Um
abraço
No friozinho deste instante, passa por
mim um cão. No encruado deste instante, vegeta no seu olhar uma flor sem viço,
o baço do seu desatino. Este desgarrado reverbera o mundano da sua presença. No
seu olhar, a solidão de quem espera o que deseja. Na ânsia de suas necessidades,
algo estranho manifesta essa vontade que não sabe de si, mas busca abrigo. Uma incompreensão
aquietada no diapasão do pedestre; um rocio na raiz da muda ― abismo de cão no
homem.
Irmanados na dor, nessa dor funda de
quem pouco deixa de si nos rastros do mundo, como desejo que se cala pelo
desconcerto diante da vida. Embora negado, seguidamente negado, o cão não se
busca nas perguntas que não faz, guarda o amor aos pés dos sentimentos. Chega a
abanar-se ligeiro, atiçado talvez por ter sentido a resposta, e veio tão
somente outro gesto qualquer.
Diante do que passa, o menino não fica
sentado.
Se falta a palavra, que se invente. Que
seja a mais precisa, a mais íntima do que sente, a que expresse o que quer
dizer. Com pontos de fuga, perspectivas de espirais, abstrações de névoa, esse tanto
que o confunde. Afinal, quem roda em torno de si afaga a vertigem.
Sol? Pelo brilho quando pronunciada,
talvez seja mesmo a palavra sol a
que esteja imaginando, no momento deste ardor.
O menino sorri, pois algo aí não o
convence de que esteja certo. A boa nova da coisa toda é que não quer nem
pensar que esteja certo. O sol, isso o põe bastante alegre, cheio de si nessa alegria,
embora nem desconfie que seja euforia, aquilo, o que o move.
Ô sarna! Vai ao lápis para exprimir o
que pulsa na mente.
A gravidade do pensamento sugere a
poesia que lhe escapa mal o grafite baila no ar. O inefável que o inspira nem sopra
ruínas; pétalas e espinhos somem ao redor da folha.
Encantado pelo que não veio, abre-se ao
sorriso do singelo?
Fechados os olhos, ajeitado ao corpo, desnudo
na cama, sente-se de volta ao figurino de menino só.
Levo-o, quem almejava cantar o que hoje
canto. Não apenas por mim nem só por ele, me apetece pedir por tantos que zanzam
por aí, enfiados numa tosse que logo vai passar, entretanto não passa coisa nenhuma.
Menino, conquanto possa um tropeço, cuide
que estão olhando de soslaio. Bem no momento da passada, há uns trecos que gostam
de fazer piada. Rapaz, a rua anda louca para rir da nossa cara.
Vou-me, e sou levado a ir. Reluto, e luto.
Escolho baixar a febre.
Quando passo ao pranto, conheço o triste
do desamparo. Todavia, pela lágrima, importa saber que o mundo não sente da
maneira como sinto o osso do viver?
O sol sobe as montanhas, desce os
poços, escala as notas, atalha frases. Sem interromper o fluxo, sua língua estrala.
Há uma implosão, há este sol que se apaga. Há uma explosão, o eco do que se
perde à razão do ser.
Trocando em miúdos, o menino que
carrega o homem nos braços claudica ao traduzir, em palavras, o que significa esperança.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 10 de dezembro de
2019.
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