Fantasma
na máquina
Talvez instigado pela vocalização
insólita de Thelonious Monk ao tocar Don’t
Blame Me no disco Standards, que
ouvi pouco antes de ir roncar, nem deu para acordar direito, que fui direto ao
banheiro. Com a urina assanhada descendo pijama abaixo, apelei pro chuveiro. Sob
a ducha, todavia, puxei pelo que me socorreu, outro fio pela memória: Patrício
Bisso passando à paisana na Galeria Metrópole sem entrar na fila pra filme da
Mostra.
Francamente, ô treco espantoso, essa
tal de lembrança.
A vida faz-se por circunstâncias que
fogem ao domínio; por não as dominar, mostram-se indecifráveis; enigmas que estimulam
a minha curiosidade de entendê-los.
Há engrenagens que, obscuras de tão lógicas,
põem-me um piano desafinado das especulações, aos sobressaltos.
Porque, escrevinhador a compor textos,
o minueto do esboço põe esquisita a crônica. Que tente o próximo, e venha outro,
mais um, até que a névoa dissipada mostre a praia que está onde sempre esteve.
Francamente, honrado, isso de contar
história.
E conto. Houve uma vez, do distante meio-dia,
que a mim me veio um homem, que trouxe seu rosto sujo, os andrajos fétidos, as
fomes cariadas, o horripilante. Na figura de um mendigo, a sua pessoa, sem pedir
comida, bebida, um centavo, veio dar algo, um caderno. Ofertou folhas da sua
autoria, que era mundo que nunca antes houvera visto, e a ele nem a mim tinha por
apercebido. Anônimos, aliás.
A honra conhece a falta pela ambição?
O homem confiou suas notas sobre Júlio César de Shakespeare. Precisamente
quando estava lendo sobre as águas nas águas lá em Veneza. Caso haja infiltração
desta naquela leitura, o útil do oráculo cede ao certo.
Porém, tomo aos fulanos, cotidianos em
mim, a regra do saudável: não bastassem comer, falam igualmente; ao depois,
dormem.
O espírito da inspiração arrepia a
nuca, e corro digitar o que a veia eriça. Será de bom tom repelir ideias
repentinas? Abraço a espada do entranhado no ar. Pra provar sua carne, lambuza com
o mais sutil fel de abelha à boca do que penso.
Trabalho cura o que o capital cobra?
A catadora conta que tem mês que não
passa nos trinta dias.
No comum dos caminhos? A igualdade, a
justiça e o fraterno. Sem adulações? Indivíduos têm famílias que formam clãs.
Do ato ao fato? Onde a mentira se impõe, impostura; quando valente, a
invalidez.
Em tom maior, sem o frio do riso, toco
ao trio: coragem, liberta-se; liberdade, educa-se; educação, autoriza-se.
A liberdade justifica tal vontade de
conquistá-la e de educá-la nos direitos e de autorizá-la norte à autonomia. Há
de poder quem deseja respeito, tolerância e aceitação; pela escolha, em eleição;
que o juízo não se sujeite à bocarra alheia, osso do magérrimo.
Diz o espírito quando dança? A voz do
sangue na voz do vinho.
Ê descuidado.
Fico na cadeira, fecho os olhos, a
cabeça a girar.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 24 de novembro de
2019.
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