terça-feira, 17 de dezembro de 2019

O olho da noite


O olho da noite

Se o dia promete, cumpra-se o ordenado pelo que se há de fazer.
Sentado à mesa de trabalho, a tanto de implicar com a insistência do vento a desnudar a face do espelho: que poesia haverá em ficar bulindo com as coisas da gente? Bafo da Terra, vá brincar lá na praia, tem tanto azul para poder pôr pra fora as suas asinhas.
Sem o susto do medo que prega peças, faço minha parte e, neste texto, vou movendo o fio do realismo, o elixir dos prosaicos, uma vez que, à cata de alguma personificação, não darei corda ao místico.
De prosa em prosa, com a mão do cronista abrindo mão da língua do vento, chego aonde o gatinho familiar do Manuel e as enigmáticas pedras do Carlos vão ninar o poeta, já fora de cena.
Uma vez que não acreditar em nada pode causar problemas, trato indispensável montar o quadro, ajeitar o figurino e decorar o texto.
O que tenho para dizer?
Conheço uma anedota, dessas que não fazem rir, que minha avó contava nas ocasiões mais esquisitas, quando a parábola soava mais estranha. Só depois, bem depois, quando as lufadas já não eram tão violentas, então a fresca tomava rumo, como frescor de brisa.
A historieta diz que um campônio estava indo pela estrada. Num saco às costas, levava queijos e compotas de doces; e num carrinho, um sortidão de vegetais.
A caminho do vilarejo mais próximo do lugar onde morava, ele ia vendendo os seus produtos. E tinha pressa.
Para aliviar-se das iguarias de açúcar, tanto punha fé que o sol as mudaria que até o saco foi logo vendido. E queria apressar-se.
Na lábia, professava que ia atrás de unguentos pros dedos tortos de trabalho. Quem o ouvia lamentar-se da faina dos dias comprava mais do que precisava. Ele sabia matar a sede que sugestionava.
Tendo já percorrido quatro partes da sua jornada, o pelintra viu-se com uma cebola. Como a estrada chegava ao fim, o jeito era negociar com quem aparecesse na frente.
Vindo dar-lhe as boas-vindas, da choça de palha a pique saiu um velhinho de andar pesaroso.
Cantou-se a ladainha de restar apenas aquela mísera cebola.
O ancião, assentando-se junto do andante, propôs comerem a tal cebola; repartida entre ambos, ao sabor da pinga do seu alambique.
Eles comiam, eles bebiam.
Falaram das noites frias que anunciavam o outono vindo, e o gole. Falaram dos dias do inverno que pediam despensas, outro gole. Daí a primavera aflorou de permeio, daí o gole derradeiro.
Não seria o caso de sair de mãos abanando.
Se o velhinho jogou de longe uma moeda de cobre nas mãos em concha da visita? Pois beberam juntos. O cego atirou-lhe uma moeda de prata? Que manhã boa tinha sido aquela. E como paga da farra na cidade, o homem da choupana deu-lhe a sua moeda de ouro.
Mostrasse as mãos; elas estavam sem nada. No sério da palavra, aí a cebola do ano germina em quem só tem olhos pra ver.
E foi, é?
Oxe. No véu do espelho, a lua de dezembro tá que nem pisca.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de dezembro de 2019.

domingo, 15 de dezembro de 2019

O ofício


O ofício

Quando abelhas param um ônibus, será sinal dos tempos?
Largo a notícia sobre os últimos eventos na Inglaterra eleitoral, no súbito da chuva. Corro às janelas, chove forte. E na chuvarada, umas crianças desgarram-se do pai e da mãe que vão conversando, como se chuva não houvesse.
Como não havia dessa vez, no recuperado do acontecimento.
Talvez me conjurem de tê-lo trazido pelo prazer da rememoração sem motivo. Não fosse o homem aí sentado no meio-fio com a boca escancarada pras nuvens que mandam água do céu.
Tirando sentido disso?
Lá estava eu, engessado na autoridade do paletó. Como padrinho, no engravatado da cerimônia. Sorrindo minhas dissimulações. Então, deu-se a entrada dum figurão do interior, da cidade paulista, que era Piedade.
Pelas tantas, veio o merecedor das devidas vênias. Mostrando-se, pelo porte, considerar-se vereador, prefeito, quiçá um dos magnatas do comércio, e mui digno dos maneirismos de alguns dos presentes.
A jovem e o jovem, os mocinhos, contavam com a vinda daquela agenda apertada. Providencial, mesmo, foi uma senhorita tomar-lhe o braço para composição do nosso lado, que ele era como éramos ali, testemunhas do casamento.
Se fosse uma história da carrochinha...
Quebrando o protocolo, tornado vilão pelas circunstâncias, um cão viria conferir o que estava ocorrendo. Sem convite que o autorizasse entrar, viria assuntar a mulheres e homens, com os seus olhinhos a indagar o motivo da reunião. Contudo, sendo conto de outra espécie, aqui não se verá no encalço do filósofo de patas o óbvio barnabé de laço na mão.
Com o ritual seguindo seu rumo, sequer a presença em cena do homem das ruas mereceu ter sido notada. O invisível seguia fora de foco àquela gente orgulhosa das conquistas, cidadãs e cidadãos que, nas palavras do pastor, houveram-se por abençoados.
Todavia, façamos jus a uma história que faz em cacos o esperado, pois o protocolo, uma vez introduzido na crônica, é para ser feito em pedacinhos.
Dito isso...
Quando a magia da celebração parecia já bem encaminhada, eis que duas menininhas, gêmeas até em suas roupinhas, ei-las a correr em meio aos convidados, na algazarra das trancinhas em disparada.
Acabei perdido do interesse no compartilhamento do fogo de uma vela para duas menores que a ladeavam. Adeus, metafísica. Adeus, ó metáfora do amor supremo. Adeus, adeus.
Fez-se a fila dos cumprimentos, noiva e noivo acolheram por bem recebê-las, as felicitações, com aquela resignação dos receptores da verdade, havida como fogo no sacramental da explicação.
Guardei ouvidos sobre o ministro, que era pai de satãs sem sutiã, que, embora constrangidas, ó hormônios do demônio, sabiam sorrir.
Tais olhares numa contradança?
Sob pancadas perdigotas de renitentes, a graça dos peraltas está em manter o clima sem ferrarmos o rebolado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de dezembro de 2019.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Fumacê


