Dentro
da floresta
Senhora e senhor, contagiante pelos
encantos graciosos, afora a técnica que deixo de comentar por falta de
conhecimento, foi assistir à Anna Prohaska, junto com aquele grupo de cellistas da Filarmônica de Berlim, num
delicioso “canta, cambaxirra! canta, juriti! canta, irerê! canta, canta, sofrê!
patativa! bem-te-vi!”. Pois, com pandemia à solta, o Digital Concert Hall ficará
aberto até o dia 30/03.
Estou no apartamento, tocando a rotina,
lendo jornais pela manhã, escrevendo minha crônica, movendo a vida, preparo a
refeição, tomo meu banho de cada dia, mexendo com a mente, tenho ouvido Barber
depois do almoço, volto ao romance que estou disposto a terminar de escrever,
tecendo a estrada na caminhada, cuido da janta, vejo a TV, faço entrar o Aldir
Blanc, topo lê-lo, curto ouvi-lo, mas, cicializado pelo Morfeu, aceito ir pra
cama, porque, sim, estou em casa.
Por conta dos meus afazeres com a
escrita, escolhi uma vida que leva em conta NÃO SAIR de casa. Com outras
necessidades, outras pessoas não gostariam da situação de momento, pois NÃO PODEM
SAIR de casa. Bem distintas, as circunstâncias. Entendo.
O ponto que para mim surge como
relevante é dizer que qualquer pessoa pode estabelecer uma rotina durante a
quarentena. É preciso tornar menos dramático o confinamento; e a adaptação às
restrições faz-se urgente, pra ontem.
O espaço continua sendo o mesmo de
outro dia. A pia da cozinha anda precisando de uma boa esfregada. O fogão,
atenção redobrada. O rejunte do box do banheiro? As lâmpadas sujas do apê? Há
tantos detalhes que revelam o tamanho da negligência. Ô vida corrida.
Limpar a casa não tira as preocupações
com o vírus. É real o que estou sentindo, o medo. Mas a calma precisa ser
estabelecida. Digo que, no meu caso, cuidar do espaço físico me faz buscar um alívio.
Por
que, então, eu fui deixado para trás, mãe?
Curioso, ansiosamente curioso. Pela
manhã, fiquei uns minutos na varanda. Sem pedestre e sem automóveis,
confirmando o desajuste. Não desisti. Um carro passou na rua logo ali; simultaneamente,
surgiu na esquina um morador com a sacolinha velha de guerra, trazia pão e
leite pra família, acho.
O
que há de errado comigo, mãe?
Ouvir a engrenagem do elevador do
prédio. Saber que há pessoas levando o lixo pra lixeira no subsolo. Sigo
acordado.
Telefonar pra minha mãe, escutá-la ralhar
com a programação da TV, ouvi-la me aconselhar a não passar o dia engolindo
tanta notícia sobre a pandemia. Não me intoxicar, isso me deixa acordado.
Você
sabe o que deseja?
Há condições de sobrevivência que o
vírus impõe a toda gente.
Isolamento, quarentena, o confinamento.
Passar por isso é viver a excepcionalidade. Que não é a regra, não é normal.
A atualidade com suas premências não transformará
em bunker o apartamento. Curtindo o
uquelele da Roberta Sá, fico em casa.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 22 de março de 2020.
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