Quebra de serviço
No jogo rápido da vida,
na base do saque-e-voleio, a bola beija a linha. A intuição me faz descer da
cadeira para ir checar de quem é o ponto. É lógico, né?
Por não confiar na
memória, menos ainda na minha, o texto entre aspas foi escrito por mim no dia
27 de janeiro de 2019.
“Escrevo depois de não ter assistido ao
jogo Nadal X Djokovic, a final do Aberto da Austrália. Por imagens e
comentários, a direita do sérvio foi fundamental para derrotar a canhota do
Miúra.
Ambos talentosos: hábeis; com o corpo
educado pro desporto, pro esforço repetitivo; e, quando pegos no contrapé, sacam
a criatividade. Ambos vencedores: ao ganharem tantas partidas; jogo a jogo,
bola a bola; os dois formaram carreira de vencedor não só porque venceram
torneios, mas porque têm consciência do corpo para desempenhar a profissão. Jogam
tênis porque amam, e, amadores do que fazem, são exemplares pelo amor ao que se
dedicam.
O feito de quem chega a “número um”
não está em ter chegado ao topo nem merecer ter aí chegado, o louro maior está
em servir-se de exemplo pela obsessão do aprimoramento da técnica e, não
escondo o jogo, sem viver pro desempenho único de levantar troféus.
Todo esportista merece o que ganha,
sem dúvida. E os grandes do esporte, o que pode ser aplicado a ícones de qualquer
das áreas do conhecimento, viram referência para os mais jovens, viram ídolo a iniciantes.
Assim, os próximos grandes, os que marcarão e virão a ser tomados como
referência, serão aquelas e aqueles que conquistarem o que o corpo possa
oferecer de melhor. Porém o corpo, formado por ossos, músculos, tendões, tem o seu
funcionamento em sintonia com a mente, que controla e ajusta a estrutura
humana.
Nossa!
Havia escrito armadura em vez de estrutura,
mas não partilho da visão bélica da vida, porque o mundo anda muito
militarizado, pronto pra hostilidades. Não tenho temperamento pra confrontos e
batalhas, prefiro embates como o protagonizado pelos tenistas em Melbourne.
Pois em jogo de corpo inteiro, além da
técnica, há o amor.”
Sem queimar o filme...
A pessoa pode ocupar-se demais com a performance que não tem tempo pro amor
ao próximo ou pro amor a si própria. Parece-me uma tolice apontar que a prática
do esporte, ou de toda atividade, faça da gente um exemplo de cidadania.
E o envolvimento da pessoa com o que
faz? Só interessa o valor a ela atribuído pelo resultado do que faz? Aliás,
será “amor” a palavra certa pra definir o que está em jogo?
Todavia, reconheço o compromisso e a
confiança. Os bambambãs praticam o esporte como trabalho. E, como
trabalhadores, dão o que podem nas circunstâncias de cada partida. Daí o mérito
do bem feito. Mas há pessoas indignantes que têm jogo duca. E, para mim, entre
a bola boa e a bola fora há a linha.
E a linha não faz parte da quadra?
No momento, jogar dentro das regras
faz o match point.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de novembro de
2019.
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