Fumacê

Como não tem podido ficar em casa, que hoje fosse o caso. Bem faz que seja, está chovendo. Puxa a cortina, o tanto pra conformar-se com o aguaceiro a impedi-lo de ir aonde houvesse de ir. Frio, vento e chuva, que não sejam tais condições a vencê-lo? Irritam-no. Com a cabeça pegando fogo, e sem ao menos arranjar uma cara digna, a de quem escolhe por si o constrangido do apático, topa a máscara que resulta na mensagem digitada. Aos vivos, diz que a vontade é mesmo de ir-se para atender os compromissos, mas esse tempo. Não fosse, teria podido sair de casa. Como queria ter podido mais. Até bate uma saudade, do nada.
Aconteceu. Num ônibus, indo ao psiquiatra em Santos. Se mais ou menos? Em atrito consigo mesma, que trate a mente de se retratar:
Como tenho talento pra me concentrar no que faço, procuro errar bastante, assim no desembaraço de ir escrevendo, sem ficar vigiando que a fala da escrita vá ditando o seu ritmo, na velocidade com que a mão consegue acompanhar o que o pensamento solto vai saltando, é como se a correnteza fosse menos de água e mais de ar na ventania de sua necessidade de expressão, sem as rédeas das margens, sem os arreios de impor ao xucro a cavalgada do conformado ao cabresto, passo a estudar como cheguei aos erros, e ir mudando, aprimorando, custa o esforço da coisa querida, vou aparando o excesso, e vou na levada, até que os erros ganhem em mim o estatuto da virtude, assim conquistada na concentração da melhoria, a do mal tornado bem, do imperfeito que foi sendo lapidado, burilado, decomposto, recomposto, até revelar a luz do limite do possível, o que ganha de mim um ufa!, que é aquele peso tirado dos ombros, ufa!, nada como fazer o que dá pra fazer sem se descabelar, que assim o fabricado desse modo tem ainda a preservação das cicatrizes, cascas, feridas, manchas, do que não sai nem com cândida, mas tem que o resultado não vou chamar de horripilante, uma vez que monstro é a perfeição, que é o antípoda do bem feito. Se gostou da coisa, roube-a pra você. É isso, a vida diz verdades sem as platitudes do verdadeiro, como se uma pérola fosse achado do improviso. Toca! Pegue, pegue sem medo, que ideia não se rouba, se compartilha.
Rosa? Rita, o nome que a voz turva dos ruídos parece borbulhar. Decantá-la, a face, trabalho que os trapos da memória cobrem mal. Da visão captada, o aplicável ao real; da apreensão, o rebarbativo.
O ato, pra quê. Pra escrever, o quê. O que pensa, como. Como se vive, quando. Quando escreve, sobrevive. Até por quê? O texto diga o que tem pra dizer. Embora a razão sofra derrotas, que ela lute com o reles da cuca.
Que fogo é esse?
Se não do trânsito dos neutrinos que passam pelo corpo que não os ampara, de onde vem?
Ao tirar o dia para o disponível do ócio, a recompensa do espanto resultaria em maior fracasso se tentasse frear-se ao menor gozo.
― Ô pirralha do cacique.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de dezembro de 2019.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Um abraço


Um abraço

No friozinho deste instante, passa por mim um cão. No encruado deste instante, vegeta no seu olhar uma flor sem viço, o baço do seu desatino. Este desgarrado reverbera o mundano da sua presença. No seu olhar, a solidão de quem espera o que deseja. Na ânsia de suas necessidades, algo estranho manifesta essa vontade que não sabe de si, mas busca abrigo. Uma incompreensão aquietada no diapasão do pedestre; um rocio na raiz da muda ― abismo de cão no homem.
Irmanados na dor, nessa dor funda de quem pouco deixa de si nos rastros do mundo, como desejo que se cala pelo desconcerto diante da vida. Embora negado, seguidamente negado, o cão não se busca nas perguntas que não faz, guarda o amor aos pés dos sentimentos. Chega a abanar-se ligeiro, atiçado talvez por ter sentido a resposta, e veio tão somente outro gesto qualquer.
Diante do que passa, o menino não fica sentado.
Se falta a palavra, que se invente. Que seja a mais precisa, a mais íntima do que sente, a que expresse o que quer dizer. Com pontos de fuga, perspectivas de espirais, abstrações de névoa, esse tanto que o confunde. Afinal, quem roda em torno de si afaga a vertigem.
Sol? Pelo brilho quando pronunciada, talvez seja mesmo a palavra sol a que esteja imaginando, no momento deste ardor.
O menino sorri, pois algo aí não o convence de que esteja certo. A boa nova da coisa toda é que não quer nem pensar que esteja certo. O sol, isso o põe bastante alegre, cheio de si nessa alegria, embora nem desconfie que seja euforia, aquilo, o que o move.
Ô sarna! Vai ao lápis para exprimir o que pulsa na mente.
A gravidade do pensamento sugere a poesia que lhe escapa mal o grafite baila no ar. O inefável que o inspira nem sopra ruínas; pétalas e espinhos somem ao redor da folha.
Encantado pelo que não veio, abre-se ao sorriso do singelo?
Fechados os olhos, ajeitado ao corpo, desnudo na cama, sente-se de volta ao figurino de menino só.
Levo-o, quem almejava cantar o que hoje canto. Não apenas por mim nem só por ele, me apetece pedir por tantos que zanzam por aí, enfiados numa tosse que logo vai passar, entretanto não passa coisa nenhuma.
Menino, conquanto possa um tropeço, cuide que estão olhando de soslaio. Bem no momento da passada, há uns trecos que gostam de fazer piada. Rapaz, a rua anda louca para rir da nossa cara.
Vou-me, e sou levado a ir. Reluto, e luto. Escolho baixar a febre.
Quando passo ao pranto, conheço o triste do desamparo. Todavia, pela lágrima, importa saber que o mundo não sente da maneira como sinto o osso do viver?
O sol sobe as montanhas, desce os poços, escala as notas, atalha frases. Sem interromper o fluxo, sua língua estrala. Há uma implosão, há este sol que se apaga. Há uma explosão, o eco do que se perde à razão do ser.
Trocando em miúdos, o menino que carrega o homem nos braços claudica ao traduzir, em palavras, o que significa esperança.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de dezembro de 2019.

