domingo, 15 de dezembro de 2019

O ofício


O ofício

Quando abelhas param um ônibus, será sinal dos tempos?
Largo a notícia sobre os últimos eventos na Inglaterra eleitoral, no súbito da chuva. Corro às janelas, chove forte. E na chuvarada, umas crianças desgarram-se do pai e da mãe que vão conversando, como se chuva não houvesse.
Como não havia dessa vez, no recuperado do acontecimento.
Talvez me conjurem de tê-lo trazido pelo prazer da rememoração sem motivo. Não fosse o homem aí sentado no meio-fio com a boca escancarada pras nuvens que mandam água do céu.
Tirando sentido disso?
Lá estava eu, engessado na autoridade do paletó. Como padrinho, no engravatado da cerimônia. Sorrindo minhas dissimulações. Então, deu-se a entrada dum figurão do interior, da cidade paulista, que era Piedade.
Pelas tantas, veio o merecedor das devidas vênias. Mostrando-se, pelo porte, considerar-se vereador, prefeito, quiçá um dos magnatas do comércio, e mui digno dos maneirismos de alguns dos presentes.
A jovem e o jovem, os mocinhos, contavam com a vinda daquela agenda apertada. Providencial, mesmo, foi uma senhorita tomar-lhe o braço para composição do nosso lado, que ele era como éramos ali, testemunhas do casamento.
Se fosse uma história da carrochinha...
Quebrando o protocolo, tornado vilão pelas circunstâncias, um cão viria conferir o que estava ocorrendo. Sem convite que o autorizasse entrar, viria assuntar a mulheres e homens, com os seus olhinhos a indagar o motivo da reunião. Contudo, sendo conto de outra espécie, aqui não se verá no encalço do filósofo de patas o óbvio barnabé de laço na mão.
Com o ritual seguindo seu rumo, sequer a presença em cena do homem das ruas mereceu ter sido notada. O invisível seguia fora de foco àquela gente orgulhosa das conquistas, cidadãs e cidadãos que, nas palavras do pastor, houveram-se por abençoados.
Todavia, façamos jus a uma história que faz em cacos o esperado, pois o protocolo, uma vez introduzido na crônica, é para ser feito em pedacinhos.
Dito isso...
Quando a magia da celebração parecia já bem encaminhada, eis que duas menininhas, gêmeas até em suas roupinhas, ei-las a correr em meio aos convidados, na algazarra das trancinhas em disparada.
Acabei perdido do interesse no compartilhamento do fogo de uma vela para duas menores que a ladeavam. Adeus, metafísica. Adeus, ó metáfora do amor supremo. Adeus, adeus.
Fez-se a fila dos cumprimentos, noiva e noivo acolheram por bem recebê-las, as felicitações, com aquela resignação dos receptores da verdade, havida como fogo no sacramental da explicação.
Guardei ouvidos sobre o ministro, que era pai de satãs sem sutiã, que, embora constrangidas, ó hormônios do demônio, sabiam sorrir.
Tais olhares numa contradança?
Sob pancadas perdigotas de renitentes, a graça dos peraltas está em manter o clima sem ferrarmos o rebolado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de dezembro de 2019.

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