Dupla dinâmica
É hoje. A rua vai passando
sem pôr gosto de dar comigo, embora tire o corpo pelo sal, que estou a
trabalho. Sem um segundo pra ter à disposição algum acontecimento bem composto,
do osso à boca do cão no esforço de roer a fome. Outro dia de criança nos
malabares do sinal. Muitos vamos, a perder as forças pro celular que faz
questão de não ver, não ouvir e sequer responder. A dor não toca a quem avesso aos
invisíveis do mundo.
Então, afiado de
exemplos na língua dos verídicos, alguém aplica o que faz da roda uma pirâmide.
Entra a ralhar a raiva entre Gauguin e Van Gogh, Rimbaud e Verlaine, Batman e
Robin.
Não, a união de Batman e
Robin não cabe no rol do ódio que ama. Ainda mais naquelas roupinhas que herói
veste feito nome próprio na própria pele que revela a identidade secreta de
quem a enverga.
O importante é que o
sério é sério mesmo. Daí que o espetáculo da vida está em assentar a náusea, que
é preciso digerir a cena pelo âmago da comparação. Feito Sinatra e Martin. O
Martin, neste caso, é o Dean. O parceiro do Jerry. O Lewis, não aquele consorte
do Tom.
Ô bicho animado, óbvio
que isso inebria.
Mas a mente confusa entra
pôr errado o errado?
Se tivesse tirado uma
foto... Fotografia não come os papeizinhos. Cada ideia, cada pensamento. E rabiscando
frustração, a mão aceita amestrada as circunstâncias? Em vez da foto, um frevo
na máquina. Mas a letra poperô vira fantasma preso na agulha do elepê a rodar a
mente no refrão. Se pareço bobo, padeço em sê-lo. E dizem que todo bobo tem o
dom da compreensão. Como autoridade aceita que seja, nem é preciso pedir que
aja conforme. Por favor, siga um asno, mas sem o coice dos outros argumentos? Não
é o caso, já que ao bobo, que é bobo, não convém dar voz ao que imagina ter
vivo na cabeça. Faz-se de besta quem age desembestado? Por isso, pense, e pense
bem. Tanto sol pra pouco girassol, Florentina.
A tarde caindo. O jeito
é não se embananar com a realidade alheia ao magnetismo econômico. Afinal,
milhão atrai milhão até ir ao bilhão. O negócio é tirar o olho de tulipas, samambaias
e bromélias?
Nada como correr a praça,
jardim petrificado de ruas. Pra que ficar sacando a sede retida na fonte? Emperrada
de seca, a boca dá um trabalhão. O hálito empesteia. Os dentes amarelam. E
quando aberta, até os cães fogem.
Ô porre.
Vou logo tirando o sapato.
Não ligo a TV e não ponho pra carregar o celular. Tanto quero a cama que o sofá
vira uma. Meu coração em chamas põe fogo no branco e preto do retrato? Oxe. Por
um pastel de carne seca, babo.
Ô coisa irritante.
O fracasso nem pisca
diante dos fractais do labirinto na página. E não desliga nem ao virar a chave.
Quando pensa em dobrar a aposta, metida a lucrar com a esperança, morde a
língua.
Ô fiasco.
Não avanço a Clarice nem
durmo. A dupla martelando na moringa. Resignação e revolta, na primeira de todas
as crônicas.
Ê hoje que não passa.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de novembro de
2019.
Nenhum comentário:
Postar um comentário