sábado, 7 de dezembro de 2019

O amor indispensável


O amor indispensável

Nas compras, com a multidão pagando pela paz na Terra.
O amor que nos une é que nos afasta dos maus, diz o homem de guarda-chuva na mão. Permanece calada a mulher de sombrinha na mão, mais interessada em uma sandália de prata. Talvez quem pouco amor tem recebido possa negar que as festas do Ano Novo já dobram a esquina, mas não o faz.
Pode acontecer, pois está vindo. E traz o branco do vestido curto e o branco do bermudão pelas canelas. Funde a saliva pela sandália de prata à da perdição do sarongue cor de sangue com girassóis, araras e um coiote ocre. Isso, ocre no rubro.
Sem gritar e sem ultrajar, passa uma turma. Vem de cabeça baixa, telefone na mão. Meninas e meninos; em grupo, e sem tropel.
Por sua vez, o amor que une muito agrada a quem vive grudado no próximo, de modo que, afinal vindo, será pérola a mais no colar da vida, insiste o chato de pescoço à mostra.
O inocente não perde a inocência quando se diz inocente, reza o tagarela. Perde-a quando diz coisas sem pensar, emenda no gatilho a distraída. Põe a palavra depois de outra, diz àquela a terceira, a essa a quarta. Até que o poço dê no fundo de outro. E? E? Juntos fazem correr suas águas. Olham-se e vão pensando, vão.
O ar continua condicionado. Não como batatinha nem bebo refri.
Logo ali, na fila do caixa, a estudante de Direito conversa consigo, se faz o dia virar noite, entendo; se faz o que entendo, aí me arrisco a querer pra mim uma folga; o doce amarga de azedo, quero ir embora.
O professor de História está atrasado pra aula depois do almoço, em vez de espantalho, instalem-se parabólica e painéis solares, pra que os ouvidos possam ouvir, pra que os olhos possam ver.
Também tenho ilusões, mas elas voam. Lá fora, são andorinhas.
A mulher passa pano úmido no chão do shopping, a queda do céu não pode vir, então, que não venha, já o suor faça do milho estocado as broas às mães que se aproximam como luz das madrugadas, bebe a água que pode, e se borboletas sabem virar vaga-lumes, podem o que mais?
Também entra na história o senhor que tem tempo de sobra, se a noite sai, o sol entra, se as nuvens rodam no céu, trazem chuva, água boa pros frutos que serão colhidos na estação, pra que bocas comam seu quinhão.
Sigo comigo, minha vó cirandava em silêncio, entrada na lucidez octogenária, vergonha não punha no que fazia, punha o medo de ter perdida a vontade de seguir como gente, bicho que pensa, flor do riso que chora, deixava maldizer da vida quem vigilante da fé apregoada a si mesmo, minha vó olhava, eu olho.
2020, meu caro.
Desde já, saiba que não pularei nenhum dia e vou tirar o coração pela boca quando for justo que o tire. Caso o amor queira ficar numa boa, ficarei lendo e pensando. Mesmo que a desfeita seja dígitos em uma urna, essa boçal que me come feijão e frevo? Haverei de ferver, e faço voto que não me falte sequer uma sombrinha.
Inté mais, 2020.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 08 de dezembro de 2019.

Sintonia fina


Sintonia fina

Miando, um gato deu a dica de que estava cercado de folhas por todos os lados. Empoleirado no galho do arbusto, e por saber o lugar que ocupa neste ponto entre Boqueirão e Forte, o tinhoso miava.
Nesta aprazível estância balneária, da varanda deste apartamento observo cães correndo atrás de passarinhos, passarinhos fugindo de gaviões, gaviões comendo restos na praia, a praia que acolhe quem a escolhe.
Ô simpatia.
Sei da orla a quarteirões daqui, mas simpático à ideia de que uma cidade praiana pode amáveis reflexões, teço gracejos, e até um gato na árvore vem para quebrar a manhã em duas.
Sim, em duas. Antes, quando o escriba foi às compras, não ouviu miado algum ao passar pela jabuticabeira, que nem era propriamente uma mas, para tornar apetitosa a leitura, fica transformada no meu pé de jabuticaba.
Em duas, como ia dizendo. Porque, voltando, eis o consumidor de sacolinhas na mão. Aliás, nem deveria estar carregando as quitandas neste tipo de material, pela difícil degradação do plástico.
Feitas as ressalvas, a da imaginação fantasiosa que manipula este cenário para benefício de quem lê e a da necessidade tão urgente da conscientização climática de quem lê e de quem escreve, passemos às artes do bicho de bigodes que mia a plenos pulmões.
Estaria o felino esgoelando a incompetência pra descer do lugar a que subiu por capricho? Idiossincrasia apenas dele ou da espécie? A tais perguntas o texto não encontra respostas.
O quê!
As boas e samaritanas mãos da dona do miau acorreram e deu-se o resgate. Proporcionando a todos uma cena tocante.
Haja vista ter testemunhado o tatibitate capaz de tirar ronronados mesmo deste cínico, admirador confesso dos cães de rua, o narrador compadecido permitiu-se sorrir.
Mas, este bichano é outro bicho.
Afável ou emburrado, eis que o escrevinhador partia em missão ao comércio da avenida. Indo atrás do ansiolítico e buscando tinta para a impressora. Pondo ordem nos fatos? Antes das compras, desfrute-se uma casquinha, sentado no calçadão, com o marzão de horizonte.
Teria sido o roteiro da tarde, mas outro animal entrou outra vez no meio do caminho de quem ia e parou. E parado, pôde ouvir.
O gato da goiabeira era zarolho, este é malhado.
Goiabeira?
De fato, querem tumultuar a narrativa. Porém, o homem que narra viu no celular que a moça e o alpinista não eram os mesmos.
Boquiabertos; houve quem desse um passinho atrás, acusando o cronista de alcoolizado em serviço; ele jura que não bebe há meses e sequer tomou o café das três.
Assinaladas as incongruências, que a presente crônica relate que: o filhote e a senhorita passam bem; o siamês cego fica se lambendo diante dos eventos; como beija-flor-das-acácias, falta o gato que falta; o chão segue firme na calçada; todo e qualquer gato é bicho.
Reparando os gatos... A sutileza está no miado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de dezembro de 2019.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Pindorama, meu amor


