domingo, 17 de novembro de 2019

Dupla dinâmica


Dupla dinâmica

É hoje. A rua vai passando sem pôr gosto de dar comigo, embora tire o corpo pelo sal, que estou a trabalho. Sem um segundo pra ter à disposição algum acontecimento bem composto, do osso à boca do cão no esforço de roer a fome. Outro dia de criança nos malabares do sinal. Muitos vamos, a perder as forças pro celular que faz questão de não ver, não ouvir e sequer responder. A dor não toca a quem avesso aos invisíveis do mundo.
Então, afiado de exemplos na língua dos verídicos, alguém aplica o que faz da roda uma pirâmide. Entra a ralhar a raiva entre Gauguin e Van Gogh, Rimbaud e Verlaine, Batman e Robin.
Não, a união de Batman e Robin não cabe no rol do ódio que ama. Ainda mais naquelas roupinhas que herói veste feito nome próprio na própria pele que revela a identidade secreta de quem a enverga.
O importante é que o sério é sério mesmo. Daí que o espetáculo da vida está em assentar a náusea, que é preciso digerir a cena pelo âmago da comparação. Feito Sinatra e Martin. O Martin, neste caso, é o Dean. O parceiro do Jerry. O Lewis, não aquele consorte do Tom.
Ô bicho animado, óbvio que isso inebria.
Mas a mente confusa entra pôr errado o errado?
Se tivesse tirado uma foto... Fotografia não come os papeizinhos. Cada ideia, cada pensamento. E rabiscando frustração, a mão aceita amestrada as circunstâncias? Em vez da foto, um frevo na máquina. Mas a letra poperô vira fantasma preso na agulha do elepê a rodar a mente no refrão. Se pareço bobo, padeço em sê-lo. E dizem que todo bobo tem o dom da compreensão. Como autoridade aceita que seja, nem é preciso pedir que aja conforme. Por favor, siga um asno, mas sem o coice dos outros argumentos? Não é o caso, já que ao bobo, que é bobo, não convém dar voz ao que imagina ter vivo na cabeça. Faz-se de besta quem age desembestado? Por isso, pense, e pense bem. Tanto sol pra pouco girassol, Florentina.
A tarde caindo. O jeito é não se embananar com a realidade alheia ao magnetismo econômico. Afinal, milhão atrai milhão até ir ao bilhão. O negócio é tirar o olho de tulipas, samambaias e bromélias?
Nada como correr a praça, jardim petrificado de ruas. Pra que ficar sacando a sede retida na fonte? Emperrada de seca, a boca dá um trabalhão. O hálito empesteia. Os dentes amarelam. E quando aberta, até os cães fogem.
Ô porre.
Vou logo tirando o sapato. Não ligo a TV e não ponho pra carregar o celular. Tanto quero a cama que o sofá vira uma. Meu coração em chamas põe fogo no branco e preto do retrato? Oxe. Por um pastel de carne seca, babo.
Ô coisa irritante.
O fracasso nem pisca diante dos fractais do labirinto na página. E não desliga nem ao virar a chave. Quando pensa em dobrar a aposta, metida a lucrar com a esperança, morde a língua.
Ô fiasco.
Não avanço a Clarice nem durmo. A dupla martelando na moringa. Resignação e revolta, na primeira de todas as crônicas.
Ê hoje que não passa.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de novembro de 2019.

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