domingo, 24 de novembro de 2019

Fantasma na máquina


Fantasma na máquina

Talvez instigado pela vocalização insólita de Thelonious Monk ao tocar Don’t Blame Me no disco Standards, que ouvi pouco antes de ir roncar, nem deu para acordar direito, que fui direto ao banheiro. Com a urina assanhada descendo pijama abaixo, apelei pro chuveiro. Sob a ducha, todavia, puxei pelo que me socorreu, outro fio pela memória: Patrício Bisso passando à paisana na Galeria Metrópole sem entrar na fila pra filme da Mostra.
Francamente, ô treco espantoso, essa tal de lembrança.
A vida faz-se por circunstâncias que fogem ao domínio; por não as dominar, mostram-se indecifráveis; enigmas que estimulam a minha curiosidade de entendê-los.
Há engrenagens que, obscuras de tão lógicas, põem-me um piano desafinado das especulações, aos sobressaltos.
Porque, escrevinhador a compor textos, o minueto do esboço põe esquisita a crônica. Que tente o próximo, e venha outro, mais um, até que a névoa dissipada mostre a praia que está onde sempre esteve.
Francamente, honrado, isso de contar história.
E conto. Houve uma vez, do distante meio-dia, que a mim me veio um homem, que trouxe seu rosto sujo, os andrajos fétidos, as fomes cariadas, o horripilante. Na figura de um mendigo, a sua pessoa, sem pedir comida, bebida, um centavo, veio dar algo, um caderno. Ofertou folhas da sua autoria, que era mundo que nunca antes houvera visto, e a ele nem a mim tinha por apercebido. Anônimos, aliás.
A honra conhece a falta pela ambição?
O homem confiou suas notas sobre Júlio César de Shakespeare. Precisamente quando estava lendo sobre as águas nas águas lá em Veneza. Caso haja infiltração desta naquela leitura, o útil do oráculo cede ao certo.
Porém, tomo aos fulanos, cotidianos em mim, a regra do saudável: não bastassem comer, falam igualmente; ao depois, dormem.
O espírito da inspiração arrepia a nuca, e corro digitar o que a veia eriça. Será de bom tom repelir ideias repentinas? Abraço a espada do entranhado no ar. Pra provar sua carne, lambuza com o mais sutil fel de abelha à boca do que penso.
Trabalho cura o que o capital cobra?
A catadora conta que tem mês que não passa nos trinta dias.
No comum dos caminhos? A igualdade, a justiça e o fraterno. Sem adulações? Indivíduos têm famílias que formam clãs. Do ato ao fato? Onde a mentira se impõe, impostura; quando valente, a invalidez.
Em tom maior, sem o frio do riso, toco ao trio: coragem, liberta-se; liberdade, educa-se; educação, autoriza-se.
A liberdade justifica tal vontade de conquistá-la e de educá-la nos direitos e de autorizá-la norte à autonomia. Há de poder quem deseja respeito, tolerância e aceitação; pela escolha, em eleição; que o juízo não se sujeite à bocarra alheia, osso do magérrimo.
Diz o espírito quando dança? A voz do sangue na voz do vinho.
Ê descuidado.
Fico na cadeira, fecho os olhos, a cabeça a girar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de novembro de 2019.

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