O
olho da noite
Se o dia promete, cumpra-se o ordenado
pelo que se há de fazer.
Sentado à mesa de trabalho, a tanto de
implicar com a insistência do vento a desnudar a face do espelho: que poesia haverá
em ficar bulindo com as coisas da gente? Bafo da Terra, vá brincar lá na praia,
tem tanto azul para poder pôr pra fora as suas asinhas.
Sem o susto do medo que prega peças,
faço minha parte e, neste texto, vou movendo o fio do realismo, o elixir dos
prosaicos, uma vez que, à cata de alguma personificação, não darei corda ao
místico.
De prosa em prosa, com a mão do cronista
abrindo mão da língua do vento, chego aonde o gatinho familiar do Manuel e as enigmáticas
pedras do Carlos vão ninar o poeta, já fora de cena.
Uma vez que não acreditar em nada pode
causar problemas, trato indispensável montar o quadro, ajeitar o figurino e
decorar o texto.
O que tenho para dizer?
Conheço uma anedota, dessas que não fazem
rir, que minha avó contava nas ocasiões mais esquisitas, quando a parábola soava
mais estranha. Só depois, bem depois, quando as lufadas já não eram tão violentas,
então a fresca tomava rumo, como frescor de brisa.
A historieta diz que um campônio estava
indo pela estrada. Num saco às costas, levava queijos e compotas de doces; e num
carrinho, um sortidão de vegetais.
A caminho do vilarejo mais próximo do
lugar onde morava, ele ia vendendo os seus produtos. E tinha pressa.
Para aliviar-se das iguarias de açúcar,
tanto punha fé que o sol as mudaria que até o saco foi logo vendido. E queria
apressar-se.
Na lábia, professava que ia atrás de
unguentos pros dedos tortos de trabalho. Quem o ouvia lamentar-se da faina dos
dias comprava mais do que precisava. Ele sabia matar a sede que sugestionava.
Tendo já percorrido quatro partes da
sua jornada, o pelintra viu-se com uma cebola. Como a estrada chegava ao fim, o
jeito era negociar com quem aparecesse na frente.
Vindo dar-lhe as boas-vindas, da choça
de palha a pique saiu um velhinho de andar pesaroso.
Cantou-se a ladainha de restar apenas aquela
mísera cebola.
O ancião, assentando-se junto do andante,
propôs comerem a tal cebola; repartida entre ambos, ao sabor da pinga do seu
alambique.
Eles comiam, eles bebiam.
Falaram das noites frias que anunciavam
o outono vindo, e o gole. Falaram dos dias do inverno que pediam despensas,
outro gole. Daí a primavera aflorou de permeio, daí o gole derradeiro.
Não seria o caso de sair de mãos
abanando.
Se o velhinho jogou de longe uma moeda
de cobre nas mãos em concha da visita? Pois beberam juntos. O cego atirou-lhe
uma moeda de prata? Que manhã boa tinha sido aquela. E como paga da farra na
cidade, o homem da choupana deu-lhe a sua moeda de ouro.
Mostrasse as mãos; elas estavam sem
nada. No sério da palavra, aí a cebola do ano germina em quem só tem olhos pra
ver.
E foi, é?
Oxe. No véu do espelho, a lua de
dezembro tá que nem pisca.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 17 de dezembro de
2019.