terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Um abraço


Um abraço

No friozinho deste instante, passa por mim um cão. No encruado deste instante, vegeta no seu olhar uma flor sem viço, o baço do seu desatino. Este desgarrado reverbera o mundano da sua presença. No seu olhar, a solidão de quem espera o que deseja. Na ânsia de suas necessidades, algo estranho manifesta essa vontade que não sabe de si, mas busca abrigo. Uma incompreensão aquietada no diapasão do pedestre; um rocio na raiz da muda ― abismo de cão no homem.
Irmanados na dor, nessa dor funda de quem pouco deixa de si nos rastros do mundo, como desejo que se cala pelo desconcerto diante da vida. Embora negado, seguidamente negado, o cão não se busca nas perguntas que não faz, guarda o amor aos pés dos sentimentos. Chega a abanar-se ligeiro, atiçado talvez por ter sentido a resposta, e veio tão somente outro gesto qualquer.
Diante do que passa, o menino não fica sentado.
Se falta a palavra, que se invente. Que seja a mais precisa, a mais íntima do que sente, a que expresse o que quer dizer. Com pontos de fuga, perspectivas de espirais, abstrações de névoa, esse tanto que o confunde. Afinal, quem roda em torno de si afaga a vertigem.
Sol? Pelo brilho quando pronunciada, talvez seja mesmo a palavra sol a que esteja imaginando, no momento deste ardor.
O menino sorri, pois algo aí não o convence de que esteja certo. A boa nova da coisa toda é que não quer nem pensar que esteja certo. O sol, isso o põe bastante alegre, cheio de si nessa alegria, embora nem desconfie que seja euforia, aquilo, o que o move.
Ô sarna! Vai ao lápis para exprimir o que pulsa na mente.
A gravidade do pensamento sugere a poesia que lhe escapa mal o grafite baila no ar. O inefável que o inspira nem sopra ruínas; pétalas e espinhos somem ao redor da folha.
Encantado pelo que não veio, abre-se ao sorriso do singelo?
Fechados os olhos, ajeitado ao corpo, desnudo na cama, sente-se de volta ao figurino de menino só.
Levo-o, quem almejava cantar o que hoje canto. Não apenas por mim nem só por ele, me apetece pedir por tantos que zanzam por aí, enfiados numa tosse que logo vai passar, entretanto não passa coisa nenhuma.
Menino, conquanto possa um tropeço, cuide que estão olhando de soslaio. Bem no momento da passada, há uns trecos que gostam de fazer piada. Rapaz, a rua anda louca para rir da nossa cara.
Vou-me, e sou levado a ir. Reluto, e luto. Escolho baixar a febre.
Quando passo ao pranto, conheço o triste do desamparo. Todavia, pela lágrima, importa saber que o mundo não sente da maneira como sinto o osso do viver?
O sol sobe as montanhas, desce os poços, escala as notas, atalha frases. Sem interromper o fluxo, sua língua estrala. Há uma implosão, há este sol que se apaga. Há uma explosão, o eco do que se perde à razão do ser.
Trocando em miúdos, o menino que carrega o homem nos braços claudica ao traduzir, em palavras, o que significa esperança.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de dezembro de 2019.

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