Pindorama, meu amor

As festas estão de volta. Outra vez.
E, como sempre, o controle da velocidade da passagem dos dias está nas mãos da mais arteira das crianças, Jânio. Assim, topo sentar diante da TV para aplaudir o rio dos fogos, cantar as fraternidades ao peru, lacrimejar uns amores na virada.
E olha que o ano nem quis saber da minha entrega. Sim, mudei os hábitos. E tudo começou com uma colherzinha de café. O bocadinho do pó de café, o torrado e vendido nas gôndolas, passei a derretê-lo na boca, com a língua amargada no pinhão.
E fiz o possível pra não deixar mofado o pão da partilha. Me armei das melhores intenções pra desaguar as ânsias que a boca rumoreja.
Quando vão chamar pra ver o sertanejo que não desafina?
Não posto mais na pia os pratos vazios da comilança desenfreada de hambúrgueres e miojos. E tirei o cafezinho de hora em hora, ainda mais porque adoçado com a pontinha da colher de sopa. Parei com o açúcar que punha no café.
Também sou gente, gente.
Tudo começou quando me dei conta que andavam enfiando colher na minha boca, de modo que ia engolindo bules e bules de café como quem carrega sacas de açúcar.
Pois é, já caibo à mesa.
Apesar de a multidão da casa dizer que tem sono, digo de mim pra comigo mesmo: estou pronto. Então, que venham os sinos do galo. E tragam goiabadas e marmeladas.
Cabaninha no quintal? Mudei de pele.
Vestido a caráter, caprichado no melhor dos figurinos, o medo me despe o atraente. Com o pudor dos puritanos, a gabolice dos imbecis, a vigarice dos cretinos e a parvoíce dos tolos. Finíssimo; tô outro.
Posso a pose ao lado da manjedoura.
Pra que a paz cresça das sementes da verdade e seja feita, travo o riso. Mesmo que o capim da soja seja de plástico nas entranhas do boizinho e da vaquinha? É de felicidade que mugem. Afinadíssimos.
Por onde hei de ir-me na poesia destes dias? Por Maracangalha, de pandeiro na mão? Oxe. Não, não, irmão do sol. Vou, pelo canto.
Para onde hei de ir-me com este drama? Para Pasárgada? Oxe. Não, não, irmã do sal. Vou, pelo conto.
E tudo vai acabar bem, uma vez que vou parar de contar sapos na hora de dormir. Talvez, já o travesseiro certinho sob a cabeça. Talvez seja doce dormir em paz, na paz dos justos.
Para tanta leveza, toneladas de amor.
Diz o amor em mim, diz o que me acalma:
Por favor, nada de Maracangalha. A alucinação tem dentes que já devoram os próprios dedos. Por gentileza, nem Pasárgada. Tormento é ter cães sem coleira nos calcanhares das doceiras.
Quando o orvalho da aurora goteja sua hora?
O fiel sabe que quem não ajoelha não merece os joelhos que tem.
Oxe!
No topo da escadinha de cinco degraus, com uma lata e um pincel de largo calibre? Abro a porta ao sopro do sonho e nele, nesse sonho torto de fome, há este poeta de pernas de fora e barro nos pés, é ele que escreve com a sua letra meio itálica:
O chão que nos acolhe haverá sempre de nos recolher.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de dezembro de 2019.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Crepúsculos


Crepúsculos

No alto do chão em que me encontro, acordo com a passarinhada na cantoria de quem bota fogo no mundo só com o bico.
Mal abro a janela e, pela perspectiva das seis da matina, dou com a frieza do ar. A ressaca da rotina impõe o sol subindo os degraus da sua escalada. O futuro da manhã não assobia presságios.
E esse espertinho que estava na mureta da sacada? Se mandou sem nem ao menos levarmos um lero? Meu corpo tem o seu relógio ajustado pelo verão que já se avizinha. Portanto, não se sinta culpado por ter acabado com o meu sono. Numa boa, amiguinho, volte aqui.
E nada? Na mesma.
Abro a porta da varanda da sala e, de repente, passa um troço no céu. Será possível mancha de petróleo com asas?
Melhor pegar receita pra tanto lixo químico que ando comendo.
Quanto sei de passarinhos e manifestações psicossomáticas? Ixe. Da balbúrdia da natureza, o bem-te-vi tem fácil reconhecimento pela onomatopeia que o distingue. O mais? Se dou por perdido o jogo de unir nome à coisa em si? Prefiro ir caminhar no calçadão. E vou.
No meio do exercício matinal, me veio à mente a jornada cumprida num sábado de 2004 ou 2005. Certeza mesmo? Confio que em 2003 não foi, pois tinha acabado de me mudar da região de Sorocaba pra Baixada Santista. Tinha saído das fraldas da infância pra vir assumir algo bem parecido com a autonomia da maturidade, algo assim.
O que foi que lembrei sem querer, ou querendo lembrar ao modo descontrolado da cabeça que pensa por mim o que nem me imagino capaz de lembrar? Recordei uma descida da Serra do Mar.
Descemos. Os quatro estudantes de Letras da Católica de Santos, que formávamos um grupinho da fuzarca dentro do grupo monitorado pelo pessoal do Caminhos do Mar, trilhamos o parque estadual. Lá de cima, partimos do estacionamento da Henry Borden? Apagou-se... Mas viemos até o pé, ao Cruzeiro, em Cubatão.
A vista espetacular da Costa da Mata Atlântica. Aos tropeços, aos escorregões. As tramas das sendas na mata. Quem dera livrar-se das picadas de muriçocas. A natureza: ao vivo e sem dó.
Fomos pela Estrada Velha. Lendo placas, passamos a saber dos marcos históricos do caminho que estávamos fazendo. Surpresa foi ir descobrindo a vida humana, com funcionários de empresas a subir e a descer pela área que julgávamos entregue à preservação do mico no cipó. Como um cenário selvagem? Uma floresta intocável, por lei. Aliás, a cobiça por novos conhecimentos não nos impediu de dar com o policiamento ecológico, da Florestal, cuidando pra que a gente não tirasse casquinha alguma, só fotos de suaçupitas e jerivás.
Caminhada feita. O sofá no lugar. Os livros nas estantes. O míope percebe... É nas cinzas que renasce um urupê.
Se guardo em mim que a Marquesa de Santos não pernoitou na casa de pedra da Serra, o que virou fumaça nesta tela sem parede?
Ô curió, não foram as faculdades; ê paruru, foi o diploma.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de dezembro de 2019.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Hora, hora


