terça-feira, 19 de novembro de 2019

Quebra de serviço


Quebra de serviço

No jogo rápido da vida, na base do saque-e-voleio, a bola beija a linha. A intuição me faz descer da cadeira para ir checar de quem é o ponto. É lógico, né?
Por não confiar na memória, menos ainda na minha, o texto entre aspas foi escrito por mim no dia 27 de janeiro de 2019.
“Escrevo depois de não ter assistido ao jogo Nadal X Djokovic, a final do Aberto da Austrália. Por imagens e comentários, a direita do sérvio foi fundamental para derrotar a canhota do Miúra.
Ambos talentosos: hábeis; com o corpo educado pro desporto, pro esforço repetitivo; e, quando pegos no contrapé, sacam a criatividade. Ambos vencedores: ao ganharem tantas partidas; jogo a jogo, bola a bola; os dois formaram carreira de vencedor não só porque venceram torneios, mas porque têm consciência do corpo para desempenhar a profissão. Jogam tênis porque amam, e, amadores do que fazem, são exemplares pelo amor ao que se dedicam.
O feito de quem chega a “número um” não está em ter chegado ao topo nem merecer ter aí chegado, o louro maior está em servir-se de exemplo pela obsessão do aprimoramento da técnica e, não escondo o jogo, sem viver pro desempenho único de levantar troféus.
Todo esportista merece o que ganha, sem dúvida. E os grandes do esporte, o que pode ser aplicado a ícones de qualquer das áreas do conhecimento, viram referência para os mais jovens, viram ídolo a iniciantes. Assim, os próximos grandes, os que marcarão e virão a ser tomados como referência, serão aquelas e aqueles que conquistarem o que o corpo possa oferecer de melhor. Porém o corpo, formado por ossos, músculos, tendões, tem o seu funcionamento em sintonia com a mente, que controla e ajusta a estrutura humana.
Nossa!
Havia escrito armadura em vez de estrutura, mas não partilho da visão bélica da vida, porque o mundo anda muito militarizado, pronto pra hostilidades. Não tenho temperamento pra confrontos e batalhas, prefiro embates como o protagonizado pelos tenistas em Melbourne.
Pois em jogo de corpo inteiro, além da técnica, há o amor.”
Sem queimar o filme...
A pessoa pode ocupar-se demais com a performance que não tem tempo pro amor ao próximo ou pro amor a si própria. Parece-me uma tolice apontar que a prática do esporte, ou de toda atividade, faça da gente um exemplo de cidadania.
E o envolvimento da pessoa com o que faz? Só interessa o valor a ela atribuído pelo resultado do que faz? Aliás, será “amor” a palavra certa pra definir o que está em jogo?
Todavia, reconheço o compromisso e a confiança. Os bambambãs praticam o esporte como trabalho. E, como trabalhadores, dão o que podem nas circunstâncias de cada partida. Daí o mérito do bem feito. Mas há pessoas indignantes que têm jogo duca. E, para mim, entre a bola boa e a bola fora há a linha.
E a linha não faz parte da quadra?
No momento, jogar dentro das regras faz o match point.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de novembro de 2019.

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