Sem
discurso
Sigo na labuta. Inventei de pôr a casa
em ordem. Hoje foi a vez do quarto. Limpando os móveis; arrastando a cama; batendo
as cortinas; varrendo; passando no chão a lavanda do cheirosinho.
Sem sentimentalismo. Sem moralismo, sem
ficar dizendo o quanto estou sendo verdadeiro ao querer-me dado como bom. O momento é de fazer o certo, sem almejar
o adequado que esteja fazendo como bem.
Sem visão utilitarista, sem pragmatismo do útil, sem querer ser tomado como modelo
do que seja considerado exemplar. A cidadania
em ato. Meu dever é dizer que faço o bem por que sou bom?
Ô vaidade que revolta. O momento é de
sobrevivência, empatia. É hora de lutar pela vida ― a minha e a do próximo.
A vida do próximo?
Da minha família, de amigas e amigos, da
vizinha de oitenta anos, do vizinho de trinta e um, da funcionária cortês e do
funcionário chato do banco, da caixa tatuada e do segurança tenso do
supermercado, da atendente tensa da farmácia, de caminhoneira e caminhoneiro,
de quem transporta remédios às farmácias e alimentos aos mercados.
A hora é de solidariedade ― presencial
ou a distância ― a quem mantém a Terra funcionando.
O momento é de escolha. E escolher com
responsabilidade, com alegria, permitindo-se à alegria de viver e de querer
permanecer vivo. Com medo, ansiedade, amor, carinho, afetos pro bem e o pro
mal.
Como assim, pro mal?
Sim, continuo humano, carente de
abraços e beijos. Mas também sujeito ao cuspe de quem me odeia quando diz que
exagero ao ouvir médicas e médicos.
Sim, continuo humano, exasperado por
ficar restrito à minha casa. Mas pra me resguardar de quem segue dizendo que a
gripezinha se cura com a crueldade de quatro meses sem salário, como se fossem férias
não remuneradas, pro próprio bem da vítima.
Quantos somos desempregados,
desamparados, desalentados?
Esta quarentena veio para permitir olhar
bem fixamente pra sujeira que a correria do cotidiano anda acumulando nas veias
e artérias. Daí o meu coração envilecido, carcomido por dentro, petrificado no
deixa pra lá que passa, esse treco imundo suplica.
Sim, vai passar. Mas que passe e siga
em frente, não retome do ponto onde a podridão do nefasto azeda o leite,
aumenta o colesterol e desvirtua por atalho que não resolve os humores nos
rins, fígado e cabeça. Vai passar, sim, a dor de cabeça é passível de
analgésico.
Com o cérebro no timão, tanto posso ir
pro porto quanto pro meio da borrasca. Penso? Penso.
E penso, mal sei fingir a lágrima que brota
por acaso.
Termino a limpeza do quarto. Ponho as
coisas de volta no lugar. E recolho o lixo, embalo-o; desço sozinho; deposito o
saco com cuidado na lixeira.
Há demônios em demasia pro inferno
limitado que temos feito do planeta. Efeito do famigerado fruto que atiçou nas
pessoas o desejo do conhecimento do caminho?
E, ciente de que a precisão funda a
busca:
― José, para onde?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 24 de março de 2020.
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