Hora, hora

Luiz, o pequeno, tinha um mestre, o velho Luiz. Ambos Luíses, pai e gafanhoto, vieram ao mundo em Ibiúna, como advertem os cálculos do narrador. Na função da memória, com sua escala peculiar, tem-se o holograma do salto pro solo do Concerto para Oboé de Wolfgang Amadeus, o Mozart. De cortar o fôlego, o oboé chega a suspender o momento, apesar das escoriações sobre o corpo.
Um Gabigol a entortar o pescoço dum desgovernado?
Deixe o deboche pros cães da pátria, ó Luizinho. Mas, tente forrar o riso com esses dias de taxa das grandes pobrezas. Mas, resista ao fundir a chalaça do regressivo à burla recorrente das infâncias.
Isso, o instante da fuga, faz nostalgias com a matéria boa? Fá-las, raciocina o calado do altercador com ares de sabujo.
Isso, a sarna da sabedoria, faz saber o que quer dizer o vão, cuja carne viva pouco diz a quem tem unha?
Quem tem unha que a trate, que as pulgas insultam as narinas ao circular os circuitos da pilhéria, se desalojadas por espanador. O que diz? Poeira, entre O Paraíso Perdido e O Tempo Redescoberto, diz o gaiato da Modesta Proposta.
Vê-se aí uma exploração qualquer. Mas qual?
Está no ar. Sufoca-se. Portanto, respirar faz mal.
Mas respiração nem é da conta de quem respira. O ar entra, pois tem mesmo que fazer funcionar as peripécias, daí volta pro restante do ar que fica naquela impaciência.
― Então, como é lá dentro? Tem monstro de verdade?
O ar? Entra de um jeito e sai de outro. Porém, só o ar não basta a quem estuda as atuais condições, por isso apela a instrumentos pra medir. E o ar, concentrado na geleia geral? Nem aí pra quem precisa medir o quanto de ar precisa quem precisa de ar para viver.
Viver, e viver em paz. Isso? Isso é de cortar o coração.
O coração, eis a raiz a quem reflete sobre as condições de tempo e temperatura. Pulsa, se medicado. Há remédio a quem treme? Se há feijão a quem tem boca; se pode o pão quem tem febre. O dito cujo? Cães o amassam com o rabo ― se sentados, grunhindo; se deitados, rolando. O coração no peito de quem tem pulgas late aos afagos dos muxoxos. Todavia, as pulgas que os cães trouxeram para casa fazem a festa. Festa? Se for pra faltar ao respeito: ô suruba.
Quê? À baila, musas sorriem uma infância.
E vinha? No manso da carroça numa batida de cascos, o menino largava da rédea sem ouvir as toras virando pizza, que a fatia noutro balcão fazia solfejarem os pezinhos; no sábado da padaria do Gildo e do Serafim, naquele gostinho da noite, tal a mímica do alvoroço.
Sim, a cotovia das veredas canta aos tíbios o dissonante à arenga de quem, em tudo, revê tantos quebra-quebras.
Ê explosão de vermes no ventre do colosso. Ê chusma de arrotos da malta do meia dúzia. Ô linguagem sem drama.
E se taxar o desemprego? Orra!
A mulher do Nunes (segundo o Braga, a primeira) não foge à letra:
― O quê tem que ver com eme e pê...
Toca pro Allegro aperto? Da capo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de novembro de 2019.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

