domingo, 1 de dezembro de 2019

Crepúsculos


Crepúsculos

No alto do chão em que me encontro, acordo com a passarinhada na cantoria de quem bota fogo no mundo só com o bico.
Mal abro a janela e, pela perspectiva das seis da matina, dou com a frieza do ar. A ressaca da rotina impõe o sol subindo os degraus da sua escalada. O futuro da manhã não assobia presságios.
E esse espertinho que estava na mureta da sacada? Se mandou sem nem ao menos levarmos um lero? Meu corpo tem o seu relógio ajustado pelo verão que já se avizinha. Portanto, não se sinta culpado por ter acabado com o meu sono. Numa boa, amiguinho, volte aqui.
E nada? Na mesma.
Abro a porta da varanda da sala e, de repente, passa um troço no céu. Será possível mancha de petróleo com asas?
Melhor pegar receita pra tanto lixo químico que ando comendo.
Quanto sei de passarinhos e manifestações psicossomáticas? Ixe. Da balbúrdia da natureza, o bem-te-vi tem fácil reconhecimento pela onomatopeia que o distingue. O mais? Se dou por perdido o jogo de unir nome à coisa em si? Prefiro ir caminhar no calçadão. E vou.
No meio do exercício matinal, me veio à mente a jornada cumprida num sábado de 2004 ou 2005. Certeza mesmo? Confio que em 2003 não foi, pois tinha acabado de me mudar da região de Sorocaba pra Baixada Santista. Tinha saído das fraldas da infância pra vir assumir algo bem parecido com a autonomia da maturidade, algo assim.
O que foi que lembrei sem querer, ou querendo lembrar ao modo descontrolado da cabeça que pensa por mim o que nem me imagino capaz de lembrar? Recordei uma descida da Serra do Mar.
Descemos. Os quatro estudantes de Letras da Católica de Santos, que formávamos um grupinho da fuzarca dentro do grupo monitorado pelo pessoal do Caminhos do Mar, trilhamos o parque estadual. Lá de cima, partimos do estacionamento da Henry Borden? Apagou-se... Mas viemos até o pé, ao Cruzeiro, em Cubatão.
A vista espetacular da Costa da Mata Atlântica. Aos tropeços, aos escorregões. As tramas das sendas na mata. Quem dera livrar-se das picadas de muriçocas. A natureza: ao vivo e sem dó.
Fomos pela Estrada Velha. Lendo placas, passamos a saber dos marcos históricos do caminho que estávamos fazendo. Surpresa foi ir descobrindo a vida humana, com funcionários de empresas a subir e a descer pela área que julgávamos entregue à preservação do mico no cipó. Como um cenário selvagem? Uma floresta intocável, por lei. Aliás, a cobiça por novos conhecimentos não nos impediu de dar com o policiamento ecológico, da Florestal, cuidando pra que a gente não tirasse casquinha alguma, só fotos de suaçupitas e jerivás.
Caminhada feita. O sofá no lugar. Os livros nas estantes. O míope percebe... É nas cinzas que renasce um urupê.
Se guardo em mim que a Marquesa de Santos não pernoitou na casa de pedra da Serra, o que virou fumaça nesta tela sem parede?
Ô curió, não foram as faculdades; ê paruru, foi o diploma.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de dezembro de 2019.

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