terça-feira, 17 de dezembro de 2019

O olho da noite


O olho da noite

Se o dia promete, cumpra-se o ordenado pelo que se há de fazer.
Sentado à mesa de trabalho, a tanto de implicar com a insistência do vento a desnudar a face do espelho: que poesia haverá em ficar bulindo com as coisas da gente? Bafo da Terra, vá brincar lá na praia, tem tanto azul para poder pôr pra fora as suas asinhas.
Sem o susto do medo que prega peças, faço minha parte e, neste texto, vou movendo o fio do realismo, o elixir dos prosaicos, uma vez que, à cata de alguma personificação, não darei corda ao místico.
De prosa em prosa, com a mão do cronista abrindo mão da língua do vento, chego aonde o gatinho familiar do Manuel e as enigmáticas pedras do Carlos vão ninar o poeta, já fora de cena.
Uma vez que não acreditar em nada pode causar problemas, trato indispensável montar o quadro, ajeitar o figurino e decorar o texto.
O que tenho para dizer?
Conheço uma anedota, dessas que não fazem rir, que minha avó contava nas ocasiões mais esquisitas, quando a parábola soava mais estranha. Só depois, bem depois, quando as lufadas já não eram tão violentas, então a fresca tomava rumo, como frescor de brisa.
A historieta diz que um campônio estava indo pela estrada. Num saco às costas, levava queijos e compotas de doces; e num carrinho, um sortidão de vegetais.
A caminho do vilarejo mais próximo do lugar onde morava, ele ia vendendo os seus produtos. E tinha pressa.
Para aliviar-se das iguarias de açúcar, tanto punha fé que o sol as mudaria que até o saco foi logo vendido. E queria apressar-se.
Na lábia, professava que ia atrás de unguentos pros dedos tortos de trabalho. Quem o ouvia lamentar-se da faina dos dias comprava mais do que precisava. Ele sabia matar a sede que sugestionava.
Tendo já percorrido quatro partes da sua jornada, o pelintra viu-se com uma cebola. Como a estrada chegava ao fim, o jeito era negociar com quem aparecesse na frente.
Vindo dar-lhe as boas-vindas, da choça de palha a pique saiu um velhinho de andar pesaroso.
Cantou-se a ladainha de restar apenas aquela mísera cebola.
O ancião, assentando-se junto do andante, propôs comerem a tal cebola; repartida entre ambos, ao sabor da pinga do seu alambique.
Eles comiam, eles bebiam.
Falaram das noites frias que anunciavam o outono vindo, e o gole. Falaram dos dias do inverno que pediam despensas, outro gole. Daí a primavera aflorou de permeio, daí o gole derradeiro.
Não seria o caso de sair de mãos abanando.
Se o velhinho jogou de longe uma moeda de cobre nas mãos em concha da visita? Pois beberam juntos. O cego atirou-lhe uma moeda de prata? Que manhã boa tinha sido aquela. E como paga da farra na cidade, o homem da choupana deu-lhe a sua moeda de ouro.
Mostrasse as mãos; elas estavam sem nada. No sério da palavra, aí a cebola do ano germina em quem só tem olhos pra ver.
E foi, é?
Oxe. No véu do espelho, a lua de dezembro tá que nem pisca.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de dezembro de 2019.

Nenhum comentário:

Postar um comentário