O rubor dos dias


O rubor dos dias

Abre-se a cortina e começa... Se a cortina imaginária está aberta, vamos ao espetáculo. E pra hoje, temos o quê?
Dizem que as laranjas não param de crescer onde já se esperava, e robustamente desavergonhadas, mesmo com o aumento do CO2 na atmosfera, 147% a mais do que em 1750, dado informado nos jornais de hoje. Dizem também que santo de barro só produz lama quando à mão do bem molhado, e haja melado para produzir essa Declaração de Condição de Estabilidade para a barragem do Córrego do Feijão, da qual os peritos tiram muitas pás de terra. Dizem que um terráqueo orientado economicamente ou trabalha pra consumir ou consome pra trabalhar, com o olho da GLO na canga. Dizem... Dizem...
Há tanto a ser dito que bom seria nem abrir a boca? Prefiro falar. Mesmo que a língua caia de podre ou acabe infestando o ar de tanto chorume? Enquanto ficarem zunzunando por aí, falarei.
Se ando vermelho de raiva? Talvez porque ande a pé sob o sol ou por causa do negativo no banco. Só digo que colorado é o Verissimo.
De repente, uma moça de óculos escuros sai da calçada, vai pela areia; e ali pelas tantas, para, fica de costas pro Atlântico, que brinca a seus pés; está sorrindo, daí apronta o que nem parecia possível. Ela desloca uma palavra pra cá................e outra pra lá.
― Seu Rodrigues, o senhor me perdoe a intromissão do meu jeito autorizada, mas tenho algo pra dizer pra quem tá lendo: sou Mengão. Obrigada, muito obrigada, Éverton Ribeiro, Gerson, Bruno Henrique, Arrascaeta, Gabigol e Jorge Jesus. Claro, claro, claríssimo, agradeço também ao senhor, por não tirar os pontinhos ali de cima. Pois este espaço me está sendo muito útil, assim posso falar à vontade, sem a supressão do que tenho pra dizer. E digo mais: Nação... Vapo!
Vapo?
Com essa não contava. Personagem vir assim, e assim me tomar a palavra pra dizer o que quer? Ora essa. Sinceramente, desconheço caso que a tal feito guarde semelhança. Se bem que a Biblioteca de Babel tem labirintos dentro de labirintos que até o texto ignora.
Toco o barco.
Como se nada tivesse acontecido?
A igualdade dos justos faz fraternos os livres, educados no amor.
Como? Então, aos submissos, ódio? Aos injustos, ressentimento? Aos fraticidas, a lei? Aos desiguais, chamada oral como castigo?
Que a lei não exclua; e nem justifique a morte por excludentes.
A cabeça tá precisando de um sorvete, né?
Minha cachola não é o centro do mundo, por isso vivo pegando no ardente do lume o que preciso para seguir na lida. E faço da leitura a faísca do aprendizado. Leio não apenas para a distração das horas; ainda, para fecundá-las com o profundo da vida no conhecimento do mundo, pra saber das gentes, pra ter ciência do que pinto e bordo.
O iceberg sobe e afunda, navega, já disse uma poeta.
Adeus, dizemos, adeus.
A Bishop de braço dado com a flamenguista? Dá samba.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de novembro de 2019.

domingo, 24 de novembro de 2019

Fantasma na máquina


Fantasma na máquina

Talvez instigado pela vocalização insólita de Thelonious Monk ao tocar Don’t Blame Me no disco Standards, que ouvi pouco antes de ir roncar, nem deu para acordar direito, que fui direto ao banheiro. Com a urina assanhada descendo pijama abaixo, apelei pro chuveiro. Sob a ducha, todavia, puxei pelo que me socorreu, outro fio pela memória: Patrício Bisso passando à paisana na Galeria Metrópole sem entrar na fila pra filme da Mostra.
Francamente, ô treco espantoso, essa tal de lembrança.
A vida faz-se por circunstâncias que fogem ao domínio; por não as dominar, mostram-se indecifráveis; enigmas que estimulam a minha curiosidade de entendê-los.
Há engrenagens que, obscuras de tão lógicas, põem-me um piano desafinado das especulações, aos sobressaltos.
Porque, escrevinhador a compor textos, o minueto do esboço põe esquisita a crônica. Que tente o próximo, e venha outro, mais um, até que a névoa dissipada mostre a praia que está onde sempre esteve.
Francamente, honrado, isso de contar história.
E conto. Houve uma vez, do distante meio-dia, que a mim me veio um homem, que trouxe seu rosto sujo, os andrajos fétidos, as fomes cariadas, o horripilante. Na figura de um mendigo, a sua pessoa, sem pedir comida, bebida, um centavo, veio dar algo, um caderno. Ofertou folhas da sua autoria, que era mundo que nunca antes houvera visto, e a ele nem a mim tinha por apercebido. Anônimos, aliás.
A honra conhece a falta pela ambição?
O homem confiou suas notas sobre Júlio César de Shakespeare. Precisamente quando estava lendo sobre as águas nas águas lá em Veneza. Caso haja infiltração desta naquela leitura, o útil do oráculo cede ao certo.
Porém, tomo aos fulanos, cotidianos em mim, a regra do saudável: não bastassem comer, falam igualmente; ao depois, dormem.
O espírito da inspiração arrepia a nuca, e corro digitar o que a veia eriça. Será de bom tom repelir ideias repentinas? Abraço a espada do entranhado no ar. Pra provar sua carne, lambuza com o mais sutil fel de abelha à boca do que penso.
Trabalho cura o que o capital cobra?
A catadora conta que tem mês que não passa nos trinta dias.
No comum dos caminhos? A igualdade, a justiça e o fraterno. Sem adulações? Indivíduos têm famílias que formam clãs. Do ato ao fato? Onde a mentira se impõe, impostura; quando valente, a invalidez.
Em tom maior, sem o frio do riso, toco ao trio: coragem, liberta-se; liberdade, educa-se; educação, autoriza-se.
A liberdade justifica tal vontade de conquistá-la e de educá-la nos direitos e de autorizá-la norte à autonomia. Há de poder quem deseja respeito, tolerância e aceitação; pela escolha, em eleição; que o juízo não se sujeite à bocarra alheia, osso do magérrimo.
Diz o espírito quando dança? A voz do sangue na voz do vinho.
Ê descuidado.
Fico na cadeira, fecho os olhos, a cabeça a girar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de novembro de 2019.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Crônica do fado


