terça-feira, 17 de março de 2020

Loucura santa


Loucura santa

Entusiasmado pela perspectiva de conviver comigo durante quinze dias inteirinhos, admito que tal circunstância proporcionada pelo vírus SARS-Cov-2 tirou-me do sério, de fato.
Indubitavelmente desgovernado por quem de direito, esta cabeça, uma gracinha que adora semear brócolis bastardos em vez de belas begônias. É no solo insondável dos nevoeiros plúmbeo-narcotizantes da minha consciência que a espevitada faz-me tornar possível a falta de ar angustiante, os calafrios perturbadores das variações térmicas, o peso opressivo no peito repleto de pelos brancos.
Ô sacola de cachola. Para que foi estragar o babado? Não poderia ter ficado se esbaldando numa boa? A visão de trazer dentro de mim toda uma sacolejante fauna coronária no pulmão?
Especulação mantém a pose até o primeiro espirro.
Adeus equilíbrio, tchau razoabilidade. Bem-vindo rondó, benfazejo minueto, forró de pares intercambiáveis. Uma puta algazarra. Loucura de virar o mundo de ponta-cabeça.
Xô circo de horrores!
Não sei dizer de onde vem isso que em mim se manifesta. Isso? É tal a força de origem desconhecida que produz resultados visíveis e palpáveis. Sudorese, salivação, vontade de soltar perdigotos.
Soltar-me. Pra dar maior motivação a quem anda robotizado, meio facilitado. Deixar acontecer, baixar a guarda, encarar o desafio.
Mesmo que uma ou outra situação fuja ao controle? Entregar-se.
Contudo, recusar a alegria do sucesso apenas por que não estava planejada a felicidade obtida fora do cálculo?
É admissível que a engenharia da vida desconheça benevolências ou malfeitorias da arquitetura do mundo. Isto é, ao número o número e à natureza o natural.
Claro, isso é chover chovendo.
Se há poesia no universo, e ela há, o olhar não apaga o invisível, torna-o mensurável pelo absurdo, por oximoros, antíteses, paradoxos, numa dialética que inclui ao excluir e numa aposta que põe o nada no vazio, ou vice-versa, e tudo junto e misturado.
Sim, da confusão pode brotar o caos. Do caos, a noite. Da noite, o dia. Do dia, a chatice mecânica de viver no automático.
Ô dó.
Por favor, mente esperta, permita-me olhar para o céu sem acusar nomes, mitologias e orientações aos navegantes. Faça a gentileza de consentir a apreciação da árvore pela moderação da floresta. Saiba das amostras congeladas pelas quais cientistas babam. Sei da minha insônia pelo excesso de séries via cabo. Vamos, não vou esquecer as janelas fechadas. Usarei a porta com o juízo que me resta. Sairei pras tarefas inadiáveis e voltarei satisfeito pelo que puder fazer. Prometo nem me expor ao ridículo de tirar fotos com celulares de quem nunca antes tenha visto na vida.
Ilustríssima Covid-19, como pandemia de linhagem apocalíptica, respeito-a tanto que até o zumbi alucinado que faz festa em mim está invocando um tal de Brad Pitt.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de março de 2020.







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