Crônica do fado
De cara, a rua muda todo dia.
Ô coisa feia, a rua acordar daquele
jeito. Tão hospitaleira, todavia irreconhecível. Nem parece a mesma de ontem.
Com a expressão de quem, vendo o futuro, corre abraçar o rancor, naquela cara
amarrada por dentro. Com uma raiva insofismável, de quem cospe uns buracos
quando topa com pessoa que a vê tão passada.
Entranhada na cólica, a rua dá suas patadas,
como se, evidentes, as urgências dos transeuntes fossem dignas daquela
desfeita.
Tremelique assim, dona rua? Isso não é
do seu feitio, posto que seja uma rua de família. Com as senhoras que passeiam
filhotes de laço nas madeixas. Com os operários que se assentam em bicicletas
depois do corte de árvore passarinheira. Com câmeras de celular nos desvãos de
certas janelas, na peçonha do sigilo a que tudo assiste.
Mas que cara é essa? Vamos, o rapaz
tem preferência porque vai passando como quem cumpre lá um dever incontornável.
A obrigação vestiu-o de sapato tinindo e camisa polo cinza, pois era hora mesmo
de ir acatar as providências impingidas por carta, que as suas dívidas seguem gerando
um mar de boletos à porta do apartamento.
Ora, não entre numa roubada. Andanças
são assim mesmo.
Os prédios estão soltando móveis
indignados, certos da utilidade a perder de vista, por décadas não foram? Foram
nada, contradizem os trastes ingratos a descarregar no sopé do poste aquelas
memórias aos pedaços, varadas por cupins, as frágeis placas de fórmica de uso
contínuo, agora, regurgitadas.
O sol nasceu o dia, que prossegue na
luz. E o que poderia ter sido uma gentileza qualquer? Os instantes passam, vêm
como um tapa na cara, num expediente sem fim, sem óbice algum, já a lua no
poste.
A pobre da rua?
Sujeita a trotes no decorrer do
período, nas 24 horas sem fechar, a rua não dorme. Ainda mais quando rosnam cavaletes,
cones e fitas.
O que late na aorta?
A desforra, demovida com os víveres, parente
dos provimentos, o que a faz se portar tal qual fumante passivo. Ê nauseabundo
atributo que tasca cinzas na boca que tudo engole. Ê cloaca do mundo que digere
o vômito dos escarrados.
E o papo que a história não se repete?
A réplica é insulto contado vezes sem conta, até que saca o concreto do pensamento,
de calibre logicamente aferível. Sem encaixar as suas demandas clandestinas na
cabeça, este norte a menos põe torto o GPS, cuja rosa-dos-ventos trava, cravando
IML no céu aberto da vida.
Fala perdida. Essa fala novamente. E
de novo.
Onde ansiedade, o medo? Onde vergonha,
o revide?
Justa no feriado, a rua não tem folga.
Ô angústia para não acabar na mesma. A via, entretanto, abre o manto da
visibilidade. Ocupando, há espaço pro papelão da caixa de TV de largas
polegadas que vira colchão, junto ao poste, bem ali, junto ao muro.
O cartaz alerta que entulho não é
permitido.
À surdina, a berlinda logra a rua?
Ela sempre muda.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de novembro de
2019.
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