Crônica do fado

De cara, a rua muda todo dia.
Ô coisa feia, a rua acordar daquele jeito. Tão hospitaleira, todavia irreconhecível. Nem parece a mesma de ontem. Com a expressão de quem, vendo o futuro, corre abraçar o rancor, naquela cara amarrada por dentro. Com uma raiva insofismável, de quem cospe uns buracos quando topa com pessoa que a vê tão passada.
Entranhada na cólica, a rua dá suas patadas, como se, evidentes, as urgências dos transeuntes fossem dignas daquela desfeita.
Tremelique assim, dona rua? Isso não é do seu feitio, posto que seja uma rua de família. Com as senhoras que passeiam filhotes de laço nas madeixas. Com os operários que se assentam em bicicletas depois do corte de árvore passarinheira. Com câmeras de celular nos desvãos de certas janelas, na peçonha do sigilo a que tudo assiste.
Mas que cara é essa? Vamos, o rapaz tem preferência porque vai passando como quem cumpre lá um dever incontornável. A obrigação vestiu-o de sapato tinindo e camisa polo cinza, pois era hora mesmo de ir acatar as providências impingidas por carta, que as suas dívidas seguem gerando um mar de boletos à porta do apartamento.
Ora, não entre numa roubada. Andanças são assim mesmo.
Os prédios estão soltando móveis indignados, certos da utilidade a perder de vista, por décadas não foram? Foram nada, contradizem os trastes ingratos a descarregar no sopé do poste aquelas memórias aos pedaços, varadas por cupins, as frágeis placas de fórmica de uso contínuo, agora, regurgitadas.
O sol nasceu o dia, que prossegue na luz. E o que poderia ter sido uma gentileza qualquer? Os instantes passam, vêm como um tapa na cara, num expediente sem fim, sem óbice algum, já a lua no poste.
A pobre da rua?
Sujeita a trotes no decorrer do período, nas 24 horas sem fechar, a rua não dorme. Ainda mais quando rosnam cavaletes, cones e fitas.
O que late na aorta?
A desforra, demovida com os víveres, parente dos provimentos, o que a faz se portar tal qual fumante passivo. Ê nauseabundo atributo que tasca cinzas na boca que tudo engole. Ê cloaca do mundo que digere o vômito dos escarrados.
E o papo que a história não se repete? A réplica é insulto contado vezes sem conta, até que saca o concreto do pensamento, de calibre logicamente aferível. Sem encaixar as suas demandas clandestinas na cabeça, este norte a menos põe torto o GPS, cuja rosa-dos-ventos trava, cravando IML no céu aberto da vida.
Fala perdida. Essa fala novamente. E de novo.
Onde ansiedade, o medo? Onde vergonha, o revide?
Justa no feriado, a rua não tem folga. Ô angústia para não acabar na mesma. A via, entretanto, abre o manto da visibilidade. Ocupando, há espaço pro papelão da caixa de TV de largas polegadas que vira colchão, junto ao poste, bem ali, junto ao muro.
O cartaz alerta que entulho não é permitido.
À surdina, a berlinda logra a rua?
Ela sempre muda.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de novembro de 2019.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Quebra de serviço


Quebra de serviço

No jogo rápido da vida, na base do saque-e-voleio, a bola beija a linha. A intuição me faz descer da cadeira para ir checar de quem é o ponto. É lógico, né?
Por não confiar na memória, menos ainda na minha, o texto entre aspas foi escrito por mim no dia 27 de janeiro de 2019.
“Escrevo depois de não ter assistido ao jogo Nadal X Djokovic, a final do Aberto da Austrália. Por imagens e comentários, a direita do sérvio foi fundamental para derrotar a canhota do Miúra.
Ambos talentosos: hábeis; com o corpo educado pro desporto, pro esforço repetitivo; e, quando pegos no contrapé, sacam a criatividade. Ambos vencedores: ao ganharem tantas partidas; jogo a jogo, bola a bola; os dois formaram carreira de vencedor não só porque venceram torneios, mas porque têm consciência do corpo para desempenhar a profissão. Jogam tênis porque amam, e, amadores do que fazem, são exemplares pelo amor ao que se dedicam.
O feito de quem chega a “número um” não está em ter chegado ao topo nem merecer ter aí chegado, o louro maior está em servir-se de exemplo pela obsessão do aprimoramento da técnica e, não escondo o jogo, sem viver pro desempenho único de levantar troféus.
Todo esportista merece o que ganha, sem dúvida. E os grandes do esporte, o que pode ser aplicado a ícones de qualquer das áreas do conhecimento, viram referência para os mais jovens, viram ídolo a iniciantes. Assim, os próximos grandes, os que marcarão e virão a ser tomados como referência, serão aquelas e aqueles que conquistarem o que o corpo possa oferecer de melhor. Porém o corpo, formado por ossos, músculos, tendões, tem o seu funcionamento em sintonia com a mente, que controla e ajusta a estrutura humana.
Nossa!
Havia escrito armadura em vez de estrutura, mas não partilho da visão bélica da vida, porque o mundo anda muito militarizado, pronto pra hostilidades. Não tenho temperamento pra confrontos e batalhas, prefiro embates como o protagonizado pelos tenistas em Melbourne.
Pois em jogo de corpo inteiro, além da técnica, há o amor.”
Sem queimar o filme...
A pessoa pode ocupar-se demais com a performance que não tem tempo pro amor ao próximo ou pro amor a si própria. Parece-me uma tolice apontar que a prática do esporte, ou de toda atividade, faça da gente um exemplo de cidadania.
E o envolvimento da pessoa com o que faz? Só interessa o valor a ela atribuído pelo resultado do que faz? Aliás, será “amor” a palavra certa pra definir o que está em jogo?
Todavia, reconheço o compromisso e a confiança. Os bambambãs praticam o esporte como trabalho. E, como trabalhadores, dão o que podem nas circunstâncias de cada partida. Daí o mérito do bem feito. Mas há pessoas indignantes que têm jogo duca. E, para mim, entre a bola boa e a bola fora há a linha.
E a linha não faz parte da quadra?
No momento, jogar dentro das regras faz o match point.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de novembro de 2019.

