domingo, 29 de março de 2020

Tempo de amar


Tempo de amar

Ó bela luz da manhã, sol que ilumina. Faz abrir meus olhos, abrir melhor o olhar. Acaso insistisse permanecer no escuro, iria sem ver que tateara o ar que fugia, morcego que se encolhe emudecido? Se fosse ficar buscando reflexo em espelho opacificado pela visão ignara não sentiria o chão que toco, com pés nus a errar o caminho? O que não quero é dar-me como sobras; luto pra apoiar toque menos míope. Ó ânsia que confronta o vil, a vergonha, o abjeto, meu desejo é não ir de rastos sobre restos.
Sem me ferir com os cacos? Evito.
Não me quero mudo diante da realidade que me assombra. Quero sentir o espanto, me permitir à perplexidade, não à impotência. Quero murchar em mim o que for baderna, bagunça, balbúrdia.
Por que busco o inteiro? Reflito.
As palavras fogem? Convido-as a voltar.
Olho pros livros. Houve apartamento, em Santos, em que os livros brincavam pelo chão, tomavam conta do tapete, e corriam ir deitar-se ao lado da cama, subiam as torres comunicantes de letras, ideias, de sabedorias. Traçavam caminhos que se bifurcavam, se coleavam, se amavam, animais da liberdade bem à vista da minha indolência.
Na clausura das entrelinhas? A vida manda notícias.
Leio no El País que Penderecki morreu. Penso nestas suas aspas: “O destino de um artista é um labirinto. Acredita conhecer o caminho, mas deve buscá-lo sem trégua. Amiúde avança, porém, de repente, deve retroceder e reabrir uma porta que havia fechado. É o diálogo constante com o passado”.
Outro dia, quinta-feira última, a minha imperícia com a tecnologia frustrou minhas ansiedades. Não acessei a videoconferência em que amigas e amigos comentaram suas leituras recentes.
Havia me preparado. Tinha separado livros pro bate-papo online. Inventei discurso, amarrei trechos, estudei o fluxo. Reli as passagens, que poderiam reforçar as poucas ideias que tive.
Maravilha? Depois de carregar a bateria do telefone, pude enviar a mensagem dando os detalhes de mais este fracasso.
Terei falhado? Se textos só retratarem o explícito.
Como a pandemia massacra, mudo o foco.
A vida de um país é sua economia? A vida do país é a saúde das pessoas. Sem pessoas, não há empresas nem consumo. Além disso, pessoas dão consciência ao mundo.
Busco ajuda ao Rubem Braga. “Afinal de contas os escritores dão apenas o reflexo da realidade, ou de um de seus aspectos ― e não é vedando a sua imagem num espelho que você remove um objeto”.
Atualmente, poucos livros estão na minha mesa de trabalho. Pego um, manuseio-o com carinho.
Que bela capa, o desenho feito à mão. Há uma árvore e, soltas no ar, há folhas flutuando. E a imagem ganha outros significados com as leituras. Toca-me o verso: o tempo não dá escolhas.
Já foi dito que no universo, nada se perde, tudo se transforma.
Eis a beleza que a obra semeia em mim: a flor não seca enquanto houver amor a cultivá-la.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de março de 2020.

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