O
ofício
Quando abelhas param um ônibus, será
sinal dos tempos?
Largo a notícia sobre os últimos
eventos na Inglaterra eleitoral, no súbito da chuva. Corro às janelas, chove
forte. E na chuvarada, umas crianças desgarram-se do pai e da mãe que vão conversando,
como se chuva não houvesse.
Como não havia dessa vez, no
recuperado do acontecimento.
Talvez me conjurem de tê-lo trazido
pelo prazer da rememoração sem motivo. Não fosse o homem aí sentado no meio-fio
com a boca escancarada pras nuvens que mandam água do céu.
Tirando sentido disso?
Lá estava eu, engessado na autoridade
do paletó. Como padrinho, no engravatado da cerimônia. Sorrindo minhas dissimulações.
Então, deu-se a entrada dum figurão do interior, da cidade paulista, que era
Piedade.
Pelas tantas, veio o merecedor das devidas
vênias. Mostrando-se, pelo porte, considerar-se vereador, prefeito, quiçá um
dos magnatas do comércio, e mui digno dos maneirismos de alguns dos presentes.
A jovem e o jovem, os mocinhos, contavam
com a vinda daquela agenda apertada. Providencial, mesmo, foi uma senhorita tomar-lhe
o braço para composição do nosso lado, que ele era como éramos ali, testemunhas
do casamento.
Se fosse uma história da carrochinha...
Quebrando o protocolo, tornado vilão
pelas circunstâncias, um cão viria conferir o que estava ocorrendo. Sem convite
que o autorizasse entrar, viria assuntar a mulheres e homens, com os seus
olhinhos a indagar o motivo da reunião. Contudo, sendo conto de outra espécie, aqui
não se verá no encalço do filósofo de patas o óbvio barnabé de laço na mão.
Com o ritual seguindo seu rumo, sequer
a presença em cena do homem das ruas mereceu ter sido notada. O invisível
seguia fora de foco àquela gente orgulhosa das conquistas, cidadãs e cidadãos
que, nas palavras do pastor, houveram-se por abençoados.
Todavia, façamos jus a uma história
que faz em cacos o esperado, pois o protocolo, uma vez introduzido na crônica,
é para ser feito em pedacinhos.
Dito isso...
Quando a magia da celebração parecia já
bem encaminhada, eis que duas menininhas, gêmeas até em suas roupinhas, ei-las
a correr em meio aos convidados, na algazarra das trancinhas em disparada.
Acabei perdido do interesse no
compartilhamento do fogo de uma vela para duas menores que a ladeavam. Adeus,
metafísica. Adeus, ó metáfora do amor supremo. Adeus, adeus.
Fez-se a fila dos cumprimentos, noiva
e noivo acolheram por bem recebê-las, as felicitações, com aquela resignação dos
receptores da verdade, havida como fogo no sacramental da explicação.
Guardei ouvidos sobre o ministro, que
era pai de satãs sem sutiã, que, embora constrangidas, ó hormônios do demônio, sabiam
sorrir.
Tais olhares numa contradança?
Sob pancadas perdigotas de renitentes,
a graça dos peraltas está em manter o clima sem ferrarmos o rebolado.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 15 de dezembro de
2019.
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