sábado, 7 de dezembro de 2019

Sintonia fina


Sintonia fina

Miando, um gato deu a dica de que estava cercado de folhas por todos os lados. Empoleirado no galho do arbusto, e por saber o lugar que ocupa neste ponto entre Boqueirão e Forte, o tinhoso miava.
Nesta aprazível estância balneária, da varanda deste apartamento observo cães correndo atrás de passarinhos, passarinhos fugindo de gaviões, gaviões comendo restos na praia, a praia que acolhe quem a escolhe.
Ô simpatia.
Sei da orla a quarteirões daqui, mas simpático à ideia de que uma cidade praiana pode amáveis reflexões, teço gracejos, e até um gato na árvore vem para quebrar a manhã em duas.
Sim, em duas. Antes, quando o escriba foi às compras, não ouviu miado algum ao passar pela jabuticabeira, que nem era propriamente uma mas, para tornar apetitosa a leitura, fica transformada no meu pé de jabuticaba.
Em duas, como ia dizendo. Porque, voltando, eis o consumidor de sacolinhas na mão. Aliás, nem deveria estar carregando as quitandas neste tipo de material, pela difícil degradação do plástico.
Feitas as ressalvas, a da imaginação fantasiosa que manipula este cenário para benefício de quem lê e a da necessidade tão urgente da conscientização climática de quem lê e de quem escreve, passemos às artes do bicho de bigodes que mia a plenos pulmões.
Estaria o felino esgoelando a incompetência pra descer do lugar a que subiu por capricho? Idiossincrasia apenas dele ou da espécie? A tais perguntas o texto não encontra respostas.
O quê!
As boas e samaritanas mãos da dona do miau acorreram e deu-se o resgate. Proporcionando a todos uma cena tocante.
Haja vista ter testemunhado o tatibitate capaz de tirar ronronados mesmo deste cínico, admirador confesso dos cães de rua, o narrador compadecido permitiu-se sorrir.
Mas, este bichano é outro bicho.
Afável ou emburrado, eis que o escrevinhador partia em missão ao comércio da avenida. Indo atrás do ansiolítico e buscando tinta para a impressora. Pondo ordem nos fatos? Antes das compras, desfrute-se uma casquinha, sentado no calçadão, com o marzão de horizonte.
Teria sido o roteiro da tarde, mas outro animal entrou outra vez no meio do caminho de quem ia e parou. E parado, pôde ouvir.
O gato da goiabeira era zarolho, este é malhado.
Goiabeira?
De fato, querem tumultuar a narrativa. Porém, o homem que narra viu no celular que a moça e o alpinista não eram os mesmos.
Boquiabertos; houve quem desse um passinho atrás, acusando o cronista de alcoolizado em serviço; ele jura que não bebe há meses e sequer tomou o café das três.
Assinaladas as incongruências, que a presente crônica relate que: o filhote e a senhorita passam bem; o siamês cego fica se lambendo diante dos eventos; como beija-flor-das-acácias, falta o gato que falta; o chão segue firme na calçada; todo e qualquer gato é bicho.
Reparando os gatos... A sutileza está no miado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de dezembro de 2019.

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