terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Pindorama, meu amor


Pindorama, meu amor

As festas estão de volta. Outra vez.
E, como sempre, o controle da velocidade da passagem dos dias está nas mãos da mais arteira das crianças, Jânio. Assim, topo sentar diante da TV para aplaudir o rio dos fogos, cantar as fraternidades ao peru, lacrimejar uns amores na virada.
E olha que o ano nem quis saber da minha entrega. Sim, mudei os hábitos. E tudo começou com uma colherzinha de café. O bocadinho do pó de café, o torrado e vendido nas gôndolas, passei a derretê-lo na boca, com a língua amargada no pinhão.
E fiz o possível pra não deixar mofado o pão da partilha. Me armei das melhores intenções pra desaguar as ânsias que a boca rumoreja.
Quando vão chamar pra ver o sertanejo que não desafina?
Não posto mais na pia os pratos vazios da comilança desenfreada de hambúrgueres e miojos. E tirei o cafezinho de hora em hora, ainda mais porque adoçado com a pontinha da colher de sopa. Parei com o açúcar que punha no café.
Também sou gente, gente.
Tudo começou quando me dei conta que andavam enfiando colher na minha boca, de modo que ia engolindo bules e bules de café como quem carrega sacas de açúcar.
Pois é, já caibo à mesa.
Apesar de a multidão da casa dizer que tem sono, digo de mim pra comigo mesmo: estou pronto. Então, que venham os sinos do galo. E tragam goiabadas e marmeladas.
Cabaninha no quintal? Mudei de pele.
Vestido a caráter, caprichado no melhor dos figurinos, o medo me despe o atraente. Com o pudor dos puritanos, a gabolice dos imbecis, a vigarice dos cretinos e a parvoíce dos tolos. Finíssimo; tô outro.
Posso a pose ao lado da manjedoura.
Pra que a paz cresça das sementes da verdade e seja feita, travo o riso. Mesmo que o capim da soja seja de plástico nas entranhas do boizinho e da vaquinha? É de felicidade que mugem. Afinadíssimos.
Por onde hei de ir-me na poesia destes dias? Por Maracangalha, de pandeiro na mão? Oxe. Não, não, irmão do sol. Vou, pelo canto.
Para onde hei de ir-me com este drama? Para Pasárgada? Oxe. Não, não, irmã do sal. Vou, pelo conto.
E tudo vai acabar bem, uma vez que vou parar de contar sapos na hora de dormir. Talvez, já o travesseiro certinho sob a cabeça. Talvez seja doce dormir em paz, na paz dos justos.
Para tanta leveza, toneladas de amor.
Diz o amor em mim, diz o que me acalma:
Por favor, nada de Maracangalha. A alucinação tem dentes que já devoram os próprios dedos. Por gentileza, nem Pasárgada. Tormento é ter cães sem coleira nos calcanhares das doceiras.
Quando o orvalho da aurora goteja sua hora?
O fiel sabe que quem não ajoelha não merece os joelhos que tem.
Oxe!
No topo da escadinha de cinco degraus, com uma lata e um pincel de largo calibre? Abro a porta ao sopro do sonho e nele, nesse sonho torto de fome, há este poeta de pernas de fora e barro nos pés, é ele que escreve com a sua letra meio itálica:
O chão que nos acolhe haverá sempre de nos recolher.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de dezembro de 2019.

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