de Fujian, um infatigável andarilho, filho de ceramista neto de ceramista, largou toda aquela argila às margens do rio Amarelo, ei-lo sentado no jade do tamanho da couraça de uma tartaruga.
Quando a boca sente a língua desta história, com um gostinho de jasmim, anuncia-se que o artesão está longe de casa muitas e muitas luas. Para aprimorar-se no seu ofício? Pra negá-lo quatro vezes, pois quatro são os pontos cardeais.
Para descomplicar a coisa toda, entra um ancião de barbicha à Fu Manchu, que naturalmente pitava seu cachimbinho de ópio, típico dos sabichões que andam bem devagar.
Ele veio na caminhada, passou pelo fedorento sentado logo ali, foi beber água nas mãos em concha e, quando já ia voltando, deu com o choramingueiro.
Chora não, criança. A roseira dá rosa porque um dia foi semente.
Choro sim, senhor. Pois o cravo brigou com a rosa.
Brigou nada, rapaz. O certo é que rosa com rosa dá rosa.
Senhor, sua sabedoria ofusca o pico do monte.
Não precisa exagerar, menino.
Preciso, sim. O ancião precisa ir aos quatro cantos do mundo para ilustrar quem anda às cegas. Que este mundo está perdido. Faltando mapa, bússola e o Cruzeiro do Sul no meio-dia de sol nas nuvens.
A névoa de agora o vento leva. A ventania da primavera espalha o que ninguém controla. O novo brilha e vira febre no corpo em que faz sua estreia e passa a viver em quem vive, até que a montanha deixe de crescer e suma nas águas de todos os degelos. No seu tempo.
O sábio diz o que meus ouvidos não estavam prontos para ouvir, a isso dou valor porque machuca. Abrindo os meus pensamentos para o que meus olhos não viam. E educando os meus ouvidos para o que antes soava feito barulho. E estimulando em mim a compreensão que meu entendimento pedia.
Então, beba da água que bebi. Vá, diga que sabe. A chaga que o magoa cicatrizará; mostre-a; muitos a saberão também.
Não quero dizer pelo senhor o que sua voz faz melhor do que eu.
Como abelhas partem duma velha pruma nova colmeia, então, vá ser aquela que levará o pólen pro mel que sua gente tá esperando.
O vagamundo fechou os olhos por um instante. Levantou-se. E fez mesuras com o tronco enquanto falava que não era digno de portar a ciência do mundo de tão nobre mestre. Que quem deveria dizer como funciona a química do gusano na mente humana era ele.
Silêncio. Baforadas no ópio. Cofiadas na barbicha Fu Manchu.
Como as suas verdades são boas, senhor.
Quando pessoas vêm de longe, chegam confusas que não veem a água para a sua sede.
É isso que o mundo precisa aplaudir.
Rapaz que muito insiste, sou apenas um velho que come raízes e frutos.
Como a sua vida é boa, permita-se servir de exemplo.
Rapaz que não ouve nem a pau, este velho só sabe que o urso vai hibernar já com ele na caverna.
Então, tá...
Quando estiver em caverna alheia, durma de tênis.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de março de 2020.



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