domingo, 22 de março de 2020

Dentro da floresta


Dentro da floresta

Senhora e senhor, contagiante pelos encantos graciosos, afora a técnica que deixo de comentar por falta de conhecimento, foi assistir à Anna Prohaska, junto com aquele grupo de cellistas da Filarmônica de Berlim, num delicioso “canta, cambaxirra! canta, juriti! canta, irerê! canta, canta, sofrê! patativa! bem-te-vi!”. Pois, com pandemia à solta, o Digital Concert Hall ficará aberto até o dia 30/03.
Estou no apartamento, tocando a rotina, lendo jornais pela manhã, escrevendo minha crônica, movendo a vida, preparo a refeição, tomo meu banho de cada dia, mexendo com a mente, tenho ouvido Barber depois do almoço, volto ao romance que estou disposto a terminar de escrever, tecendo a estrada na caminhada, cuido da janta, vejo a TV, faço entrar o Aldir Blanc, topo lê-lo, curto ouvi-lo, mas, cicializado pelo Morfeu, aceito ir pra cama, porque, sim, estou em casa.
Por conta dos meus afazeres com a escrita, escolhi uma vida que leva em conta NÃO SAIR de casa. Com outras necessidades, outras pessoas não gostariam da situação de momento, pois NÃO PODEM SAIR de casa. Bem distintas, as circunstâncias. Entendo.
O ponto que para mim surge como relevante é dizer que qualquer pessoa pode estabelecer uma rotina durante a quarentena. É preciso tornar menos dramático o confinamento; e a adaptação às restrições faz-se urgente, pra ontem.
O espaço continua sendo o mesmo de outro dia. A pia da cozinha anda precisando de uma boa esfregada. O fogão, atenção redobrada. O rejunte do box do banheiro? As lâmpadas sujas do apê? Há tantos detalhes que revelam o tamanho da negligência. Ô vida corrida.
Limpar a casa não tira as preocupações com o vírus. É real o que estou sentindo, o medo. Mas a calma precisa ser estabelecida. Digo que, no meu caso, cuidar do espaço físico me faz buscar um alívio.
Por que, então, eu fui deixado para trás, mãe?
Curioso, ansiosamente curioso. Pela manhã, fiquei uns minutos na varanda. Sem pedestre e sem automóveis, confirmando o desajuste. Não desisti. Um carro passou na rua logo ali; simultaneamente, surgiu na esquina um morador com a sacolinha velha de guerra, trazia pão e leite pra família, acho.
O que há de errado comigo, mãe?
Ouvir a engrenagem do elevador do prédio. Saber que há pessoas levando o lixo pra lixeira no subsolo. Sigo acordado.
Telefonar pra minha mãe, escutá-la ralhar com a programação da TV, ouvi-la me aconselhar a não passar o dia engolindo tanta notícia sobre a pandemia. Não me intoxicar, isso me deixa acordado.
Você sabe o que deseja?
Há condições de sobrevivência que o vírus impõe a toda gente.
Isolamento, quarentena, o confinamento. Passar por isso é viver a excepcionalidade. Que não é a regra, não é normal.
A atualidade com suas premências não transformará em bunker o apartamento. Curtindo o uquelele da Roberta Sá, fico em casa.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 22 de março de 2020.










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