terça-feira, 24 de março de 2020

Sem discurso


Sem discurso

Sigo na labuta. Inventei de pôr a casa em ordem. Hoje foi a vez do quarto. Limpando os móveis; arrastando a cama; batendo as cortinas; varrendo; passando no chão a lavanda do cheirosinho.
Sem sentimentalismo. Sem moralismo, sem ficar dizendo o quanto estou sendo verdadeiro ao querer-me dado como bom. O momento é de fazer o certo, sem almejar o adequado que esteja fazendo como bem. Sem visão utilitarista, sem pragmatismo do útil, sem querer ser tomado como modelo do que seja considerado exemplar. A cidadania em ato. Meu dever é dizer que faço o bem por que sou bom?
Ô vaidade que revolta. O momento é de sobrevivência, empatia. É hora de lutar pela vida ― a minha e a do próximo.
A vida do próximo?
Da minha família, de amigas e amigos, da vizinha de oitenta anos, do vizinho de trinta e um, da funcionária cortês e do funcionário chato do banco, da caixa tatuada e do segurança tenso do supermercado, da atendente tensa da farmácia, de caminhoneira e caminhoneiro, de quem transporta remédios às farmácias e alimentos aos mercados.
A hora é de solidariedade ― presencial ou a distância ― a quem mantém a Terra funcionando.
O momento é de escolha. E escolher com responsabilidade, com alegria, permitindo-se à alegria de viver e de querer permanecer vivo. Com medo, ansiedade, amor, carinho, afetos pro bem e o pro mal.
Como assim, pro mal?
Sim, continuo humano, carente de abraços e beijos. Mas também sujeito ao cuspe de quem me odeia quando diz que exagero ao ouvir médicas e médicos.
Sim, continuo humano, exasperado por ficar restrito à minha casa. Mas pra me resguardar de quem segue dizendo que a gripezinha se cura com a crueldade de quatro meses sem salário, como se fossem férias não remuneradas, pro próprio bem da vítima.
Quantos somos desempregados, desamparados, desalentados?
Esta quarentena veio para permitir olhar bem fixamente pra sujeira que a correria do cotidiano anda acumulando nas veias e artérias. Daí o meu coração envilecido, carcomido por dentro, petrificado no deixa pra lá que passa, esse treco imundo suplica.
Sim, vai passar. Mas que passe e siga em frente, não retome do ponto onde a podridão do nefasto azeda o leite, aumenta o colesterol e desvirtua por atalho que não resolve os humores nos rins, fígado e cabeça. Vai passar, sim, a dor de cabeça é passível de analgésico.
Com o cérebro no timão, tanto posso ir pro porto quanto pro meio da borrasca. Penso? Penso.
E penso, mal sei fingir a lágrima que brota por acaso.
Termino a limpeza do quarto. Ponho as coisas de volta no lugar. E recolho o lixo, embalo-o; desço sozinho; deposito o saco com cuidado na lixeira.
Há demônios em demasia pro inferno limitado que temos feito do planeta. Efeito do famigerado fruto que atiçou nas pessoas o desejo do conhecimento do caminho?
E, ciente de que a precisão funda a busca:
― José, para onde?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de março de 2020.






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