domingo, 17 de novembro de 2019

Dupla dinâmica


Dupla dinâmica

É hoje. A rua vai passando sem pôr gosto de dar comigo, embora tire o corpo pelo sal, que estou a trabalho. Sem um segundo pra ter à disposição algum acontecimento bem composto, do osso à boca do cão no esforço de roer a fome. Outro dia de criança nos malabares do sinal. Muitos vamos, a perder as forças pro celular que faz questão de não ver, não ouvir e sequer responder. A dor não toca a quem avesso aos invisíveis do mundo.
Então, afiado de exemplos na língua dos verídicos, alguém aplica o que faz da roda uma pirâmide. Entra a ralhar a raiva entre Gauguin e Van Gogh, Rimbaud e Verlaine, Batman e Robin.
Não, a união de Batman e Robin não cabe no rol do ódio que ama. Ainda mais naquelas roupinhas que herói veste feito nome próprio na própria pele que revela a identidade secreta de quem a enverga.
O importante é que o sério é sério mesmo. Daí que o espetáculo da vida está em assentar a náusea, que é preciso digerir a cena pelo âmago da comparação. Feito Sinatra e Martin. O Martin, neste caso, é o Dean. O parceiro do Jerry. O Lewis, não aquele consorte do Tom.
Ô bicho animado, óbvio que isso inebria.
Mas a mente confusa entra pôr errado o errado?
Se tivesse tirado uma foto... Fotografia não come os papeizinhos. Cada ideia, cada pensamento. E rabiscando frustração, a mão aceita amestrada as circunstâncias? Em vez da foto, um frevo na máquina. Mas a letra poperô vira fantasma preso na agulha do elepê a rodar a mente no refrão. Se pareço bobo, padeço em sê-lo. E dizem que todo bobo tem o dom da compreensão. Como autoridade aceita que seja, nem é preciso pedir que aja conforme. Por favor, siga um asno, mas sem o coice dos outros argumentos? Não é o caso, já que ao bobo, que é bobo, não convém dar voz ao que imagina ter vivo na cabeça. Faz-se de besta quem age desembestado? Por isso, pense, e pense bem. Tanto sol pra pouco girassol, Florentina.
A tarde caindo. O jeito é não se embananar com a realidade alheia ao magnetismo econômico. Afinal, milhão atrai milhão até ir ao bilhão. O negócio é tirar o olho de tulipas, samambaias e bromélias?
Nada como correr a praça, jardim petrificado de ruas. Pra que ficar sacando a sede retida na fonte? Emperrada de seca, a boca dá um trabalhão. O hálito empesteia. Os dentes amarelam. E quando aberta, até os cães fogem.
Ô porre.
Vou logo tirando o sapato. Não ligo a TV e não ponho pra carregar o celular. Tanto quero a cama que o sofá vira uma. Meu coração em chamas põe fogo no branco e preto do retrato? Oxe. Por um pastel de carne seca, babo.
Ô coisa irritante.
O fracasso nem pisca diante dos fractais do labirinto na página. E não desliga nem ao virar a chave. Quando pensa em dobrar a aposta, metida a lucrar com a esperança, morde a língua.
Ô fiasco.
Não avanço a Clarice nem durmo. A dupla martelando na moringa. Resignação e revolta, na primeira de todas as crônicas.
Ê hoje que não passa.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de novembro de 2019.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Passo a passo


Passo a passo

Que remédio, a saudade. Cura o reumatismo dos meus dias? Põe a funda de cinta no estilingue, corta a tripa de mico ajustada ao Y do galho. E faz mais? Faz a pedra fugir dos passarinhos, nos dias de lá.
Lá, onde? Partindo das costas do Laurinda, o colégio fundamental, passa a estradinha, vai pela pinguela, adensa a mata. O marca passo entre Lava-pés e Capim Azedo? Um pulinho no sítio dos padres, pro copo de leite e pra broa de milho dali mesmo.
Ainda era lá? Pego a pensar no São Paulo contra o Corinthians, e falamos, falamos. Quê? O passa fora da indignação carola das seis; o passa dentro pro sermão da sacristia. Lourencinho, o cura dessa vez, passa um pito em nós outros, esses coroinhas do barulho.
Cá entre nós, ficar lá pra perder a coisa toda d’agora?
Cá estou, no dia 12 de novembro e no teatro do SESC de Santos. Só que vou do Burkina Faso do palco pra Ibiúna da infância; só que volto na marcha. Juntos, diz o bebê de uns dois aninhos que vai no passo. Oba! Vamos! François Moise Bamba, o contador de histórias desta vez, leva a ouvir na sua fala o que preciso fazer para escutar.
Daí é que tomo mais siso do mundo no qual transito.
Ô imaginação. Ponte do presente pro passado, num vice-versa em que a realidade arde nas ansiedades? Sem asas nem plumas azuis, vou indo pelo meio do mundo. Com o fogo que me sustenta, construo o viaduto prestes a desabar, e isso vem desde que me dou por gente.
Em outras palavras? Não faltam palavras pra dizer o que não digo. Talvez isso explique o que não entendo. Com quanto grito se alcança o silêncio? Desde quando ontem deixa o amanhã vir a se tornar hoje? Se respondo, há pergunta? Pra responder, pergunto.
Sei que duvido um pouco. Que remédio, a desconfiança.
Mas justo agora?
Quando percebo, o ponto já foi. As cinzas caindo, há queimadas pela vida adentro. O insustentável se liquefaz? A memória crescendo estalactites. O pertencimento quer abraços? Mas há estalagmites que mordem. Que a raiva late; a loucura espuma pela boca; o coração faz furor na razão? Há fogo que mata.
Vou pelas entrelinhas. Se me pede pra dizer o que digo? A serviço do texto, vou pelo sentido do bem posto quando bem ouvido. Isso é bem relativo? Entre uma linha e outra, valha o escrito do que penso a quem vou escrevendo. Haja amor a nos unir: eu que me leio quando escrevo a quem se escreve quando lê.
Como assim, melhor não fica?
E vem o vendedor de bilhetes. Ele cego dá a ver que a sorte é pra quem tem, e não tenho tido. Ô azar, que não faço essa aposta.
A realidade não para nem por um instante. Todavia, se renova?
Não é por acaso que aquele ajudante, Elcimar Moreira da Silva, que ergueu o prédio da faculdade há dez anos, agora entra ali pra estudar. Sabe pelo suor que o campus da UFF tem nome: Santo Antônio de Pádua. Ele cruza 14 km pra chegar às raízes da Física, e vai indo.
O salutar disso tudo?
Via de mão dupla ― saudade boa não lima o limo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de novembro de 2019.