Fumacê
Como não tem podido ficar em casa, que
hoje fosse o caso. Bem faz que seja, está chovendo. Puxa a cortina, o tanto pra
conformar-se com o aguaceiro a impedi-lo de ir aonde houvesse de ir. Frio,
vento e chuva, que não sejam tais condições a vencê-lo? Irritam-no. Com a
cabeça pegando fogo, e sem ao menos arranjar uma cara digna, a de quem escolhe
por si o constrangido do apático, topa a máscara que resulta na mensagem
digitada. Aos vivos, diz que a vontade é mesmo de ir-se para atender os compromissos,
mas esse tempo. Não fosse, teria podido sair de casa. Como queria ter podido
mais. Até bate uma saudade, do nada.
Aconteceu. Num ônibus, indo ao
psiquiatra em Santos. Se mais ou menos? Em atrito consigo mesma, que trate a mente
de se retratar:
Como
tenho talento pra me concentrar no que faço, procuro errar bastante, assim no
desembaraço de ir escrevendo, sem ficar vigiando que a fala da escrita vá
ditando o seu ritmo, na velocidade com que a mão consegue acompanhar o que o
pensamento solto vai saltando, é como se a correnteza fosse menos de água e
mais de ar na ventania de sua necessidade de expressão, sem as rédeas das
margens, sem os arreios de impor ao xucro a cavalgada do conformado ao
cabresto, passo a estudar como cheguei aos erros, e ir mudando, aprimorando,
custa o esforço da coisa querida, vou aparando o excesso, e vou na levada, até que
os erros ganhem em mim o estatuto da virtude, assim conquistada na concentração
da melhoria, a do mal tornado bem, do imperfeito que foi sendo lapidado, burilado,
decomposto, recomposto, até revelar a luz do limite do possível, o que ganha de
mim um ufa!, que é aquele peso tirado dos ombros, ufa!, nada como fazer o que
dá pra fazer sem se descabelar, que assim o fabricado desse modo tem ainda a preservação
das cicatrizes, cascas, feridas, manchas, do que não sai nem com cândida, mas tem
que o resultado não vou chamar de horripilante, uma vez que monstro é a
perfeição, que é o antípoda do bem feito. Se gostou da coisa, roube-a pra você.
É isso, a vida diz verdades sem as platitudes do verdadeiro, como se uma pérola
fosse achado do improviso. Toca! Pegue, pegue sem medo, que ideia não se rouba,
se compartilha.
Rosa? Rita, o nome que a voz turva dos
ruídos parece borbulhar. Decantá-la, a face, trabalho que os trapos da memória cobrem
mal. Da visão captada, o aplicável ao real; da apreensão, o rebarbativo.
O ato, pra quê. Pra escrever, o quê.
O que pensa, como. Como se vive, quando. Quando escreve, sobrevive. Até por quê? O texto diga o que tem pra dizer.
Embora a razão sofra derrotas, que ela lute com o reles da cuca.
Que fogo é esse?
Se não do trânsito dos neutrinos que
passam pelo corpo que não os ampara, de onde vem?
Ao tirar o dia para o disponível do
ócio, a recompensa do espanto resultaria em maior fracasso se tentasse frear-se
ao menor gozo.
― Ô pirralha do cacique.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 12 de dezembro de
2019.
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