quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Fumacê


Fumacê

Como não tem podido ficar em casa, que hoje fosse o caso. Bem faz que seja, está chovendo. Puxa a cortina, o tanto pra conformar-se com o aguaceiro a impedi-lo de ir aonde houvesse de ir. Frio, vento e chuva, que não sejam tais condições a vencê-lo? Irritam-no. Com a cabeça pegando fogo, e sem ao menos arranjar uma cara digna, a de quem escolhe por si o constrangido do apático, topa a máscara que resulta na mensagem digitada. Aos vivos, diz que a vontade é mesmo de ir-se para atender os compromissos, mas esse tempo. Não fosse, teria podido sair de casa. Como queria ter podido mais. Até bate uma saudade, do nada.
Aconteceu. Num ônibus, indo ao psiquiatra em Santos. Se mais ou menos? Em atrito consigo mesma, que trate a mente de se retratar:
Como tenho talento pra me concentrar no que faço, procuro errar bastante, assim no desembaraço de ir escrevendo, sem ficar vigiando que a fala da escrita vá ditando o seu ritmo, na velocidade com que a mão consegue acompanhar o que o pensamento solto vai saltando, é como se a correnteza fosse menos de água e mais de ar na ventania de sua necessidade de expressão, sem as rédeas das margens, sem os arreios de impor ao xucro a cavalgada do conformado ao cabresto, passo a estudar como cheguei aos erros, e ir mudando, aprimorando, custa o esforço da coisa querida, vou aparando o excesso, e vou na levada, até que os erros ganhem em mim o estatuto da virtude, assim conquistada na concentração da melhoria, a do mal tornado bem, do imperfeito que foi sendo lapidado, burilado, decomposto, recomposto, até revelar a luz do limite do possível, o que ganha de mim um ufa!, que é aquele peso tirado dos ombros, ufa!, nada como fazer o que dá pra fazer sem se descabelar, que assim o fabricado desse modo tem ainda a preservação das cicatrizes, cascas, feridas, manchas, do que não sai nem com cândida, mas tem que o resultado não vou chamar de horripilante, uma vez que monstro é a perfeição, que é o antípoda do bem feito. Se gostou da coisa, roube-a pra você. É isso, a vida diz verdades sem as platitudes do verdadeiro, como se uma pérola fosse achado do improviso. Toca! Pegue, pegue sem medo, que ideia não se rouba, se compartilha.
Rosa? Rita, o nome que a voz turva dos ruídos parece borbulhar. Decantá-la, a face, trabalho que os trapos da memória cobrem mal. Da visão captada, o aplicável ao real; da apreensão, o rebarbativo.
O ato, pra quê. Pra escrever, o quê. O que pensa, como. Como se vive, quando. Quando escreve, sobrevive. Até por quê? O texto diga o que tem pra dizer. Embora a razão sofra derrotas, que ela lute com o reles da cuca.
Que fogo é esse?
Se não do trânsito dos neutrinos que passam pelo corpo que não os ampara, de onde vem?
Ao tirar o dia para o disponível do ócio, a recompensa do espanto resultaria em maior fracasso se tentasse frear-se ao menor gozo.
― Ô pirralha do cacique.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de dezembro de 2019.

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