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Conforme registram os remotos papiros
chineses, na província de Fujian, um infatigável andarilho, filho de ceramista
neto de ceramista, largou toda aquela argila às margens do rio Amarelo, ei-lo sentado
no jade do tamanho da couraça de uma tartaruga.
Quando a boca sente a língua desta
história, com um gostinho de jasmim, anuncia-se que o artesão está longe de
casa muitas e muitas luas. Para aprimorar-se no seu ofício? Pra negá-lo quatro
vezes, pois quatro são os pontos cardeais.
Para descomplicar a coisa toda, entra um
ancião de barbicha à Fu Manchu, que naturalmente pitava seu cachimbinho de
ópio, típico dos sabichões que andam bem devagar.
Ele veio na caminhada, passou pelo
fedorento sentado logo ali, foi beber água nas mãos em concha e, quando já ia voltando,
deu com o choramingueiro.
Chora não, criança. A roseira dá rosa
porque um dia foi semente.
Choro sim, senhor. Pois o cravo brigou
com a rosa.
Brigou nada, rapaz. O certo é que rosa
com rosa dá rosa.
Senhor, sua sabedoria ofusca o pico do
monte.
Não precisa exagerar, menino.
Preciso, sim. O ancião precisa ir aos
quatro cantos do mundo para ilustrar quem anda às cegas. Que este mundo está
perdido. Faltando mapa, bússola e o Cruzeiro do Sul no meio-dia de sol nas
nuvens.
A névoa de agora o vento leva. A
ventania da primavera espalha o que ninguém controla. O novo brilha e vira
febre no corpo em que faz sua estreia e passa a viver em quem vive, até que a
montanha deixe de crescer e suma nas águas de todos os degelos. No seu tempo.
O sábio diz o que meus ouvidos não
estavam prontos para ouvir, a isso dou valor porque machuca. Abrindo os meus
pensamentos para o que meus olhos não viam. E educando os meus ouvidos para o
que antes soava feito barulho. E estimulando em mim a compreensão que meu
entendimento pedia.
Então, beba da água que bebi. Vá, diga
que sabe. A chaga que o magoa cicatrizará; mostre-a; muitos a saberão também.
Não quero dizer pelo senhor o que sua
voz faz melhor do que eu.
Como abelhas partem duma velha pruma
nova colmeia, então, vá ser aquela que levará o pólen pro mel que sua gente tá
esperando.
O vagamundo fechou os olhos por um
instante. Levantou-se. E fez mesuras com o tronco enquanto falava que não era digno
de portar a ciência do mundo de tão nobre mestre. Que quem deveria dizer como
funciona a química do gusano na mente humana era ele.
Silêncio. Baforadas no ópio. Cofiadas
na barbicha Fu Manchu.
Como as suas verdades são boas, senhor.
Quando pessoas vêm de longe, chegam
confusas que não veem a água para a sua sede.
É isso que o mundo precisa aplaudir.
Rapaz que muito insiste, sou apenas um
velho que come raízes e frutos.
Como a sua vida é boa, permita-se
servir de exemplo.
Rapaz que não ouve nem a pau, este
velho só sabe que o urso vai hibernar já com ele na caverna.
Então, tá...
Quando estiver em caverna alheia,
durma de tênis.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 12 de março de 2020.
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